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Liga dos Campeões

Em Camp Nou não vês a bola. Em Turim vês Dybala

Déjà vu? Quase. O Barcelona foi goleado pela Juventus, em Turim, na 1ª mão dos quartos de final da Liga dos Campeões, com dois golos de Dybala e um de Chiellini. Haverá nova remontada épica?

Mariana Cabral

O argentino Paulo Dybala já marcou 14 golos esta época

GIUSEPPE CACACE/GETTY

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Vamos começar pelo óbvio: a Juventus não é o PSG.

E, depois, pelo que começa a ser cada vez mais óbvio: o Barcelona já tem muito pouco de Barcelona - o que não tem necessariamente a ver com o resultado de hoje.

Leonardo Bonucci, "o médio que faz de defesa", como o próprio se descreve nesta entrevista deliciosa (AQUI), ou apenas um jogador cheio de classe, como alguém que gosta de futebol o descreveria, ajuda-nos a perceber melhor estas duas sentenças.

Primeiro, pela reação que teve quando percebeu que a Juventus ia defrontar os catalães nos quartos de final da Liga dos Campeões, depois daquela reviravolta épica frente ao PSG: "Olhem, saiu o Barcelona. Vamos treinar".

Depois, pelo que explicou na tal entrevista ao "El País": "Eles já estão há três anos com o mesmo treinador e isso ajuda. O Neymar deu um grande salto de qualidade, o Mascherano tem mais dois anos de experiência como defesa, o Rakitic está mais maduro... Mas creio que hoje em dia estão abaixo do nível que tinham em 2015. Para mim, o Bayern de Munique é mais forte e tenho a certeza que nunca permitiria uma reviravolta como a que o PSG permitiu em Camp Nou".

Não, este Barcelona não é aquele Barcelona que roubou a Liga dos Campeões à Juventus em 2015 (3-1) e nem foi preciso a bola começar a rolar para percebê-lo.

Sem Busquets, suspenso, os catalães não perderam só o homem que nunca está mal posicionado, mas o 'seis' que pausa todo o jogo da equipa, para os outros o acelerarem.

Em troca, por cortesia de Luis Enrique, o espaço em frente à defesa do Barcelona voltou a ser ocupado por Mascherano - o 'seis' que passou a ser central - (André Gomes começou no banco), e o mal-amado Mathieu entrou mais para trás, ao lado de Umtiti e Piqué, para uma defesa a três.

O resultado prático disto (e de uma filosofia de jogo que vem sendo cada vez mais esquecida) foi simples: o jogo já tinha começado há dez minutos quando o Barcelona finalmente conseguiu ter bola e aproximar-se da área adversária.

O pormenor é que isso só aconteceu... porque a Juventus quis. É que a equipa de Allegri, em casa, impôs o ritmo e, desde o início do jogo, abafou completamente a saída de bola dos catalães, obrigando Ter Stegen a despachar rapidamente aquele que costumava ser o bem mais precioso da equipa.

Voltemos a Bonucci:

"[Em 2015] Tínhamos Marchisio, Vidal, Pirlo e Pogba... Deram tanto na final que por um momento conseguimos impôr-nos. Agora é diferente, com outros jogadores, mas amadurecemos na gestão da posse da bola e no entendimento sobre quando defender e atacar."

Com bola, a Juventus carregou pelos corredores laterais adversários e a defesa do Barcelona não foi mais do que um enorme buraco, permitindo o golo de Dybala logo aos 7'.

MIGUEL MEDINA

Mathieu, (sempre) passivo perante Cuadrado, permitiu o passe para o avançado argentino, no interior da área do Barcelona - com Neymar a fazer uma cobertura deficiente e Iniesta a demorar muito a reagir.

É que há uma enorme diferença entre estar habituado a defender sem bola, como faz a Juventus, e estar habituado a defender com bola, como costumava fazer o Barcelona.

Mais Bonucci:

"Para mim, a nossa defesa é melhor. Estamos juntos há muitos anos e já mostrámos o que somos capazes com esta equipa e também com a seleção italiana, na qual somos titulares. E, numa competição onde vale mais o golo fora, tens vantagem se não sofreres golos. Mas, no final, trata-se de ter personalidade com a bola e sacrifício sem ela."

Sacrifício é o que não falta aos italianos e foi por isso que, depois do golo, a tal postura pressionante da Juventus transfigurou-se para uma postura cautelosa, com os sectores muito mais baixos e próximos, para não permitir oportunidades a um Barcelona que já vive mais da procura rápida da profundidade ofensiva do que da posse de bola paciente.

MARCO BERTORELLO/GETTY

Só que, por muito mal que tudo corra, há sempre em campo um 'dez' que, de um momento para o outro, deixa todos de queixo caído: Lionel Messi. Com um passe absolutamente fenomenal - de uma assentada, ultrapassou metade da equipa italiana - isolou Iniesta na cara de Buffon, mas o guarda-redes de 39 anos desviou o remate e festejou com a convição de quem acredita que é desta que vai mesmo conquistar a Liga dos Campeões.

Pelo menos esta noite, os italianos fizeram bem mais por merecê-la. Aos 22', Dybala voltou a aparecer sozinho na área do Barcelona - Mascherano ia bem mais atrás - e, de primeira, fez o 2-0.

O choque - ou melhor, o déjà vu? - nos catalães era evidente e, ao intervalo, Luis Enrique passou ao plano B: saiu Mathieu, Mascherano recuou e André Gomes entrou para o meio-campo.

Ainda assim, quem começou a criar perigo foi novamente a Juventus. Ter Stegen defendeu um remate perigoso de Higuaín e, aos 55', num canto, Mascherano voltou a ficar aos papéis e a permitir o cabeceamento de Chiellini, o central que se tornou esta semana mestre em Administração de Empresas na Universidade de Turim (a sério).

3-0.

Confortável com o resultado - e no jogo -, a Juventus recuou no campo e o Barcelona finalmente assumiu mais a bola, mas a inspiração raramente era coletiva - dependia apenas de um 'dez' que se fartou de criar oportunidades para os colegas: isolou Suárez à frente de Buffon e encontrou Sergi Roberto (mal tocou na bola esta noite) na área, num lance que acabou com um remate de Neymar para a mão de Chiellini.

Até final, o Barcelona ainda continuou perto da baliza de Buffon, mas nunca conseguiu concretizar. E, agora, em Camp Nou, vai ter de marcar quatro para seguir em frente. É possível? Claro que é. É preciso não esquecer que os catalães perderam com o PSG por 4-0 e depois deram a volta à eliminatória.

Bonucci, pela última vez:

"Nunca joguei em Camp Nou. No outro dia, a falar com o Verratti [jogador do PSG], ele disse-me que ali nunca vês a bola e que não se pode pressionar porque o campo é enorme".

Só que, voltando ao início, a Juventus não é o PSG. E, agora, não precisa da bola para nada.

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