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Munique, te quiero. Assinado: Ronaldo

Continua a história de amor de Cristiano Ronaldo com a Allianz Arena, casa do Bayern Munique. Depois dos dois golos marcados nas meias-finais de 2013/14, a caminho de La Decima, o português voltou a bisar em Munique e o Real Madrid vai para a 2.ª mão com uma vantagem de 2-1

Lídia Paralta Gomes

FILIP SINGER/EPA

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Antes do reencontro com o Real Madrid, Carlo Ancelotti não foi de modas e questionado sobre a BBC, ou seja, Bale, Benzema e Ronaldo e não o serviço de radiotelevisão das ilhas britânicas, foi sincero.

“Oxalá que amanhã seja Cristiano no banco, Benzema nas bancadas e Bale em sua casa”.

Os deuses do futebol, porém, fizeram ouvidos moucos ao italiano e esta noite, na Allianz Arena de Munique, foi mais Bale à figura, Benzema ao poste e Cristiano lá dentro. Duas vezes.

Pois é, tal como em 2013/14, na altura a caminho de Lisboa e da Decima, o Real Madrid foi a Munique vencer o Bayern e, tal como em 2013/14, Cristiano marcou dois, num jogo que os merengues começaram a perder, viram o Bayern falhar um penálti mas, com uma 2.ª parte de paciência, personalidade e experiência, deram a volta ao texto. Vão para a 2.ª mão destes quartos-de-final com uma vantagem de 2-1 e essa alavanca moral que é estar muito apertado e conseguir sair por cima.

Porque Cristiano continua a ter uma bela história de amor com a Allianz Arena, que não é dos piores sítios com quem ter uma história de amor - e para fazer o golo 100 em competições da UEFA também, por exemplo.

Ele que até começou com dificuldades, ao sabor das dificuldades do Real, que nos primeiros minutos mal tocou na bola, quanto mais chegar à área do Bayern. Mas a paciência foi chave ao longo de todo o jogo e foi com ela que o Real foi pegando no jogo, até chegar a primeira oportunidade, uma cabeçada de Benzema aos 18 minutos que Manuel Neuer defendeu para a trave.

O susto acabou por dar uma abanadela à equipa da casa que começou a lançar avisos: primeiro por Robben, que tentou fazer uma jogada à Robben, daquelas em que vai pela ala, flete para o meio e remata, depois foi Alaba a tentar a sua sorte e por fim Ribery, com um tiro que acertou em cheio em Bale e terá deixado o galês meio abananado.

Não tanto quanto a baliza do Real Madrid quando num canto, aos 25 minutos, Arturo Vidal fugiu a Nacho a toda a velocidade e dá aquilo que na rua chamamos de “marrada”, uma cabeçada fulgurante que abriu o marcador. Dizer que o remate foi à figura de Navas será injusto para o guardião costa-riquenho: foi mais à queima-roupa.

O chileno, rapaz de força, ia repetindo a graça já perto do intervalo: não foi num canto, mas sim num cruzamento de Robben e desta vez a “marrada” saiu ligeiramente ao lado. E de quase duplo-herói, Vidal passou logo a seguir a vilão, ao falhar uma grande penalidade mesmo antes do árbitro mandar toda a gente para intervalo: o tiro saiu por cima da barra.

LLUIS GENE/Getty

Não há bons momentos para falhar uma grande penalidade, mas a segundos do intervalo pode ser meia fatalidade.

Porque o Real Madrid é uma equipa que, por estes dias, dá um certo ar de senhor respeitável. Parece nunca perder a compostura, nunca desesperar. A experiência é isso mesmo. E logo após o regresso dos artistas ao relvado, Cristiano, também ele já um senhor de 32 anos, achou que era boa hora para pegar no papel e na caneta e começar a escrever mais um capítulo da história de amor a Munique.

Que passo a citar:

“Querida Munique,

A última vez que cá estive demos um arraso de bola ao Bayern, que foi um bom anfitrião. Marquei dois golos e o Sérgio Ramos outros dois. Esta noite as coisas não estão a correr tão bem e ainda por cima esta época toda a gente diz que eu já não sou o mesmo Cristiano. Eu acho que estão ligeiramente enganos, por isso vou responder com um meio-vólei cruzado a este cruzamento do Carvajal. Olha, já empatei isto”.

Enquanto Ronaldo descansava a pena, Neuer ia defendendo tudo e mais alguma coisa: primeiro um cabeceamento de Bale, aos 56 minutos, e depois um remate cruzado de Benzema já dentro da área. Pelo meio, Javi Martinez tinha sido expulso: dois amarelos em quatro minutos, o segundo após parar uma arrancada de Cristiano.

Cristiano que entretanto continuava a escrever a sua carta.

“Munique: acabei de rematar na área contra o Neuer, que hoje está intransponível, mas não há quem não ache que não vamos ganhar isto, porque eu estou a jogar como o antigo Ronaldo, aquele que marcava 50 golos por época e não os 27, que é coisa de jogador normal. O Bayern, nesta 2.ª parte, praticamente não existiu. Bem, entretanto estamos nos 77 minutos e está na hora de resolver isto: olha, aí vem um cruzamento do Asensio, deixa cá meter a sola e marcar o segundo”.

E assim, a umas horas da Páscoa, eis que Ronaldo renasceu. Na altura em que o Real Madrid mais precisava dele.

"Munique, te quiero. Assinado: Ronaldo"

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