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Liga dos Campeões

Os homens não são de ferro e eles também não o foram

Um dia depois de um atentado ferir Bartra no autocarro da equipa, os jogadores do Borussia Dortmund foram lentos, desconcentrados e apáticos durante demasiado tempo, enquanto o AS Monaco voltava a brilhar na Liga dos Campeões. Mbappé marcou dois golos e a equipa de Leonardo Jardim ganhou (2-3) na primeira mão dos quartos-de-final

Diogo Pombo

SASCHA SCHUERMANN

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Um tipo que veem todos os dias, durante horas, com quem partilham profissão e local de trabalho, é ferido e vai para o hospital. É um atentado e são três as explosões perto do autocarro que causam isto e deixam toda a gente de uma equipa em choque, de rastos e preocupados.

Apetecer-lhe-ia jogar à bola depois disto?

A mim também não. Mas como vivemos num mundo dividido em dois, o lado que vê futebol acha que o lado que o joga, o mesmo que ganha milhares e milhões e muitos zeros à direita dos números, tem a obrigação de ser, fazer e comportar-se como um robô perfeito e eficiente apesar de tudo, por ser pago como é. Mas uma das verdades do mundo em que estes dois mundos existem, é que não há perfeição nem humanos a comportarem-se como máquinas.

Não é de espantar que os jogadores que estavam no autocarro, os que ouviram e sentiram a explosão e viram um colega, talvez amigo, a ficar ferido e a ser operado num hospital, não sejam eles próprios. Marc Bartra está nas t-shirts que eles vestem para o aquecimento e na cabeça que têm de usar durante o jogo. O Borussia não é o Borussia que mantém os jogadores próximos com a bola para pressionarem, rápidos, intensos e com cercos, quando a perdem.

Eles não são os passes lentos e calculados para o lado, que enganam e adormecem até aparecer o tempo e o espaço para encontrarem Aubameyang na profundidade das costas do adversário. O Dortmund não é a máquina de pressão e contra-pressão, não é rápido a decidir e a reagir e, por consequência, a jogar. Eles podem não estar a pensar nas explosões, no choque, em Bartra ou na preocupação, mas isso tudo está-lhes na cabeça que parece não se concentrar no que eles têm à frente - uma equipa do Monaco que se encolhe porque quer, não liga muito à bola e convida quem joga contra ela a acelerar e pressionar e ir para cima.

Porque, depois, sabe o que é deixar homens perto das linhas, usá-los para atacar rápido os espaços e dar uma vida rápida à bola.

Tudo acontece num ápice

O penálti que Mbappé ganha nas costas de defesa e que pára a bola que Fabinho remata ao lado. O contra-ataque que Bernardo Silva acelera durante 50 metros, antes de soltar a bola para Lemar a cruzar e Mbappé, com a bacia ou algo que lá tem, desviar a bola e mostrar como se marca um 1-0 ao fim de quatro passes. A bola que chega a Raggi, um central grande, forte e mau improvisado a lateral, para a cruzar à esquerda e Bender, na área, a cabecear com estilo, demasiado para quem o faz para a própria baliza.

SASCHA SCHUERMANN

Os alemães assistem lentos, desconcentrados, apáticos e fora deles ao 2-0 e a tudo o que se passa - e sai automático ao Monaco, em que não se repara que está a jogar sem os laterais do costume (Sibiddé e Mendy estão suspensos) e o trinco (Bakayoko) que costuma andar por todo o lado para impor o corpo e roubar bolas.

Quando a cabeça passa a estar no orgulho, na concentração, em honrar Bartra e em jogar para reagir ao atentado com alegria e não para se encolherem perante ele com tristeza, os alemães mudam. Raphaël Guerreiro sai do meio e encosta-se à linha e Christian Pulisic entra para se colar à outra. Eles ficam com homens mais rápidos, com mais finta e maior eficácia a cruzar bolas nas alas e passam a ter Dembélé mais ao centro, a orbitar em torno de Aubameyang.

Eles concentraram-se, aceleraram as trocas de bola e foram mais rápidos a decidir. Juntaram mais gente no meio do campo e insistiram no engodo de atrair ali a pressão do Monaco para, depois, variar passes para as alas. Tornaram-se perigosos com os cruzamentos, as bolas nas costas e a pressão à entrada da área.

Subiram o nível e pareceram-se mais com o Borussia pré-explosões.

Saíram-lhes coisas bonitas, como a bola cruzada por Guerreiro e desviada - no acaso ou na intenção, nunca vamos saber - do calcanhar de Aubameyang, que isolou Kagawa para o japonês desviar a bola do guarda-redes e deixar Dembélé marcar. Continuaram-lhes a sair coisas na falta de pernas de Raggi para Pulisic, nas bolas cruzadas por Raphaël e nas ligações que todos tentavam fazer com o gabonês que joga na frente, mas a concentração não dura para sempre.

Quando os três centrais tentaram trocar passes lá atrás, perigosamente perto da linha do meio campo, onde o Monaco montava a linha de pressão, Lukasz Piszczek quis dar uma bola lenta a Sokratis, tão lenta que Mbappé chegou-lhe primeiro, desviou-a, arrancou e nos mostrou o que é ser precoce - aos 18 anos, encarou Bürki, sempre com os olhos no guarda-redes, esperou e rematou em arco, sem entrar na área. A calma de um adolescente que tem 20 golos e cinco assistências esta época.

Os golos dele, os passes e interceções simples de Moutinho, as corridas de Bernardo e a luta de Falcao, que falhou um golo cantado no fim da única transição com passes certo desde trás na segunda parte, não valem mais por causa de Kagawa. Perto do fim, o japonês dominou a bola, simulou um remate, desviou-se de um adversário e fez o 2-3 dentro de uma cabine telefónica. E com a serenidade que o Borussia nunca teve depois do que aconteceu ontem.

Porque ninguém é ferro e os homens não são máquinas, por mais dinheiro que lhes caia na conta ao final do mês. E como “alguém na Suíça” quis que jogassem, mesmo depois das explosões, como disse o treinador Thomas Tuchel, isso ficou provado.

PATRIK STOLLARZ

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