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Polícia alemã investiga potenciais “ligações islamitas” no ataque ao Borussia Dortmund

Na carta encontrada perto do local das explosões, há referências ao ataque de dezembro contra um mercado de natal em Berlim, reivindicado pelo Daesh, e às operações militares da Alemanha na Síria. “Süddeutsche Zeitung” e BBC referem que as explosões não se assemelham a anteriores atentados desta natureza e falam numa possível tentativa de desorientar os investigadores

Joana Azevedo Viana

Maja Hitij

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As autoridades alemãs estão a investigar a possibilidade de o ataque de terça-feira à equipa de futebol Borussia Dortmund ter sido executado por um grupo radical islamita, embora ainda estejam a tentar apurar a autenticidade de uma carta encontrada no local das explosões, a alguns quilómetros de distância do estádio da equipa alemã.

A notícia está a ser avançada esta quarta-feira pelos media locais, que referem que a carta contém referências ao atentado de dezembro contra um mercado de natal em Berlim, que foi reivindicado pelo autoproclamado Estado Islâmico (Daesh), e às operações militares em curso na Síria. Para já, ainda não foi apurado se a missiva é genuína e as autoridades ainda não divulgaram publicamente o seu conteúdo.

O internacional Marc Bartra foi o único passageiro do autocarro a ficar ferido nas três explosões, a par de um agente da escolta policial. Os engenhos foram detonados quando a equipa se dirigia para o estádio, onde ia disputar os quartos de final da Liga dos Campeões com o Mónaco. Bartra ficou com um pulso partido e teve de ser internado para uma cirurgia de emergência. "Marc Bartra foi sujeito a uma cirurgia na terça à noite após partir o rádio [osso do antebraço] e ficar com detritos alojados na mão como resultado do ataque à bomba", anunciou a equipa em comunicado.

O "Süddeutsche Zeitung" avança hoje que a carta encontrada, cujo texto é inaugurado com a frase "em nome de Alá", menciona o uso de caças Tornado pelas forças alemãs no âmbito da ofensiva da coligação internacional liderada pelos EUA para derrotar o Daesh na Síria e no Iraque. O mesmo jornal refere, contudo, a possibilidade de os responsáveis estarem deliberadamente a tentar desorientar os investigadores com estas referências. A procuradoria-geral alemã, que é responsável pelas investigações a atos terroristas, já está a tentar apurar a autenticidade da missiva.

O que aconteceu?

A polícia explicou ontem que "três explosivos foram detonados" perto de Höchsten, nos arredores de Dortmund, pelas 19h locais, à passagem do autocarro que transportava a equipa alemã para o jogo contra o Mónaco. As primeiras indicações, acrescentaram as autoridades, são de que se tratou de "um ataque com explosivos a sério".

Imagens do local do crime mostram as janelas do autocarro partidas e pneus rebentados pela força das explosões. Em conferência de imprensa, o chefe da polícia de Dortmund garantiu que o ataque tinha como alvo a equipa de futebol. Os media avançaram depois que os explosivos estavam escondidos numa cerca à beira da estrada.

Ao site suíço Blick, o guarda-redes do Dortmund, Roman Burki, relatou como o autocarro tinha acabado de fazer uma curva para entrar na estrada principal que conduz ao estádio quando se ouviu um barulho ensurdecedor. Os jogadores mandaram-se ao chão do autocarro, sem saberem se mais explosões se seguiriam.

Os fãs do Borussia Dortmund já estavam no estádio, com capacidade para 80 mil espectadores, a aguardar a equipa quando se deram as explosões, tendo sido aconselhados a aguardarem pelas operações de evacuação do espaço. No final, a polícia agradeceu a cooperação de todos os que iam assistir ao jogo.

Islâmicos radicais ou extrema-direita?

O correspondente da BBC em Berlim, Damien McGuinness, refere hoje que o ataque não parece ter muito em comum com anteriores atentados de grupos radicais islâmicos. Os explosivos usados não foram preparados para causar máximos danos entre uma multidão como noutros ataques, nem pareciam ter como alvo o estádio, que fica a vários quilómetros de distância do local do crime.

"Uma possibilidade é que este tenha sido um ataque da extrema-direita alemã", sugere Damien McGuinness. "Esta equipa, o Borussia Dortmund, tem sido atormentada por hooligans violentos de extrema-direita. Uma recente operação contra extremistas de extrema-direita já levou a proibições de entrada em estádios, que resultaram em ameaças de morte contra um treinador em fevereiro."

Na sequência das explosões, o jogo contra o Mónaco foi adiado para as 18h45 locais desta quarta-feira. "Tantos agentes da polícia quanto for possível" serão destacados para a partida de futebol, garantiu o chefe da polícia de Dortmund.

O presidente da UEFA, Aleksander Ceferin, já disse estar "profundamente perturbado pelas explosões", adiantando em comunicado que "a decisão de adiar o jogo foi correta já que se deve sempre dar prioridade à segurança de todos os fãs, membros das equipas e jogadores".

O Borussia Dortmund acrescentou ontem que a equipa vai disputar os quartos de final da Liga dos Campeões "pelo Marc". "Toda a equipa está em estado de choque, não dá para tirar aquelas imagens da cabeça. Espero que a equipa esteja capaz de competir amanhã [hoje] no campo. Numa situação de crise como esta, o Borussia fica unido."