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Liga dos Campeões

Remontada, disse ela

Ela, a Liga dos Campeões. As quatro equipas que perderam na primeira mão dos quartos-de-final são obrigadas a marcar, pelo menos, dois golos, para chegarem às “meias”. Ou quatro, no caso do Barcelona, que pode já ter esgotado todos os créditos com a reviravolta épica que conseguiu frente ao Paris Saint-Germain - que, já agora, está longe de ser a Juventus

Diogo Pombo

“Está a ver ali?” pode ter sido o que Leonardo Bonucci disse a Lionel Messi, na primeira mão, ao apontar para o resultado de 3-0 com que a Juventus bateu o Barcelona. Os catalães terão de se esforçar para tentarem mais uma remontada nesta Liga dos Campeões

Foto Marco Bertorello/Getty

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Remontar. Se formos espreitar ao dicionário, existe todo um conjunto de possibilidades para nos explicar o que isto significa: “1. Fazer subir a lugar elevado; 2. Elevar muito; 3. Adornar as extremidades de; 4. Encimar; 5. Substituir por outro (o gado de um regimento); 6. Consertar, remendar (botas); 7. Elevar-se muito; sublimar-se; 8. Ir buscar a sua origem ou data; 9. Volver muito atrás no passado”.

Só há aqui um ponto que nos fala em superação e fazer melhor do que esperam de nós, o que é mais do que nada dizer sobre virar um resultado que nos é desfavorável. É o problema de os dicionários não levarem em conta o futebol que pode haver, e há, dentro das palavras. Porque remontar é o verbo que os nossos amigos espanhóis sempre usam quando há que dar a volta a um resultado. E remontada é a palavra em que eles adoram pegar nas alturas em que é preciso montar numa cavalgada gloriosa.

Parando de dourar a pílula, é basicamente isto que certas equipas terão feito, caso logrem chegar às meias-finais da Liga dos Campeões. Falamos das quatro que perderam a primeira mão dos quartos-de-final e que são obrigadas a marcar, pelo menos, dois golos, para que tudo quanto é jornal espanhol fale delas com a tal palavra.

No caso do Barcelona, terá de marcar quatro.

É que os catalães provaram (outra vez) que já não são o que eram. A equipa imune à pressão, que sai a jogar de onde quer, que domina sempre na bola e se impõe a toda a gente divide com esse domínio, é a que hoje erra passes e perde a bola se for pressionada perto da própria área; que já prefere estradas diretas às curvas e contracurvas; e cujo mando na bola já é, várias vezes, infrutífero e vazio de significado. O Paris Saint-Germain já o tinha mostrado antes de se encolher e de ser engolido pelo acontecimento, em Camp Nou, e a Juventus tornou-o evidente há uma semana, em Turim.

Em números, o 3-0 de agora é mais fácil de remontar que o 4-0 de há umas semanas, mas os italianos não são os franceses. Eles são uma equipa de jogadores experientes, rodados, manhosos no jogo e sem manhas na cabeça que os façam sentirem-se desconfortáveis com a uma ideia - a de passarem hora e meia sem a bola e com a paciência que é necessária para aguentarem um Barça que, bom ou mau, lhes vai cair em cima (terça-feira, 19h45, Sport TV1).

Antoine Griezmann fez o 1-0 da primeira mão e, para variar, conseguiu-o de penálti (tinha falhado os três anteriores que teve para bater)

Antoine Griezmann fez o 1-0 da primeira mão e, para variar, conseguiu-o de penálti (tinha falhado os três anteriores que teve para bater)

Foto David Ramos/Getty Images

Com as devidas salvaguardas, é mais ou menos isto que acontecerá com o Atlético de Madrid, a equipa do esforço, da superação, da luta e da garra à imagem do treinador, que vai proteger a vantagem de um golo a Leicester (quarta-feira, Sport TV2), a equipa das surpresas, do conto de fadas e que ninguém sabe bem do que é capaz quando tem de assumir o jogo e atacar muito.

Mas sabemos bem como uma certa equipa é quando tem um prejuízo a dar-lhe corda. O Bayern de Munique de Carlo Ancelotti ainda tem coisas de Pep Guardiola - a muita bola, os muitos passes e o muito jogo de posição (em suma, o explorar e abrir espaços através da posse de bola e de jogadores a mexer sem ela) estão lá - e o italiano deu à equipa mais rapidez, agressividade e intensidade perto da baliza. Só que isso resultou em três remates na baliza contra os 12 do Real Madrid e uma derrota (1-2) na primeira mão contra a equipa que vive para esta competição e daí vem a tendência de jogar bem e melhor do que costuma quando se apanha nela.

Tanto que, em Valdebebas, no centro de treinos, o Real não tem imagens de tipos que ganharam campeonatos ou taças pelo clube, mas de quem venceu a Liga dos Campeões. Disse-o Xabi Alonso, o trintão prestes a retirar-se, que jogou cinco épocas nos merengues, vai acabar de jogar no Bayern e regressa (terça-feira, RTP1) agora a Madrid. Ele saberá bem como estas partidas são a doer e como, aos espanhóis, doem mais que as outras, para o bem e para o mal. É por isso que eles fazem jogos dos grandes, como em Munique, no meio de muitos assim-assim que têm feito esta temporada.

Arjen Robben é um dos trintões (está com 33 anos) do Bayern para quem esta poderá ser a última oportunidade de chegar a outra final da Liga dos Campeões

Arjen Robben é um dos trintões (está com 33 anos) do Bayern para quem esta poderá ser a última oportunidade de chegar a outra final da Liga dos Campeões

Foto ODD ANDERSEN/AFP/Getty Images

É o que dá jogar com matulões como Cristiano Ronaldo, que já marcou golos em todos os minutos de um jogo e diz que prepara o físico para ter um pico de forma nestas alturas da época - em que se joga a temporada e se chega à fase que realmente interessa da Liga dos Campeões.

Algo que foi impossível os jogadores do Borussia Dortmund sequer tentarem, há uma semana. O ataque à bomba que o autocarro da equipa sofreu fê-los sofrer, muito, sem que a UEFA tivesse em conta esse sofrimento e agendasse a partida com o AS Monaco para o dia seguinte. Os franceses ganharam (2-3) e, no final do jogo, os alemães “choraram todos no balneário”. Roman Bürki, guarda-redes do Borussia, foi dos mais críticos com a decisão de realizar o jogo após o atentado que deixou Marc Bartra ferido e deu um bicho à cabeça dos germânicos que foram ultrapassados pelo frenético e contra-atacante estilo de jogo da equipa de Leonardo Jardim.

Thomas Lemar é um dos novatos e rápidos jogadores que Leonardo Jardim tem aproveitado no AS Monaco

Thomas Lemar é um dos novatos e rápidos jogadores que Leonardo Jardim tem aproveitado no AS Monaco

Foto PATRIK STOLLARZ/AFP/Getty Images

Para a segunda mão (quarta-feira, Sport TV2), os alemães terão de arriscar, pressionar, colocar mais jogadores na frente, envolvidos nas jogadas e a pedirem bola, e esticar a equipa para a frente. Têm que se pôr precisamente como os franceses gostam de ter os adversários: com espaços entre eles e nas costas deles, para Mbappé, Bernardo Silva, Lemar ou Falcao atacarem em velocidade. É um risco dos grandes, mas terá de ser.

Porque, lá está, é preciso remontar.

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