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Liga dos Campeões

Ai é tão lindo o futebol de ataque

Tal como na 1.ª mão, Mónaco e Borussia Dortmund voltaram a dar um show de ataque e, tal como há uma semana, o Mónaco chegou mais rápido e mais vezes à baliza do adversário. Depois do 3-2 na Alemanha, a equipa de Leonardo Jardim venceu por 2-1 e está nas meias-finais da Champions, pela primeira vez em 13 anos

Lídia Paralta Gomes

VALERY HACHE/Getty

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Quando me perguntam por jogos de bola que me tenham ficado na cabeça, muitas vezes falo daquele Barcelona-Inter, meias-finais da Champions de 2010. Aquele em que às tantas já Eto’o jogava a defesa-esquerdo, contra aquele super-Barcelona de Guardiola que terraplanava a Europa do futebol, até que se lhe apareceu um José Mourinho à frente.

Há beleza nos jogos de resiliência, de quem dá o que tem e o que não tem, de quem se desunha todo para ganhar uma eliminatória. Esse Inter, a jogar com 10, frente à melhor equipa do Mundo, eh pá, desculpem, aquilo emocionou-me.

Mas bem, a luta, o suor, o esforço, tudo isso é muito respeitável e merece a minha vénia e admiração, mas do que nós gostamos mesmo é bom futebol. E é tão lindo um bom jogo de futebol de ataque.

Como os 180 minutos que Mónaco e Borussia Dortmund nos deram nestes quartos de final da Liga dos Campeões. Depois da 1.ª mão ter terminado com um 3-2, com vantagem para o Mónaco, no way que a 2.ª mão ia ser um jogo chato. E não foi, naturalmente, até porque frente a frente nesta eliminatória estavam as duas equipas que melhor atacam da competição.

E o jogo foi tudo o que prometeu: ataques em barda dos dois lados, gente rapidíssima, um ror de oportunidades, muita gente na área e golos, claro, que sem golos isto também não tinha graça nenhuma.

Golos esses que Thomas Tuchel procurou desde logo. Talvez até com demasiada sofreguidão. Em desvantagem, o técnico alemão apostou num sistema de três centrais, uma tática um tanto quanto kamikaze para fazer face aos jogadores a motor que pululam no onze de Leonardo Jardim. Podia correr muito bem, certo. Mas também podia ser uma desgraça.

Começou por correr bem. Aparentemente bem. Aos 30 segundos já o Dortmund andava a cheirar a área do Mónaco. Mas os da casa, perante a afronta responderam com uma cavalgada do lateral-esquerdo Mendy, que aos 3 minutos foi por ali fora que nem Marcelo na véspera, em Madrid. Mas em vez dar a assistência, como o lateral brasileiro, o francês não foi de modas: rematou forte e Burki, em vez de defender para o lado, deu um safanão para a frente, onde estava um rapaz chamado Mbappé, que naquela recarga juntou mais uns milhões a um valor de mercado que começa a parecer pornográfico para um miúdo de 18 anos - e por esta altura, depois desta eliminatória, ele parece tudo isso que vos passa pela cabeça e mais uns trocos.

Estávamos só no início e daí até aos 15 minutos de jogo aconteceu muito futebol. Primeiro foi Reus a rematar forte mas à figura de Subasic após cruzamento de Durm, depois Bernardo teve na cabeça o segundo, que teria acontecido caso o cruzamento de Mendy tivesse sido um pouco mais tenso e, para acabar, Sahin acertou em cheio no poste do Mónaco, após um daqueles livres diretos que gostamos de caracterizar como “superiormente marcado”.

Foi só o epílogo para o segundo golo do jogo, que podia ter caído para qualquer um dos lados (aliás, como em todo o jogo), mas acabou por cair para a equipa que estava a conseguir com mais facilidade chegar à área adversária em dois, três, quatro toques no máximo.

Aconteceu quando Lemar pegou na bola, deu para Mendy que por sua vez passou a Mbappé, que voltou a dar a Lemar que, por fim, cruzou direitinho para a cabeça de Falcão, que não falhou, como é, aliás, de seu apanágio quando lhe aparece uma bola pelo ar. Os espaços concedidos pelos três centrais do Dortmund foram fatais - o Mónaco aproveitou-os sempre para criar perigo.

E pronto, 2-0, 5-2 na eliminatória e parecia tudo acabado. O problema (se é que podemos chamar a isto "problema") é que com duas equipas com uma voragem tão grande pela baliza adversária em campo, é difícil dar qualquer jogo como acabado.

VALERY HACHE/Getty

Prova disso é que o Dortmund, logo no arranque da 2.ª parte, reduziu por Reus e, de repente, temos jogo outra vez. Após o segundo golo do Mónaco, ainda antes dos 20 minutos de jogo, Tuchel havia trocado Durm por Dembélé e o jovem francês deu um imediatismo ao ataque do Dortmund que até então a equipa alemã não tinha tido. E foi dele que nasceu o golo: arrancou pela linha, com um slalom supersónico tirou Mendy do caminho e cruzou de pé esquerdo para Reus, que rematou certeiro no coração da área.

Pensou-se então que o Borussia iria carregar, e fê-lo, mas o contra-ataque do Mónaco foi sempre mais perigoso que as tentativas dos alemães em chegar à baliza de Subasic. Falcão teve o golo na cabeça e nos pés em duas ou três ocasiões e cada vez que a bola chegava às pernas longas de Mbappé era um ai-jesus para o Borussia Dortmund.

Mas foi já sem os dois em campo que o Mónaco matou de vez uma eliminatória que esteve sempre viva e mexida, que nem jogo de basquetebol. Aos 81 minutos, Lemar - jogador impressionante - aproveitou um ressalto na saída de bola do Dortmund para correr como uma seta em direção à área. O passe ainda bateu em Sokratis Papastathopoulos (sim, fui ao Google), mas só parou nos pés de Germain que, recém-entrado, fez de primeira o 3-1.

Treze anos depois, o Mónaco volta às meias-finais da Liga dos Campeões, com Leonardo Jardim aos comandos, João Moutinho a controlar o meio campo e a rapidez de Bernardo Silva a fazer a cabeça em água aos adversários. Em 2004, só o FC Porto de Mourinho os travou. E agora, quem vai parar esta equipa principesca?

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