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Liga dos Campeões

O dono da bola sou eu e só joga quem eu quiser

No recreio em que os putos conseguiram jogar contra os mais velhos, e que por acaso era a primeira mão de uma meia-final da Liga dos Campeões, aconteceu o que, talvez, era mais esperado: a Juventus foi sempre melhor que o Monaco e ganhou (0-2)

Diogo Pombo

FRANCK FIFE

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Soava o toque e saía tudo disparado das salas de aula. Havia uma porta nas traseiras, lá ao fundo, que, aberta, dava logo para a rua. Ficava-se logo no recreio. Ouvido o toque, todos os rapazes e poucas raparigas tinham o mesmo na cabeça, que era dar ao pé, correr, testar a aderência dos ténis gastos e chegar rápido ao campo de terra, pelado e com pó, que era o maior ali havia.

Toda a escola lhe chamava o campo da quarta. O quarta vem de 4.ª classe e não é difícil perceber que era regra não escrita, mas instituída, que o campo era para os mais velhos, os com mais anos de primária e os maiores, normalmente por esta ordem.

E eu e os da minha idade corríamos como se o chão estivesse a desabar no nosso encalço porque, com sorte, se chegássemos primeiro ao campo da quarta, tivéssemos uma bola e houvesse uma catrefada de nós - putos da primeira, da segunda ou da terceira classe -, talvez os donos do campo não se dessem ao trabalho de usarem a idade e o tamanho para nos tirarem dali.

Era raro, mas, muito de vez em quando, os mais velhos eram poucos ou estavam bem dispostos ou sem paciência para se livrarem dos putos que levantavam a voz. E deixavam-nos jogar. Mais contra eles do que com eles, porque o gáudio deles vinha de jogarem futebol contra os putos e brincarem connosco. Os bem mais pequenos, menos rápidos e menos fortes, desequilíbrios que, na primária, eram quase sempre a morte dos artistas que, mesmo assim, adoravam não estar no lado bom das probabilidades.

Lembro-me de como via os recreios passarem por causa do AS Monaco e da sua média de idades de 25,1 anos coincidir, no mesmo campo, com a Juventus dos 30,4 anos de média. E como o mais natural era a equipa que só tem quatro jogadores acima dos 25 passar mal contra os italianos em que apenas quatro tipos não são trintões. Ou como Mbappé, Lemar, Bernardo Silva e Bakayoko, os putos que são bons, rápidos, talentosos, prometedores e saídos da casca, não deixam de ser putos contra os Bonucci, Barzagli, Chiellini, Daniel Alves ou Higuaín que já levam uma vida a jogar à bola.

E a jogarem ali, numas meias-finais da Liga dos Campeões.

É um recreio para eles, habituados à pressão, à matreirice e ao jogar o que é preciso para se ganhar e ultrapassar adversários com a manha que conhecemos como experiência. Quando dá o toque para se jogar, eles controlam a bola, dominam os passes e engolem os franceses, parecem uma máquina à qual tudo sai automático e que não é possível parar, só abrandar. A Juventus dos mais velhos tem mais de dois terços do tempo da bola e leva-a e para-a nos sítios certos, quanto a tem ou não a tem. Ou seja, quando a tem de passar e quando tem de fazer faltas para os putos não a passarem.

Julian Finney

Esses fazem o que podem, como sempre o fazem - que é o jogar rápido, à boleia de repelões e esticões com mais olhos para a baliza do que para os lados. Querem surpreender quem já dificilmente se deixa surpreender. São os dois remates que Mbappé faz e Buffon detém, momentos em que o avançado prodígio colide com o guarda-redes que já tinha um Mundial jogado no ano em que ele nasceu (o de 1998, e eu ainda andava na primária).

Até essas paradas do velho, grisalho e eterno Buffon apareceram com a naturalidade de uma máquina. Como a jogada em que a velha equipa que tem alcunha de ser uma venha senhora saiu com a bola de trás, tocou-a no calcanhar de Dybala, em dois passes de Dani Alves com a tabela de Higuaín, em que tudo acabou com um cruzamento de calcanhar do brasileiro para o argentino que já tem barriga rematar, na área, o seu 30.º da temporada. E parecia tudo natural.

No recreio era quase sempre assim. Havia este momento, em que os putos, olhando para cima e no meio dos grandes, se tornavam mais ousados e a querer surpreendê-los ainda mais. O dar tudo chegava a um ponto em que o tudo quase parecia ser suficiente.

Depois, na segunda parte, o Monaco arriscou, chegou a linha da defesa uns metros à frente, quis encurtar os italianos e pressioná-los perto da baliza deles. Viram-se dez minutos de uma Juventus encolhida, curta e presa à própria área, enquanto os putos que atacam e mais mexem na bola tentavam inventar soluções que os velhos já estão fartos de ver. O passe de Bernardo Silva para um rodeado Falcao, na área, deu um remate rasteiro que Buffon parou por o ter visto antes de ser rematado.

Os putos perdiam, mas esses minutos deram-lhes a confiança de serem capazes de dar a volta aos mais velhos e vencê-los pela rapidez, velocidade e intensidade a fazer as coisas. Mas a lei do recreio, além da força dos maiores e dos mais velhos, também é a de quem já sabe o que é o quando, o como, e o onde. E depois de os franceses perderem algumas bolas a saírem, com pressa e de trás, para o ataque, Dybala e Daniel Alves viram Bakayoko com a bola, de costas para o jogo, sem linhas de passe e dentro do seu meio campo.

Sabia que tinham de o apertar com tudo e roubar a bola que roubaram e que o argentino passou logo ao brasileiro - que levantou a cabeça e viu Higuaín nas costas de Glik, na área. Picou a bola para lá e o argentino bisou e ficou com tantos golos numa meia-final quanto os que tinha em 24 jogos na fase de grupos da Liga dos Campeões.

FRANCK FIFE

E os mais novos e que sabem menos continuaram a tentar - e a jogar relativamente bem. Bernardo Silva e Lemar correram até o cansaço lhes tirar a alma. Mbappé pedia muito a bola, mas ela mal se apercebia quem era ele porque um ou dois dos três que sabem mais que toda a gente (Bonucci, Chiellini e Barzagli) apertavam-no sempre. E Falcao muito se desmarcava. Mas o melhor que fizeram foi num par de livres em que João Moutinho cruzou a bola tensa, para a área, e Germain cabeceou uma delas por cima da barra.

O melhor dos franceses não chegou e nem sequer foi o do costume.

Porque, neste campo, as coisas, basicamente, funcionam como no recreio em que os mais velhos, com mais experiência, que andam há mais anos nisto e que a quem a idade já chega para lidar com muita coisa, são mesmo os mais fortes. Na próxima vez (que será para a semana), talvez eles façam o que mais vezes víamos a acontecer-nos, por mais rápido que corrêssemos e por maior que fosse a vontade com que chegássemos ao maior campo do recreio. E digam:

"Os donos da bola somos nós e só joga quem nós quisermos."