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Íc, íc, íc, hurra. Toda a gente tem um bom plano, até levar um murro na cara (por Mike Tyson)

A Juventus foi surpreendida pelo Mónaco que entrou com três centrais, quatro médios, um médio ofensivo e dois avançados. Por outras palavras, mimetizou o desenho da Juve. Se não conseguia vencê-los nos seus próprios termos, Jardim imitou-os e a coisa resultou até a Juve assentar. Depois, quando a equipa italiana desferiu um golpe, por Mandzukíc, o plano de Lenardo e o Mónaco ruiram. Dois anos depois, a equipa italiana volta à final da Champions

Pedro Candeias

Stuart Franklin

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Não sei o que terá passado pela cabeça de Leonardo Jardim, mas tenho uma teoria a que cheguei, baseando-me num ditado antigo, naquilo que acabo de ver na tv e num jogo disputado na Luz há uns anos.

Talvez Jardim tenha pensado – repito, é uma teoria cá minha – o seguinte: se a jogar como jogo não os consigo vencer e juntar-me a eles está fora de questão, o melhor é imitá-los, pode ser que os confunda ou os desoriente, como numa espécie de jogo de espelhos que provoca a dúvida existencialista, ‘se eu sou eu, como é que aquele que ali está sou eu’.

Coisas deste género põem um homem a pensar no que anda aqui a fazer e os italianos até são gente assim, dada a questões da vida e da morte e da culpa e da redenção católica, e enquanto os baralho – planeou Jardim na minha teoria – dou-lhes dois golpes de asa que empatam isto.

Foi então que Leonardo Jardim fez um desenho simétrico ao da Juventus e se apresentou em Turim com três centrais (Glik, Jemerson e Raggi), quatro médios (Sidibé, Bakayoko, Moutinho e Mendy), um número 10 (Bernardo Silva) à solta e dois avançados móveis (Mbappé e Falcao). E a artimanha deu resultado, porque a Juve se atrapalhou nos dez, quinze, vinte minutos, vá, em que Mbappé chutou a bola ao poste em posição irregular, Chiellini roubou um golinho feito a Falcao, e Bernardo Silva fez uns truques, incluindo o túnel da praxe.

Só que a Juve, a velha e matreira Juve, não é de cair em engodos, porque de engodos percebe ela, provavelmente terá sido ela a inventá-los, porque é a rainha do país do catenaccio e do campeão do mundo de 1982 e de 2010.

E então, e aos poucos, a Vecchia Signora de Chiellini, Barzagli, Bonucci e Buffon começou a cair em si, a acertar as marcações a Bernardo, a isolar Mbappé, a impedir que cérebro rápido do lento Moutinho unisse o meio campo e o ataque, e assumiu o jogo. Mandzukíc deixou que Subasíc defendesse uma (25’) e outra vez (27’), Pjaníc fez o mesmo que ele (28’), mas o mesmo Mandzukíc iria pôr a bola lá dentro, à segunda tentativa (33’).

Íc, Íc, Íc, urra. Como diria Mike Tyson, toda a gente tem um bom plano até levar com um murro na cara.

E foi aqui que me lembrei daquele jogo – disse-o no início do texto – em que Leonardo Jardim preparou o Sporting em 4x4x2 para encarar o 4x4x2 do Benfica de Jesus, em 2013-14, quando a queda da lã de vidro adiou o dérbi para outro dia, dando a JJ a margem para não se deixar surpreender pela segunda vez e venceu por 2-0.

VALERY HACHE

A Juve, está visto, não precisa de muito tempo para se readaptar, e esse é um sinal de inteligência diria Albert Einstein [n.d.r. boa série, já agora, no National Geographic], pelo que se lhe derem apenas o suficiente ela ferir-vos-á onde mais dói – no orgulho.

Citando o grande Mike Tyson, toda a gente tem um plano, até levar com um murro na cara.

Depois do 1-0, o Mónaco jovem e irreverente foi-se abaixo, porque percebeu que nada resultaria para derrubar o muro italiano. Daí até sofrer o 2-0 foi uma questão de minutos, onze para ser rigoroso, por Dani Alves, o lateral que na primeira-mão assistira duas vezes Higuaín e que instantes antes cruzara para o golo de Mandzukíc. Dani tem 34 anos, Barzagli fez 36 ontem, Chellini tem 32, Bonucci tem 30 e Buffon tem 39.

Gente desta não treme.

A eliminatória ficava a 4-0 e a improbabilidade monegasca transformava-se em impossibilidade. A Juve não sofrera um golo nos oitavos-de-final (FC Porto), nos quartos-de-final (Barcelona) e levara apenas dois na fase de grupos.

A segunda-parte seria uma formalidade, em que a Juve iria baixar o ritmo, apostar no contra-ataque, levar a coisa ao seu moinho, e, já agora, manter a folha de serviços de Buffon limpa para alimentar a lenda.

Só que por cada lenda que desvanece outra aparece, e Mbappé tinha, mas tinha mesmo, de marcar um golo porque o futebol também é justo -– e também equilibra os sonhos.

O de Jardim e o de Mbappé terminou nas meias-finais, mas terão outros num futuro próximo, num outro lugar que não o Mónaco. O da Juventus mantém-se igual e tem data marcada para Cardiff.

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