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Liga dos Campeões

Ainda não foi desta que os pobres levaram a melhor sobre os ricos, na liga dos ricos

Sergio Ramos decidiu pegar no exemplo de Beverly Hills e até tinha razão - quem tem mais dinheiro voltou a ganhar a quem tem menos. Mesmo que o Atlético tenha assustado com os dois golos que marcou nos primeiros 16 minutos, antes de o Real marcar um (2-1) e acabar com esse fôlego. O Real Madrid, e Cristiano Ronaldo, estão na terceira final da Liga dos Campeões das últimas quatro épocas

Diogo Pombo

Laurence Griffiths

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Beverly Hills é o nome da cidade que fica colada a Los Angeles, nos EUA, conhecida por ter uma alta densidade de atores e celebridades e, portanto, gente rica e cheia dos luxos e das regalias que vêm com o dinheiro e os muitos zeros à direita no banco. Houve uma série, a “90201” (o código postal da cidade), que passou nos anos 90 e, mesmo sem a ter visto, devia ter uma moral parecida a da outra, mais recente e com o mesmo nome, que seria feita há uns anos.

Ela servia o propósito de ficcionar a vida do tipo de adolescentes que vivem por lá, do tipo que tem muito mais dinheiro do que juízo e tem problemas de ricos e de pessoas que vivem no terraço do primeiro mundo.

É curioso que tenha sido Sergio Ramos, logo ele, a pegar em Beverly Hills para mostrar que não gostou do jogo que o Atlético jogou antes do próprio jogo - que foi, nas redes sociais, dizer que os jogadores do Real #nãopodementender valores como o esforço, o sacrifício e o suor. Coisas de gente humilde e trabalhadora.

Para o espanhol, deduzo, ele e os restantes jogadores do Real Madrid são o contrário da gente que se associa a Beverly Hills. Porque, segundo ele, na equipa “há pessoas que vêm do bairro, com muitos princípios e educação”. Não tenho nada contra isso, mas, se bem palpito, parece-me que Sergio Ramos foi buscar uma metáfora que, ao contrário do que ele quereria, se apropria à ocasião em vez de fugir dela.

Ele falou por uma equipa que é, quase todos os anos, a que mais gasta em compras e salários, aproveitando o dinheiro que tem a mais que quase todas as outras equipas do planeta, especialmente o Atlético. Daí que, em talento bruto e per capita, o todo do Real seja bem maior do que o do rival de Madrid. E há anos que andam a brincar aos ricos contra os pobres, numa brincadeira em que, nos últimos três anos, os avantajados ganharam duas finais da competição dos milhões contra os desfavorecidos. Até que chegaram a esta meia-final, onde o Real tinha vencido 3-0 em casa e feito toda a gente pensar que não seria desta que os pobres se vingariam dos ricos.

A série de televisão que se passa no sítio que Sergio Ramos pegou tinha sempre uns quantos “pobres” a aparecerem entre os meninos ricos. Pessoas diferentes deles, mais esforçados, humildes, simples e mundanos, que se intrometiam lá no meio e, às vezes, os faziam ver que a vida não são posses, bens materiais, pequenos luxos e vestimentas ou festas. E o que os jogadores do Atlético fizeram nos primeiros 20 minutos da segunda mão foi mostrar ao Real que uma eliminatória não é feita de um hat-trick de Ronaldo, de ter melhores jogadores, mais história e maior confiança.

É mais feita de intensidade, alta pressão, ataques rápidos e vincar os dentes em todos os lances e jogadas que se dispute. E entre as faltas e as entradas duras e as discussões que foram aparecendo e para as quais o árbitro não teve mão, os jogadores do Real não tiveram pedalada. Estavam eles a tentarem acalmar-se depois da cabeçada de Saúl Ñíguez, num canto, à frente de Ronaldo (12’), quando tiveram que protestar contra um penálti que Raphaël Varane cometeu ao precipitar-se sobre as pernas de Fernando Torres. E viram como Antoine Griezmann, ao contrário da final do ano passado e apesar de (parecer) ter dado dois toques na bola, acertou o remate (16’) e fez o 2-0.

Laurence Griffiths

Os pobres estavam a dar problemas aos ricos, que não conseguiam ter um momento de posse calmo, sem a bola queimar ou ficar a escaldar pela pressão dos colchoneros. Apenas Isco, o espanhol que vive sobre a lã que tem nos pés, os deixava respirar quando a bola lhe chegava. Ou as faltas que, com tanta guerra e raça e querer, a equipa ia tendo perto da área e Kroos ia cruzando, como na vez em que o instinto de Oblak (7’) fez uma grande parada à bola cabeceada por Casemiro.

O frenesim só acalmou por volta dos 25 minutos, altura em que, ricos ou pobres, os humanos se ressentem dos pulmões e das pernas e deixam de estar sempre no máximo. O ritmo abrandou um pouco e o Real conseguiu ter mais bola durante mais tempo. Nada de especial fez até Benzema, colada à linha de fundo, sapatear e constatar como três tipos do Atlético (Godín, Savic e Giménez), que são do mais duro que há, não lhe tocaram e o deixaram passar. O francês cruzou rasteiro para trás, Kroos rematou, Oblak teve reflexos de robô, mas não fez o impossível de tirar a bola dali e de ao pé de Isco, que fez a recarga.

E os ricos foram para o intervalo a rirem-se do 3-1, como talvez Ronaldo tenha dito a Torres e irritado o espanhol, numa das ene picardias que foram interrompendo o jogo.

Mais do que irritar, o golo acordou a cabeça dos pobres e lembrou-os de que, a partir dali, precisam outra vez de marcar três golos apesar dos dois que já tinham marcado. E que lhes tinham exigido tanto esforço, rotação e intensidade. Os ricos passaram a viver como o tinham feito há uma semana - aproximando a bola do eixo Modric-Kroos-Isco, trocando-a sem pressas e pondo os adversários a correrem atrás dela, recuados no seu meio campo. As coisas voltavam a ser o que sempre são.

O Real ia fazendo muito passes tempos, tendo a bola durante muito mais tempo, e jogando com mais calma. Ronaldo, visível na ficha de jogo, só se notou num livre que bateu para Oblak esmurrar a bola (48’). Marcelo, bem longe da área, teleguiou uma bola para a cabeça de Benzema (74’), cujo remate falhou a baliza por muito pouco. E entre a calma dos ricos, os pobres iam contra-atacando com rapidez e reservando a intensidade para esses momentos, como o têm feito desde que são treinados por Diego Simeone (desde 2011). Griezmann rematou de livre, na área e de cabeça, este último depois de Navas se agigantar perante Carrasco, mas nenhuma bola entrou.

Tudo acabou com um dilúvio a cair sobre o Estádio Vicente Calderón, com os pobres a darem tudo e os adeptos dos pobres aos berros, a entoarem cânticos, com o treinador dos pobres a bater palmas pelo esforço e sacrifício que tiveram, mas que não chegou. E os ricos, abraçados no meio do relvado, a celebrarem, sim, mas não tanto quanto isso. Porque o Real Madrid já conquistou esta Liga dos Campeões por 11 vezes e esteve em 14 finais, duas delas ganhas ao Atlético.

Eles perderem este jogo, mas ganharam direito a estar em mais uma e a habilitarem-se arrecadar quase 30 milhões de euros caso vençam a Juventus, a 3 de junho.

Se há uma Beverly Hills no futebol, é esta liga dos ricos. E são eles que podem mandar nela, outra vez.