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Liga dos Campeões

Eles são tão grandes, não são?

Encontro. A Juventus e o Real Madrid discutem hoje (19h45) a Liga dos Campeões em Cardiff. São dois gigantes europeus, com 25 finais da Champions entre ambos, e neles já jogaram craques sem fim e outros que estiveram apenas de passagem. O Expresso falou com dois portugueses, Filipe Cândido e Miguel Areias, sobre o impacto que a grandeza do clube merengue e da vecchia signora teve nos dois. E há histórias curiosas para ler e nomes famosos para relembrar

Lídia Paralta Gomes e Diogo Pombo

Em 2015 Juventus e Real encontraram-se nas meias-finais

FOTO Paul Hanna/ reuters

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Llanfairpwllgwyngyll é uma vila a 200 quilómetros de Cardiff, conhecida pelo seu longo, muito longo nome. É uma coisa dos galeses: gostam de nomes complicados, insólitos, praticamente impronunciáveis, cheios de consoantes. Na palavra Llanfairpwllgwyngyll há 20 letras. Mas, por mais incrível que possa parecer, Juventus e Real Madrid já disputaram mais finais da Liga dos Campeões. São 25, para sermos precisos, isto contando com a que se vai jogar hoje entre os dois gigantes europeus, no estádio Millennium, em Cardiff (19h45).

Olhando para os números, as contas das 25 finais devem muito ao Real Madrid: os merengues vão para a 15ª final da sua história, à espera de conquistar o 12º título europeu. Do lado italiano, há uma estatística bem menos favorável: a Juventus chegou este ano à sua 9ª final, mas o que deve chatear mesmo os homens de Turim é o rácio entre finais ganhas e finais perdidas — ganharam duas e perderam seis, mais do que qualquer outro clube europeu.

Nestas contas há portugueses. Paulo Sousa ganhou uma Champions pela Juventus, Cristiano Ronaldo, Pepe e Fábio Coentrão ganharam pelo Real Madrid. E poderíamos falar deles. Aliás, os três últimos ainda vestem de branco e, caso vençam, farão parte da única equipa a revalidar um título da Champions League. Poderíamos falar destes portugueses, mas outros há cujas carreiras, de forma mais ou menos insólita, um pouco como os nomes das localidades galeses, passaram por Real Madrid ou Juventus.

Um miúdo no meio dos craques

Depois de fazer quase toda a formação no Sporting, Filipe Cândido foi surpreendido por um convite para jogar no Real Madrid. Estávamos em 1996 e o agora treinador tinha 16 anos. “Na altura, fui para a equipa B, mas passei praticamente um mês a treinar com a equipa principal, liderada por Fabio Capello”, conta. Por lá cruzou-se com uma série de estrelas. “Era o Suker, era o Mijatovic... curiosamente, todos são campeões europeus no ano a seguir. Era o Raúl, que na altura era um dos melhores jogadores do mundo. Era o Redondo, o Seedorf, o Roberto Carlos... E havia também o Secretário, com quem ainda hoje tenho uma relação próxima.” Para um miúdo de 16 anos, “contactar com aquelas estrelas todas” foi um marco na carreira, embora a experiência em Madrid não tenha durado mais do que um ano. Filipe Cândido voltou a Portugal para assinar um contrato profissional com o Vitória de Setúbal. “Olhando para trás, não trocava a experiência por nada deste mundo. Sei que em alguns momentos isso me pode ter prejudicado, porque as expectativas foram demasiado elevadas, mas posso dizer que joguei no Real Madrid.”

48 horas à Juventus

Ter 16 anos e, de repente, ver-se a treinar com Raúl, Redondo, Mijatovic ou Roberto Carlos pode ser do outro mundo, mas não será tão insólito quanto ser emprestado à Juventus... por um jogo.

Bem, Areias explica melhor o caminho que o levou a vestir a camisola da Juventus num jogo amigável frente à Roma, em 2006, quando estava emprestado pelo FC Porto aos belgas do Standard de Liège. “Na verdade, eu nunca fui jogador da Juventus. Quando estava no Standard, o clube tinha um protocolo com a Juventus, e todos os anos havia um jogo de solidariedade em que iam sempre dois jogadores do clube alinhar pela Juventus.” E Areias, defesa esquerdo formado do FC Porto, foi um dos felizes contemplados. “Foi uma surpresa. Lembro-me de que tínhamos acabado um jogo do campeonato, e o diretor desportivo chegou-se à minha beira e disse-me: ‘Foste escolhido para ir fazer um jogo a Itália, com a Juventus. Estás disponível?’ E eu fui, com muito orgulho e satisfação.”

Antes do jogo, em Pescara, Areias teve oportunidade de treinar no centro de estágio do clube, ao lado de estrelas como Pavel Nedved ou Alessandro Del Piero. As recordações são as melhores. “Na altura, era colega do Sérgio Conceição em Liège, e ele tinha jogado com o Nedved na Lazio. Quando ele soube que eu ia, disse-me: ‘Vai ter com o Nedved, diz que és meu amigo e manda-lhe um abraço!’ Fui bem recebido por todos, aquilo era tudo malta porreira. Perguntaram-me por Portugal, se a comida era boa, aquelas perguntas normais, colocaram-me à vontade”, explica. “Foram dois ou três dias bem passados que vou recordar para sempre.”

Areias, que guarda “religiosamente” o equipamento que utilizou nesse jogo, é agora treinador dos sub-14 do FC Porto. “No último domingo ganhámos um torneio em Itália, na cidade de Cremona. Na final, vencemos a Juventus por 2-1. É curioso, não é?”, pergunta-nos. Não se pode dizer que não é. Ou, pelo menos, o destino: a Juventus continua a cruzar-se na vida de Areias, sempre por boas razões.

A vontade e a cultura

Hoje, na capital do País de Gales, teremos um jogo de estilos. “A Juventus é mais equipa. Como coletivo, são capazes de ser a melhor equipa da Champions. Agora, estamos a falar de uma equipa do Real Madrid que tem individualidades que podem resolver um jogo”, refere Areias, que acredita que a final será decidida “nos pormenores, numa bola parada, por exemplo”.

Ambas as equipas foram campeãs nacionais nos respetivos campeonatos, mas ganhar a Champions é tão ou mais importante. Para a Juventus porque desde 1996 que não sabe o que é ser campeã europeia — e perdeu as últimas quatro finais, uma delas precisamente frente ao Real, em 1998 — e para o Real porque... bem... é e sempre foi a cultura do clube.

“Na altura em que fui apresentado, o museu foi um dos sítios que visitei. Recordo-me de ter um espaço sagrado, onde me levaram imediatamente: quando cheguei lá, vi as seis Taças dos Clubes Campeões Europeus”, conta Filipe Cândido. Hoje, estão lá quase o dobro. “Eles faziam questão de deixar claro que a Liga dos Campeões era aquilo que mais veneravam, mais sentiam e mais pretendiam. Era muito evidente. De vez em quando eu ia lá ver as taças. Quando amigos me visitavam também fazia questão de os levar lá.”

Um miniguia para a final

Histórico
É a segunda vez que Real Madrid e Juventus se defrontam numa final da Liga dos Campeões. Em 1998, a decisão esteve num golo de Predrag Mijatovic, e Zidane, hoje treinador dos espanhóis, jogava pelos italianos. Será o 19º jogo entre as duas equipas.

Craques
De um lado há os golos de Cristiano Ronaldo, a ordem de Luka Modric, os passes de Toni Kroos e os pés de lã de Isco 
a conectarem tudo. Do outro está o muro de Gianluigi Buffon 
na baliza, a parceria entre Chiellini e Bonucci na defesa e a dupla de Paulo Dybala e Gonzalo Higuaín na frente.

Tática
Sem Gareth Bale, o Real Madrid deve começar num 4-4-2, 
com Ronaldo a orbitar em torno de Benzema no ataque. 
A Juventus talvez jogue em 3-4-3, com os três defesas centrais que tantas garantias lhe têm dado nos últimos anos.

Campanha até à final
Real Madrid: 8 vitórias, 3 empates, 1 derrota, 32 golos marcados 
e 17 sofridos.
Juventus: 9 vitórias, 3 empates, 21 golos marcados e 3 sofridos.

Equipas prováveis
Real Madrid: Navas; Carvajal, Sergio Ramos, Varane e Marcelo; Casemiro, Modric, Kroos e Isco; Ronaldo e Benzema.

Juventus: Buffon; Barzagli, Bonucci e Chiellini; Daniel Alves, Pjanic Khedira e Alex Sandro; Mandzukic, Higuaín e Dybala.

Treinadores
Zinedine Zidane pode tornar-se o primeiro treinador a vencer duas Ligas dos Campeões seguidas. Já tem uma como treinador principal (2016) e outra como técnico adjunto (2014), ambas no Real Madrid. Massimiliano Allegri não tem troféus europeus, mas já conquistou quatro ligas italianas.