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Liga dos Campeões

Ronaldo é a resposta para todos os nossos problemas

O português marcou dois golos na final da Liga dos Campeões que o Real Madrid conquistou: 4-1 diante da Juventus. A quinta Bola de Ouro está a meses de distância

Pedro Candeias

JAVIER SORIANO

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Vivemos num tempo em que a medicina, a matemática, a geometria, a física, enfim, o tempo em que as ciências exatas explicam tudo o que acontece, e nos acontece. Porque é que chove, porque faz frio, porque adoecemos e que cura há para a doença - e porque nos apaixonamos monogamicamente também já faz parte da bula.

Isto traz-nos conforto e segurança, na medida em que há uma causa e um efeito, e se mudarmos os maus hábitos, teremos bons resultados, e todos nós gostamos de viver um bocadinho mais, tal como gostamos das escolhas binárias que eliminam a confusão: sim e não, esquerda ou direita, para cima e para baixo, preto e branco.

Por outro lado, isto retira um bocadinho a piada à coisa; perde-se o romantismo, porque o ângulo, a equação, a molécula, a proteína e enzima respondem às questões primordiais. A todas, menos uma: o que é Ronaldo.

É que num desporto como o futebol, cada vez mais coletivo e tático, com transições, entrelinhas, esquemas táticos, zonas, homem-a-homem, três corredores, profundidade, largura, ou seja, num jogo de onze contra onze, com inúmeras variáveis tangíveis e mensuráveis, há um elemento estranho que baralha sempre as contas. E, normalmente, fá-lo sempre a seu favor. Os ingleses chamar-lhe-iam equalizador, eu chamo-lhe demolidor.

Ronaldo, o demolidor.

Soa a super-herói de BD, mas talvez o adjetivo se justifique agora mais do que nunca. Porque ele está objetivamente mais velho, mas parece mais novo, contrariando as leis da física e até do futebol, que nos diz que é difícil um tipo reciclar-se e transformar-se aos nossos olhos. Já se escreveu antes, mas convém recordar: Ronaldo era um extremo malandro, cheio de ginga e de fintas; hoje, Ronaldo é um avançado goleador.

Vejamos o que aconteceu há pouco:
A Juventus entrou como a melhor equipa da Liga dos Campeões e havia dados que o suportavam: apenas três golos sofridos, o que significa equilíbrio. Além disso, toda a gente sabia o que ela fizera com o Barcelona e com o Mónaco, acelerando e travando quando queria, expondo-se pouco, atacando pela certa e com resultados certeiros. E, do outro lado, estava o Real Madrid, com um grande poder lá à frente e gente despassarada atrás, como Ramos ou Varane, um conjunto de muitos bons jogadores que jogavam cada um para seu lado - e, claro, o Real era o clube de Ronaldo.

Pois então, os italianos entraram em Cardiff a pressionar os espanhóis, cortando-lhe os movimentos, assumindo a sua grandeza, com Khedir, Pjanic, Alex Sandro, Dani Alves e Mandzukic a trabalharem e a esticarem o jogo. E, quando parecia que a Juve pudesse chegar ao golo, Ronaldo fez o 1-0: remate fora da área, bola toca em Khedira, Buffon batido.

Estava dado o sinal. Ele estava ali como sempre estivera, apesar de não parecer - até então, teria dado, no máximo, cinco toques na bola.

É verdade que, sete minutos depois, Mandzukic fez o remate do ano, provavelmente o melhor golo das últimas Champions, e empatou o encontro; mas o melhor do melhor ainda estava para vir.

Na segunda-parte, depois do intervalo em que Zidane terá dito uma ou duas coisas aos seus futebolistas - e uma delas terá sido “acordem que já é dia” -, o Real passou a alinhar mais juntinho, a levar aquilo a sério. Pjanic foi controlado, a defesa subiu, o cerco fechou-se, a Juve começou a fazer mais faltas, e Casemiro chutou para a eternidade: 2-1.

Passaram-se uns instantes e o verdadeiro Real veio ao de cima. Não nos esqueçamos que muitos destes homens já ganharam tudo e também já passaram por tudo, o fantástico Barcelona, as eliminações nas meias-finais, os triunfos em finais. Então, estes homens que não entram em ansiedades, puseram a Juve no sítio e Ronaldo pôs a bola na baliza num sítio aparentemente impossível: entre Chiellini e Bonucci, fez o 3-1 a Buffon.

Dois dos melhores defesas do planeta, um dos melhores guarda-redes da história, e o maior goleador de sempre do futebol moderno - venceu o último.

Até final, viu-se a Juventus desunida, Ronaldo a ver se chegava ao hat trick, e o 4-1 de Asensio quando o desfecho estava fechado.

O Real Madrid levou a duodécima (bicampeão europeu) Taça, Ronaldo chegou aos 600 golos na carreira e está a poucos meses de vencer a quinta Bola de Ouro. Quando lá chegar, terá quase 33 anos.

O tempo, afinal, é um conceito relativo. A vida, afinal, ainda nos surpreende com improbabilidades.