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CSKA se fazem, cá se pagam (não, não está tudo bem com o Benfica)

O Benfica perdeu em casa (1-2) com os russos do CSKA de Moscovo após um jogo objetivamente fraco que reflete algumas das fragilidades antes vistas contra o Rio Ave e Portimonense: a incapacidade de surpreender no ataque e a intranquilidade na defesa

Pedro Candeias

FRANCISCO LEONG

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Talvez tenha chegado a altura de dizer que não está tudo bem apesar de o Benfica nos cansar a dizer que está tudo bem, obrigado, usando argumentos destes: todas as equipas têm oscilações e picos de forma (é verdade), muitas equipas têm muitos jogadores lesionados ao longo de muito tempo (não é bem assim); e se determinado futebolista, que, por acaso, é apenas um dos melhores na sua posição não está, ou então está a meio-gás, não se preocupem que o Benfica tratará de fazer aparecer outro no seu lugar (não é, definitivamente, assim).

Por mais que Rui Vitória use os seus recursos de orador motivacional e se agarre a frases como “quando não está um, nasce outro [falando sobre lesões]”, ou então “não podemos pôr tudo no mesmo saco [Liga e Liga dos Campeões]”, a conversa soa sempre à do vendedor que quer vender qualquer coisa por mais do que esta vale. Estilo, vá, Tim Cook e os seus oitocentos e vinte e nove euros por um telemóvel que só tem uma câmara traseira.

Contra o CSKA, o Benfica começou com o onze possível e vou sinalizar alguns jogadores e de seguida compará-los a outros para que se perceba a diferença de hoje para o passado recente: Bruno Varela, André Almeida, Felipe Augusto e Lisandro López; Ederson, Nelson Semedo, Fejsa e Lindelöf.

Não tem nada a ver.

Um carro não deixa de ser um carro por não ter direção assistida ou sensores de estacionamento; mas deixa de ser o mesmo carro porque lhe faltam os detalhes que o tornavam melhor do que a concorrência. E é neste ponto que o Benfica anda: o motor arranca, acelera e trava, mas é tudo feito aos repelões e com guinadas súbitas, e a culpa não é só do condutor, vulgo, treinador.

Vejamos: os encarnados acabaram a primeira-parte com 74% de posse de bola e com dez remates, números teoricamente suficientes para o tetracampeão português marcar um golinho ao quarto classificado do campeonato russo de prestações singelas na SuperLiga lá do sítio (cinco vitórias, três derrotas e um empate) e que, ainda por cima, conta com uma defesa quasi geriátrica em idade futebolística (os gémeos Berezutski têm 35 anos).

Mas, apesar das probabilidades, foi insuficiente.

Porque Pizzi não conseguiu ligar o jogo provavelmente por estar muito preocupado com o que passava, ou com o que os seus colegas deixavam passar, nas suas costas - outra alternativa, mais simples, é que Pizzi está em baixo de forma.

Porque Jonas não conseguiu lidar com o facto de estar a convalescer e ainda assim ter de jogar, por não haver outro capaz de fazer, objetivamente, 50% do que ele faz.

Porque Bruno Varela joga em cima da linha de golo e não encurta espaços; André Almeida não sai a jogar e Lisandro idem com a agravante de juntar disparates; e Luisão, não há melhor forma de o escrever, está envelhecido, o que é diferente de dizer que está mais velho - nem Cristiano Ronaldo resiste à erosão do tempo.

Ou seja, a máquina encarnada está menos fluída e veloz, e talvez por isso o Benfica tenha feito apenas duas jogadas de perigo antes do intervalo, por Salvio (minuto 10) e por Grimaldo (37’, ao poste). O Benfica, sempre em inferioridade numérica no meio-campo por causa de um sistema que é obrigatório usar quando se tem Jonas (4x4x2), perdeu muitas bolas e expôs-se aos remates frontais dos russos, sobretudo de Golovin.

A primeira vez

FRANCISCO LEONG

Depois do intervalo, o Benfica arrancou como se quer, após uma jogada cozinhada dois rapazes com toque de bola e um ponta de lança mexido: Grimaldo subiu e desmarcou Zivkovic que cruzou para Seferovic. Foi o melhor período do Benfica até então - e durou dez minutos, findos os quais o árbitro viu uma mão (duvidosa?) de André Almeida e apontou para aquele pontinho na grande área. Penálti de Vitinho, empate na Luz, tudo como no início - só que tudo mais cansado e mais desconcentrado.

Depois, a vinte minutos do fim, aconteceu isto: Viktor Vasin, que tem 1,92m o que faz dele um gigante e os gigantes tendem a ser lentos e desarticulados, sobretudo se forem defesas, dizia eu que Kasin teve tempo para (1) rematar à meia volta dentro da área encarnada e (2) ver Bruno Varela defender para o lado e (3) perceber que Zhamaletdinov fez o 1-2 que gelou a luz. No entretanto, a defesa do Benfica estava a dormir - e aqui entra a piada óbvia, e escusada, do Vitinho.

Rui Vitória ainda tirou Grimaldo e estreou Gabigol, e trocou Lisandro López por Rafa, mas nada mais havia a fazer: o Benfica iria perder pela primeira vez este ano por nunca ter conseguido encontrar soluções consistentes para fazer buracos, por mais pequeninos que fossem, no CSKA.

E estas são as mesmas fragilidades que já se tinham visto em Vila do Conde contra o Rio Ave e em casa contra o Portimonense, pelo que não há coincidências; apenas factos.

O Benfica confiou em demasia na estrutura e no alegado viveiro de talentos de geração espontânea do Seixal.

O Benfica vendeu bem e reforçou-se mal.

E o Benfica está mais fraco.