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Sporting e as vantagens no marcador: uma história de alergias que, mais uma vez, acabou bem

Os leões entraram a ganhar na Champions (3-2), num jogo em que podiam ter saído do estádio do Olympiacos com um resultado histórico. Em vez disso, voltou o ai-jesus que tem sido um pouco a imagem de marca nos últimos jogos do Sporting: a vantagem no marcador parece causar uma espécie de rinite alérgica à equipa de Jorge Jesus

Lídia Paralta Gomes

ARIS MESSINIS/Getty

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Primeiro vamos às boas notícias. O Sporting entrou na Liga dos Campeões com uma vitória importante, importantíssima mesmo, frente ao Olympiacos. Porque ganhar fora num grupo que tem ainda Barcelona e Juventus é tão essencial como beber aqueles dois litros de água por dia.

Mas, vá, a sério, o que é que se passa com o Sporting e as vantagens? Parece coisa alérgica, tipo eu e os ácaros. É que depois de uma primeira parte perfeita, com três golos, duas bolas aos ferros e mais duas que Kapinos safou como pôde, sozinho atrás de uma linha defensiva mais escorregadia que o Flubber, o Sporting ia deitando tudo a perder nos derradeiros minutos de jogo. Um pequeno dejá vú daquilo que se passou em Santa Maria da Feira no último jogo do campeonato que, para sorte dos leões, também acabou em bem.

Antes de Pardo, esse Pardo que chegou a jogar em Braga, entrar e dar cabo da cabeça a Jonathan Silva (mais um jogo, digamos, fraquinho do argentino) e marcar aos 89’ e aos 90’+3, a viagem ao Georgios Karaiskakis, centenário estádio do Olympiacos, estava a tomar contornos épicos. Numa casa tradicionalmente difícil, porque o sangue dos gregos é quente, o Sporting entrou com mesma dinâmica da outra paragem europeia desta época.

Em Atenas como em Bucareste, houve Doumbia na frente e Bas Dost no banco. Em Atenas como em Bucareste, o costa-marfinense foi o primeiro a marcar. Em Atenas como em Bucareste, o Sporting foi muito mais uma equipa de contra-ataque do que uma equipa de construção, a equipa de construção que é cá dentro. E em Atenas como em Bucareste, a estratégia de Jesus resultou na perfeição, até àquele relaxamento final que podia ter sido muito embaraçoso.

Entrada de leão, saída de gatinho

Tal como em Bucareste, o Sporting marcou cedo. Só que desta vez marcou mesmo muito cedo, ao ponto de aos 2 minutos Doumbia ter feito tão só o primeiro golo desta edição da Champions. Após um livre na direita, o cruzamento de Acuña encontrou a cabeça do costa-marfinense, que saltou livre, tal como Coates. A defesa do Olympiacos estava sabe-se lá onde.

LOUISA GOULIAMAKI/Getty

A perder e a jogar em casa, o Olympiacos tentou pegar no jogo e pelo caminho desatou a dar espaço entre as linhas. O Sporting, matreiro, chamou-lhe um figo e a cada contra-ataque chegava com perigo à baliza de Kapinos. O segundo golo não demoraria: aos 13’, Rui Patrício afastou um canto com os punhos, a bola foi ter com Bruno Fernandes que, ao tentar lançar a transição de cabeça, enviou a bola contra a cabeça de Odjidja-Ofoe. O que não foi mal pensado, na medida em que o ressalto digno de um jogo de pinball foi ter com Doumbia que, rapidíssimo, deixou a bola para Gelson ainda antes da linha de meio-campo. O extremo, isolado, só teve de rematar fora do alcance do guardião grego.

A partir daí, foi um festival. Que podia ter dado mais um par de golos ao Sporting. Aos 18’ Bruno Fernandes enviou ao poste após mais um contra-ataque rápido (e mais um passe de Doumbia) e no minuto seguinte foi o avançado que falhou ao rematar contra Kapino.

Por esta altura, dava para tudo. Até para Coates se aventurar numa cavalgada não rumo ao horizonte, mas sim rumo à área grega. Depois de recuperar uma bola (e foram tantas por parte do Sporting na 1.ª parte), o uruguaio tabelou com Bruno Fernandes e foi por ali fora. Só não marcou porque claramente é melhor de cabeça do que de pés.

Não foi ali, foi já quase no intervalo. Mais um contra-ataque, mais uma jogada da Coates & Bruno Fernandes Lda. Ao ver a desmarcação do jovem português, o central, lá desde a sua casa (a defesa, leia-se), lançou-o e este só parou em frente a Kapino e com a bola dentro da baliza.

E com 3-0, tudo parecia feito - até porque podiam ter sido mais.

LOUISA GOULIAMAKI/Getty

O problema é que a dose de rivotril foi grande e depois de controlar durante boa parte do 2.º tempo - em que até podia ter marcado mais um, depois de Bas Dost enviar mais uma bola à trave - o Sporting baixou de tal forma o ritmo que substituiu aquilo que podia ter sido um resultado histórico por um ataque de sinusite aguda à vantagem que trazia no saco. Tal como aconteceu em Santa Maria da Feira, tal como aconteceu em casa frente ao Estoril.

Na jogada que se seguiu à tal bola ao ferro de Dost, Pardo marcou o primeiro, aos 89’, depois de sentar Jonathan e William a partir da direita e, não contente, aos 90’+3, após um cruzamento longo do português Diogo Figueiras, voltou a deixar Jonathan Silva às aranhas para fazer o 3-2.

Para sorte do Sporting, o jogo acabaria logo a seguir, porque as coisas estavam tremidas, a ponto de ser preciso pedir a bomba para a asma. Mas bem, interessa que os leões conseguiram 3 pontos muuuuuito importantes, estão no topo do Grupo D com o Barcelona e cumpriram a 1.ª parte do objetivo primordial, que passa por ganhar à equipa mais ganhável do grupo.

Pelo caminho, selaram a primeira vitória fora de casa na fase de grupos da Champions em quase 9 anos: a última tinha sido em 2008, em Basileia.

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