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Liga dos Campeões

Vai até onde o dinheiro te leva

Benfica, FC Porto e Sporting começam as suas aventuras europeias. Seguindo o rasto dos milhões, veem-se as probabilidades que têm de passar à fase seguinte

Diogo Pombo

Seferovic, Aboubakar e Coentrão: três reforços dos três grandes para o ataque à Champions

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Basta um telemóvel, uma aplicação básica de edição de imagem e criatividade para se fazer o que, no outro dia, encontrei algures numa rede social — era uma montagem dividida ao meio, com quatro fotografias de cada lado, para mostrar quem era o melhor passador, o melhor driblador, o melhor rematador e o melhor organizador de jogo do Real Madrid e do Barcelona (peço-vos paciência, que isto já deverá fazer sentido). À esquerda, cada categoria tinha um jogador distinto do clube da capital espanhola mas, à direita, todas as quatro divisórias tinham fotografias do mesmo rapaz, batizado pelos pais de Lionel Messi.

A montagem tem a sua piada, mas a mensagem subliminar que dela se retira para este texto é que, no Barcelona, há uma pessoa que é cada vez maior do que o clube que tem como lema “més que un club” e que, neste século, já ganhou a Liga dos Campeões por quatro vezes.

Esse pequeno argentino, futebolista genial, pode ter sido a primeira coisa a vir à cabeça quando, há duas semanas, o Sporting ficou a saber com quem vai partilhar o grupo na competição — porque há poucas coisas piores no mundo do futebol do que jogar contra os catalães, ainda mais quando, na única vez em que se encontraram, o Sporting sofreu duas derrotas, oito golos e uma goleada caseira (2-5, em 2008/09) para amostra. Com Messi a marcar, ainda por cima.

Mas, como a miscelânea de pontos, rankings e coeficientes colocou o Sporting no pior dos potes (4) para o sorteio, na sina dos leões também calhou a Juventus. E os italianos, hexacampeões no seu país, finalistas vencidos de duas das últimas três edições da Champions, cheios de estrelas, têm Paulo Dybala, outro pequeno argentino, jogador genial, que é para eles o que Messi é para o Barcelona. É o começo e o fim de tudo o que de bom eles fazem com a bola. Ou seja, perante dois gigantes mais apetrechados em jogadores, dinheiro, prestígio, títulos e probabilidades, o Sporting terá de olhar nos olhos da equipa que sobra, o Olympiacos.

Os gregos têm 19 campeonatos ganhos nos últimos 21 anos, diz-se que são empurrados pelo ambiente do estádio cheio, estão habituados a dominar, a controlar e a ganhar na terra deles, mas, na Liga dos Campeões, só saíram vivos da fase de grupos em três épocas desde 2007. E o bom para o Sporting é a teoria, que parece estar do seu lado quando os gregos estão do outro.

O clube de Alvalade terá melhores jogadores, melhor treinador e melhor equipa do que o Olympiacos, que esta época gastou €13,3 milhões em contratações, menos de metade dos quase €28 milhões investidos pelos leões. Pelos números em que nos fiamos antes de a bola rolar no campo, o Sporting tem quase a obrigação de vencer os gregos na primeira jornada da fase de grupos (terça-feira, 19h45, SportTV5). Mesmo que a partida seja em Atenas e que haja André Martins, Diogo Figueiras, Mehdi Carcela ou Felipe Pardo, caras conhecidas do futebol português, a vestirem à Olympiacos.

Ali não há um ‘mega-hiper-extraordinário-craque’ que centralize tudo e que monopolize montagens de fotografias. Portanto, em caso de vitória, e presumindo que haverá um derrotado no jogo Barcelona-Juventus, o Sporting pode começar a Champions como líder e com meio caminho feito para, se não conseguir contrariar a teoria com a prática, acabar pelo menos na terceira posição, que equivale à Liga Europa.

Menos mal

O Sporting ficou, de caras, no grupo mais complicado e, por isso, teve honras de ser a primeira equipa a ser alvo de escrita. A segunda é o FC Porto.

Os dragões não levaram com um tubarão que mande nas águas europeias. Na rifa dos cabeças de série saiu-lhes o incrível AS Mónaco, do incrível Leonardo Jardim. O campeão francês ficou sem alguns incríveis jogadores (Mbappé, Bernardo Silva, Bakayoko e Méndy), o que talvez obrigue o treinador a ajustar a postura veloz e contra-atacante que propulsionou o clube até às meias-finais da Liga dos Campeões na época passada, mas não deixa de ser a equipa mais forte do grupo. A rasteira prega-se pelas restantes três, já que não existe uma formação que seja claramente superior ou inferior às outras.

O Besiktas devora o campeonato turco há duas temporadas e, com Pepe, Álvaro Negredo e Gary Medel, acrescentou tipos com estatuto, currículo e aptidões intactas a rapazes como Ricardo Quaresma ou Anderson Talisca, que vão retornar a Portugal. Serão o primeiro adversário (quarta-feira, 19h45, SportTV1) de um FC Porto que, mesmo estando mais compacto e acertado com Sérgio Conceição, nada comprou e apenas reteve alguns emprestados. Quase à imagem e semelhança do RB Leipzig.

As siglas vêm de Red Bull ou, perdão, de RasenBallsport, traduzido do alemão como “desportos de relva”, que foi a geringonça encontrada pelos fundadores do clube, há oito anos, para ludibriarem as regras da Bundesliga — que, salvo muito raras exceções, não permitem que empresas constem do nome dos clubes. Em época de estreia no principal campeonato germânico, o Leipzig, que tem como política não contratar jogadores com mais de 24 anos, terminou no segundo lugar, com um futebol vertiginoso, de passes a olhar para a frente e risco nas transições. Conseguiu reter Emil Forsberg, Yurary Poulsen e, sobretudo, Timo Werner, o novo goleador da seleção alemã, a quem deu a companhia do português Bruma, um dos jovens granjeados com a oportunidade de jogar numa das equipas mais novatas da Europa.

O AS Mónaco, por ser campeão gaulês, semifinalista da Champions e ainda ter Leonardo Jardim e metade da equipa que fez furor na época passada (mesmo assim, foi a que mais lucro registou neste mercado, com €289 milhões), deverá ficar à espera de alguém, de entre os outros três, para o acompanhar rumo aos oitavos de final. Poderá não ser o grupo mais emocionante, mas será um dos mais imprevisíveis, à partida.

Nada mal

Mais fácil de prever é o que sobra, e tem a ver com o Benfica. A equipa portuguesa com a vida mais longa, esta década, na Liga dos Campeões reencontrará várias figuras: o Manchester United, clube que apenas agora parece estar a equilibrar-se da ressaca que sofre desde a reforma de Alex Ferguson, em 2013; José Mourinho, cujo nome começou a vir à baila quando treinou os encarnados, no início do século; e também Victor Lindelöf e Nemanja Matic, sueco e sérvio que já moraram na Luz.

Os ingleses, vencedores da Liga Europa e de duas taças caseiras na última temporada, têm jogadores com talento, pés, técnica e, no fundo, andamento diferente. São uma equipa que não é mais vezes um bully para os adversários devido aos planos do treinador, estratego, matreiro e faminto, mais interessado em esperar pelo erro alheio do que em provocá-lo. O United, porém, terá o primeiro lugar do grupo à espera, e o dever do Benfica será nunca deixar de o perseguir.

O Benfica começa esta aventura europeia contra uns russos que em casa são complicados e têm a favor o frio, a neve e todo um contexto que é deles mas que além-fronteiras costumam ser dóceis. O CSKA de Moscovo vai à Luz (terça-feira, 19h45, SportTV1) com menos nomes famosos do que o costume, e os que ainda tem, na defesa, parecem estar entre nós desde sempre — os gémeos Berezutskiy têm 35 anos e o ‘avô’ Ignashevich já vai nos 38. É o mesmo que escrever que por lá mora uma defesa experiente, sim, mas lenta e morosa a virar-se e a reagir a ataques rápidos.

Permeável, portanto, quando do lado de cá há Salvio, Cervi e Seferovic, jogadores velozes e rápidos a atacar os espaços e a profundidade que possa haver nas costas de uma defesa. Argumentos que lhes serão úteis quando for altura de defrontarem o Basileia, a outra equipa do grupo, que esta época se juntou à moda de jogar com três centrais e cinco homens a contribuírem para a densidade populacional no meio-campo.

Os campeões suíços — das últimas oito épocas, diga-se de passagem — não são de confiar, porque na Liga dos Campeões têm o hábito de se ajustarem à circunstância, de preferirem a certeza ao risco e de montarem equipas que surpreendem por obrigarem o adversário a arriscar e a sofrer com isso. E agora há um holandês chamado Ricky van Wolfswinkel a morar em Basileia, avançado que marcou dois golos aos encarnados nas quatro partidas em que os defrontou pelo Sporting (entre 2011 e 2013). Chegou para substituir outro avançado que, por coincidência, está agora nos leões (Seydou Doumbia). O que pode remexer com as memórias.

A moral deste texto, pegando no exemplo inicial, é que, se tivéssemos de cortar uma imagem a meio e dividir os grandes pelas aldeias, Benfica e FC Porto estariam no mesmo lado da barricada — o das equipas que têm mais facilidade em seguir para os oitavos de final da Liga dos Campeões —, e do outro estaria o Sporting, a quem o azar e os ditames do sorteio colocaram, pela segunda época seguida, num grupo que não lhe quer o bem.