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Liga dos Campeões

E, com um jogo, tudo piora

O FC Porto entrou na Liga dos Campeões a perder (1-3) contra o Besiktas, em casa, e a mostrar como não conseguiu jogar para fora como tem jogado cá dentro - a equipa não foi intensa, ou pressionante, nem se manteve junta com, e sem a bola

Diogo Pombo

MIGUEL RIOPA

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É giro reparar como, em pouco tempo, as mesmas pessoas fazem as coisas parecer diferentes, ou o contexto, que neste caso é o do FC Porto, faz com que elas mudem.

O ano passado, por exemplo, os dois tipos que esta terça-feira estão no ataque da equipa já atacavam juntos, não ali, mas em outro cidade, mais pequena, por um clube também mais pequeno, onde marcam 19 golos entre os dois até janeiro. Agora há um Óliver que é a melhor versão dele próprio, um pequeno, inventivo, bom passador de bola, pouco perdedor e rotativo médio espanhol, e não o jovem mole, apático e errático que jogava com Nuno Espírito Santo. Hoje há uma equipa que faz muito mais com o mesmo - os mesmos jogadores -, um mais em que cabe ser mais rápida com a bola, mais pressionante, mais passes para a frente, maior agressividade tendo, ou não, o bem precioso.

Este mais geral, no fundo, não é culpa do contexto, ou é se lhe dermos uma cara e um nome - Sérgio Conceição. O novo treinador mudou os dragões para melhor, um incremento que se resume nos 12 golos marcados e nenhum sofrido em cinco jogos feitos. Números que nada explicam, mas que mostram uma evolução. E por isso o ouvimos dizer, antes do jogo contra o Besiktas, que não vão “mudar a forma de jogar por isto ser a Liga dos Campeões”. Nem faria sentido.

Mas, de sábado para cá, em ainda menos tempo, as mesmas coisas mudam nos dragões, para pior. Em 45 minutos, a equipa intensa, agressiva, fuinha nos espaços que concede ao adversário, devota da religião que proclama a felicidade quando se recupera a bola perto da área contrária, mal se vê. O FC Porto está no campo de forma apática, com os dois avançados a serem batidos por um passe, Danilo e Óliver a chegarem atrasados a todo o lado, uma equipa partida e a deixar o adversário fazer o velho truque do rato e do gato - que, no futebol, é atrair a pressão para um lado para meter a bola do outro, onde está o espaço livre.

É assim que Quaresma se farta de ter momentos de dança com Alex Telles, sobretudo. Ou que Babel tenha metros para correr só com Ricardo Pereira a persegui-lo. E que Talisca, não o velho Talisca do Benfica, mas o Talisca que não perde bolas, que corre com ela, já sprinta e faz passes ao longe como quem tem um dom, controla o ritmo que o jogo se joga com o pé esquerdo. Ou com a cabeça, loira e oxigenada, que remata a bola cruzada (13’) pelo extremo que é aplaudido no Dragão, apesar de não lhe querer bem, e faz o 1-0.

Os dois que os turcos tinham a jogar ao meio (Hutchinson-Ozyakup) mexiam-se e comportavam-se melhor, e mais ligados, do que o par Danilo-Óliver, partidos entre eles e sem capacidade para impedirem que a equipa se partisse, sem a bola. Nem a bola que Tosic desvia para a própria baliza (21’), num canto, fez com os dragões assentassem, se aproximassem e juntassem o bloco que o Besiktas conseguia, quase sempre, separar.

Por isso houve o espaço na terra de ninguém, quando o avançado Tosun fugiu dos centrais, recebeu nas costas dos médios, virou-se para a baliza e aproveitou para disparar um golaço (28’) a 30 metros da baliza de Casillas.

E mesmo que Óliver tenha rematado uma bola ao poste, na área, e que Soares pontapeasse outra, em arco, que passou muito perto de um dos postes, o FC Porto era a equipa que mais se partia e pior reagia às muitas perdas de bola - nenhuma equipa chegou aos 70% de passes certos até ao intervalo.

MIGUEL RIOPA

Sérgio Conceição assistiu a tudo e trocou Óliver e Corona por André André e Otávio, trocas que resolveram metade do problema. Sem a bola e a defender, a equipa ficou mais estável e com mais gente ao centro, para obrigar os turcos a olharem mais para o lado e demorarem mais tempo a chegarem à baliza. Com a bola, porém, o FC Porto tornou-se mais lento e previsível a atacar. Porque mesmo que este fosse apenas o sexto jogo da época, os jogadores são criaturas de hábitos e não estão habituados a jogar com três no meio campo e outros três na frente.

A bola ficou mais tempo em pés do FC Porto, a viajar muito para o lado e para trás, com o Besiktas mais fechado e com os jogadores mais recuados, a defenderem. A equipa perdeu o jogo interior, as tabelas, os passes curtos e gente a fazer de parede, que há semanas trabalha com Brahimi e Corona por dentro e Telles e Ricardo a irem por fora. E ficou dependente dos laterais, que se foram cansando, para ter largura, pois mesmo que seja giro ver como as coisas mudaram com Sérgio Conceição, as pessoas são o que são:

Ou seja, Marega é o que é, um esforçado e corredor avançado que dá pouco mais do que corridas e diagonais para a área; Brahimi é brilhante e desequilibrador se tiver a bola e espaço à frente, mas tímido quando há mais do que um adversário em cima e o cansaço pesa nas pernas; e a equipa é boa, mas o plantel é curto e continuará a sê-lo até janeiro, o que faz com que o FC Porto, a perder em casa, na Liga dos Campeões e na hora de arriscar, não tenha melhor do que Hernâni para lançar no jogo.

E, depois, o Besiktas é aquilo em que se tornou, uma equipa bicampeã no seu país, com jogadores com confiança e moral à vista pela forma como têm a bola e existem com ela - calmos, seguros, ponderados e sem a pontapearem para a frente. Uma equipa ainda melhor do que um Besiktas de outros tempos, com dinheiro para Pepe, Negredo, Medel ou Babel, tipos que facilmente jogariam em clubes com mais nome e história e expectativas à volta (sobretudo o central português, que nada deixou acontecer na defesa).

É por isso que o FC Porto, até ao fim, tenha titubeado, emperrado e jogado sem ideias para desmontar a primeira equipa que defrontou, esta época, de valor semelhante ao seu - só teve um jogada em que Soares rematou na cara do guarda-redes. E que não tenha arranjado forma de não se deixar desmontar, outra vez, e evitar que Ryan Babel marcasse o terceiro dos turcos (86'), no final de uma jogada com os seus 20 passes, em que a bola vai de um lado ao outro do campo até ser cruzada para a área.

O FC Porto pode estar melhor, e está, no campeonato e para jogos cá dentro, mas, para fora, terá de jogar da mesma forma - explicando, com a mesma intensidade, coesão, capacidade de pressionar e manter a equipa junta. Os dragões entraram mal na Liga dos Campeões, a perderem bem, a sofrerem os primeiros golos da época e a mostrarem como as coisas também podem mudar de um jogo, para o outro.

O que, para eles, não é giro de ver.

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