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O toque de Coates

Não foi por isso que perdeu (0-1), mas só a bola que ressaltou no corpo do central uruguaio e entrou na baliza de Rui Patrício separou o Sporting do Barcelona. Os leões arriscaram, pressionaram, contiveram Messi na medida do possível e, na segunda parte, apertaram os catalães e tiveram oportunidades para empatar o jogo

Diogo Pombo

Octavio Passos

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Longos anos atrás, um português com fartas ideias e farto em cabelo enfiou-se num avião e foi a Barcelona. Ficou um mês. Foi com uma intenção, queria falar, sobretudo ouvir, aprender e entender coisas ditas pelo crânio que nasceu à frente do tempo dele, do nosso e de qualquer tempo em que decidisse nascer. Algures durante esse tempo, terá conversado uma ou várias vezes com Johan Cruijff, um génio que era, e é, o mais que tudo para o clube més que un club e que os ordenou a jogar de uma certa maneira.

Uma dita forma sobre a qual dialogou com o tal cabeludo. Tê-lo-á feito perceber que se jogava de acordo com certas coisas fundamentais, espécie de mandamentos, como estes, que lhe resumiu desmesuradamente melhor do que o tento fazer de seguida:

- há que procurar ganhar o espaço por trás da linha de jogadores que nos pressiona;
- o adversário defende consoante nós atacarmos;
- há que juntar os nossos jogadores, formar triângulos e trocar a bola em espaços curtos;
- fazer isso procurando sempre o terceiro homem, o livre;
- há que não passar a bola por passar e conduzi-la para atrair um adversário e gerar um espaço;
- há que manter a equipa junta e com os jogadores próximos, para quando se perder a bola, todos pressionarem e apertarem e recuperarem-na ali perto;
- e fazei isto em memória de mim.

Quem o ouviu, há muitos anos, lembrou ontem, aos jornalistas e ao mundo, quase soletrando, vincando cada sílada como se todos fossemos carenciados de compreensão, que jogo é este: “jogo po-si-cio-nal”. E eles são “a melhor equipa do mundo” a fazê-lo.

Tantas voltas ao sol depois não apagaram esta forma de jogar dos genes do Barcelona e esse tal cabeludo sabia que eles, hoje, iriam jogar assim: esperando devorar toda a gente, abrir espaços, fazer rabias a campo inteiro ao adversário, fazê-lo crer na ideia de que a bola é inatingível. Mais do que o ouvir, Jorge Jesus escutou-o bem. na altura. Porque durante 45 minutos de mais bola com o Barça, dos catalães plantados com os centrais na metade do campo do Sporting, eles tentam, mas não encontram os espaços que querem, raramente libertam um terceiro homem.

Os leões, cientes do que são, não travam a luta que não podem ganhar e deixam o Barça ter mais de 60% da companhia que interessa em campo. Mantêm as linhas juntas, os onze diante do adversário que tem a bola. Doumbia cola em Busquets, o médio vazador de jogo que mais sangue frio tem. William é o melhor, não trinco e sim médio, metros à frente do que costuma e atrás de quem, no Barcelona, pressiona com tudo quando eles perdem a bola - fica no espaço que isso cria, para receber bolas e ditar saídas rápidas, contra-ataques.

Atrás dele existe Battaglia, o argentino veloz, cão e perseguidor, argentino que não descola de Coates e Mathieu tenha a equipa bola, ou não. Porque ali está quase sempre o extraterrestre e tocado pelo toque de génio que desceu à Terra como argentino. O Lionel Messi que é preciso vigiar, conter, para quem se tem de tapar caminhos e chatear ao máximo, sabendo que anulá-lo é impossível. Ele bate um livre que rasa o poste esquerdo da baliza de Patrício. Ele domina, evita pés, passa, recebe mais à frente, ganha metros e repete o processo como quem coça um olho. Mas só perto do intervalo carrega um contra-ataque sozinho para rematar duas vezes, mostrando uma cueca a Battaglia e sentando Coates pelo meio.

Octavio Passos

Aquele que foi abençoado por algo que nos foge ao entendimento remata frouxo e rasteiro, uma vez, e cabeceia uma bola às mãos de Patrício, em outra. No fim de jogadas é inofensivo. E o Sporting é a compostura de William, os desarmes de Battaglia, os dois remates de Bruno Fernandes, a cavalgada improvável de Piccini, para o meio, até ao pontapé do seu pé esquerdo.

O Sporting tem menos bola, arrisca menos, ataca menos, mas faz mais com o que tem, que é bem menos do que o Barcelona possui e não aproveita.

Todo este fazer as coisas bem, esta concentração em que os jogadores se focam, a mostra de como há um plano e há que o cumprir, descamba assim que a segunda parte arranca. A falta que Acuña comete a Nélson Semedo pára a bola, deixa-a para Messi a cruzar para a área. Ela vai e bate no corpo de Coates, inesperadamente, desvia-se para a baliza e engana Rui Patrício. É um novo jogo que começa aos 49 minutos.

O Sporting tem de arriscar, avançar uns metros no campo, roubar bolas mais à frente. Está a perder. Tenta acelerar as bolas que tem, lançar Gelson e Acuña para as costas de Alba e Semedo. Pressiona em cima, junto à área, com Bruno Fernandes lá encostado, afasta as linhas e arrisca, muito, contra uma equipa que não vive sem arriscar e mostra o melhor que tem quando os adversários se julgam capazes de se comportarem assim:

a campo aberto, a abrirem espaço, a deixarem muitos metros quadrados vagos.

Durante uns quinze minutos, o tal jogo po-si-cio-nal do Barcelona prospera. Têm posses de bola com um minuto de esperança média de vida, Messi a fortalecer a amizade com Suárez, tocando e tabelando, e o Sporting a correr atrás de uma bola que Busquets e Iniesta, sobretudo o careca com pés que sabem mais que toda a gente, a encarregarem-se de a filtrar. Os leões demoram a habituarem-se a viver com tanto espaço livre, à vivência de Jérémy Mathieu.

Octavio Passos

O francês prevê, antecipa, corta, desarma, é intenso a reagir à vida que já viveu durante três anos, que o projeta atrás de Messi para deslizar no melhor corte do jogo (57’) depois da primeira das vezes em que Coates inventa com a bola e a perde para Suárez. Ele reage bem a tudo e eleva o nível pelo qual um estádio cheio - chateado e barulhento para com o árbitro - também puxa. E assim que Lionel Messi, num livre outra vez originado por Acuña, remata a bola pouco por cima da barra, o Sporting habitua-se ao jogo que quer fazer.

Até ao fim são cerca de 20 minutos em que os leões, espicaçados, intensos, a pressionarem como se uma bomba fosse explodir e só eles soubessem, empurram o Barça para a própria área. Pressionam em bloco quando Messi e Suárez, indiferentes ao que se passa, ficam plantados na frente, em fora de jogo, deixando a equipa com nove jogadores a sair com a bola que perdem e dão a Battaglia. O argentino isola um não rápido Bas Dost, que na cara de Ter Stegen passa a bola para o lado onde, na área, Bruno Fernandes remata contra as mãos do guarda-redes, sónico a recuperar posição.

É a melhor oportunidade que o Sporting tem para marcar (71’) enquanto tenta, aperta, arrisca e força tudo. Bruno Fernandes remata a bola mais três vezes, apenas uma chega à baliza e as restantes são bloqueadas por corpos, na área. O médio, frustrado, braceja e revolta-se contra a ocasião.

A equipa precisa de rapidez na frente que o suplente Dost tem a menos que Doumbia, o titular que se lesiona antes do intervalo, porque recupera várias bolas na metade do campo do Barça quando já só tem o holandês - e um Gelson cansado, Coentrão e Acuña de rastos, no banco, e Jonathan Silva e um Bruno César projetados, sim, mas menos intensos, verticais e rápidos a olhar para o espaço que há nas costas dos defesas. Vê-se os leões a atacarem e a quererem tudo como loucos, Messi a ser Messi, fintando, enganando com o corpo, imune a furtos, em todo o lado até chegar à área, onde as vezes em que pede a alguém para servir de parede nunca resultado.

Ele é e faz tudo o que há antes de rematar a baliza, de acabar com jogadas. O que é suficiente para o conter, sem nunca o controlar.

O último terço do jogo é da equipa que inverte os papéis, que aproveita o murchar da outra e tenta punir por isso. O Sporting tem momentos de encostar o Barcelona à baliza, de os cercar com aquelas trocas de bola perto da área, a tentar descobrir caminhos que apenas se abrem com a genica e o repentismo que, tão tarde no jogo, já lhes faltam. Numa delas, um cruzamento de Bruno Fernandes é amortecido pela cabeça de Bas Dost para William, na área, de costas e sem apoios, rematar à meia volta (79’). Sai bem por cima.

Este terço de jogo passa-se com os leões a serem mais na intensidade, no querer, nas jogadas com final na área, nas segundas bolas que ganham e na pressão que lhes sai bem a todo o campo. Apenas falham no toque de bola de Coates, o uruguaio do auto-golo, o mais falacioso dos centrais que volta a inventar e a ser desarmado por Suárez. Uma reincidência que não os castiga por Paulinho ver no corpo de Rui Patrício um alvo no qual acertar.

O jogo acaba depois de mais assobios ao árbitro. De se ouvir aqui no estádio uma ovação reconhecedora de quem Andrés Iniesta é, ao ser substituído. E de um invasor de campo que se ajoelha perante Messi e lhe beija o pé esquerdo. O Sporting perde com o Barcelona, não é melhor que o Barcelona e não tem jogadores melhores que os deles. Mas lutou, deu mais que luta, arriscou, ameaçou e teve alguns momentos em que foi melhor e encostou um adversário que quando alguém o encosta é motivo de manchete e surpresa.

Só que perdeu porque, algures pelo meio, houve a bola tocou, sem querer, em Coates.

Octavio Passos