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As Mile e uma coisas que correm mal ao Benfica

Contra o Manchester United, uma delas foi Mile Svilar agarrar uma bola e entrar com ela na própria baliza, é um facto. O Benfica perdeu (0-1) pela terceira vez na Liga dos Campeões, mas os 18 anos de um miúdo que é um guarda-redes que promete e tem a confiança de um adulto foram o menor dos problemas da equipa de Rui Vitória

Diogo Pombo

Laurence Griffiths

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Há um termo que é utilizado quando alguém passa por uma experiência, física ou mental, muito violenta, de tal forma que ficam marcas, no corpo ou na cabeça, morosas de passar. É a palavra “trauma”, vinda do grego traûma, que no tempo em que foi inventada, há muito, muito tempo, significava ferida, dano ou avaria. Em alemão existe uma parecida, träum, que significa sonhar. Este momento Capitão Nascimento a dar uma seca de etimologia aos seus recrutas sonolentos, na "Tropa de Elite", tem uma justificação:

Era um sonho achar que sofrer cinco golos e não marcar nenhum na Suíça, para a Liga dos Campeões, em casa de uma equipa inferior, na teoria, em tudo, não ia ferir ou avariar um pouco o funcionamento da equipa do Benfica.

Os danos viram-se no empate na Madeira e na vitória frouxa e cinzenta contra o Olhanense. E por mais trabalho, processos, caminhos que se fazem caminhando e obstáculos que existem para serem ultrapassados com os quais o léxico de Rui Vitória tentava disfarçar, o melhor adversário para se recuperar de um trauma não seria o Manchester United. O até há dias líder da Premier League e treinado por quem faz vida a anular as equipas contra quem joga, mesmo que, por vezes, acabe por envolver a própria equipa num colete de forças.

Para o tentar surpreender, o treinador do Benfica recorreu aos mais novos, miúdos que nunca tinham jogado na Champions e agora, eram titulares.

A surpresa misturada com a estratégia resultou durante muito tempo. O central Rúben Dias sabia conter até onde podia o possante, grande e forte Lukaku, que tinha de fugir da frente da área para receber bolas; o extremo Diogo Gonçalves quase se comprometia mais a defender e fechar espaços do que a atacar o que havia nas costas de Valencia, no lado onde Mata demorava a ir ajudar; e os 18 anos, dois meses e 22 dias, que tornaram Mile Svilar o mais novo guarda-redes a jogar na competição, paravam as poucas bolas que o United rematava à baliza.

A falta de ritmo, de hábito a jogar jogos destes e de intensidade deles não se foi notando. Porque o Benfica também juntou Filipe Augusto a Fejsa no meio campo, para poupar Pizzi a tanto esforço e corrida. E deixou-se estar num 4-3-3 sem Jonas, que juntava cinco homens na linha do meio campo, a defender, e mantinha os jogadores unidos, num bloco que ocupava poucos metros de Jiménez até Svilar.

Ciente de estar a jogar contra um United rotativo e intenso, sim, mas que gosta mais de ser vertical e direto do que matutar o que vai fazer com a bola, o Benfica recuou e esperou por possíveis saídas rápidas para o ataque. Foi assim que Grimaldo recuperou uma bola, fintou vários, tabelou com Diogo Gonçalves e cruzou a bola rasteira para Salvio, na área, não acertar com o remate na baliza. E que o argentino, minutos depois, roçou o pé em outra bola, que Jiménez desviou com a cabeça após um pontapé longo de Svilar.

Não era bonito, nem espetacular, muito menos ornamentado - raro era ligar mais do que dez passes seguidos -, mas o Benfica estancava o United e ia conseguindo rematar à baliza.

Laurence Griffiths

Até o acerto e a concentração serem afetadas pelas pernas, por volta da meia hora, quando os ingleses decidiram pressionar mais à frente e Matic se tornou num polvo sérvio a roubar toda a gente. O United começou a ligar a rapidez de Rashford e à velocidade de pensamento de Mkhitarian, acumulou jogadas que chegavam à área em três tempos, subia a contagem de cantos. E forçava erros básicos, como os de Douglas, errático nos dois passes que serviu numa bandeja aos ingleses. Um deles acabou num remate perigoso do arménio, a acabar um contra-ataque.

O jogo ia a meio e parecia que o Benfica não era capaz, nem seria, de jogar de outra forma. Sem a influência de Pizzi, inconstante e à procura da intensidade da época anterior, e sem Jonas como escala para a bola, a equipa foi sendo encolhida pelas primeiras bolas para Lukaku e as segundas, que Herrera e Matic recolhiam, quase sempre.

Cansados e cada vez menos coesos, os encarnados falhavam mais passes, viam menos da bola e faziam mais faltas, para respirarem e cortarem o que a desorganização não sustinha.

Numa delas, das que se tem por costume dizer que são bem feitas por serem longe da área, Rashford cruzou para a área. A bola foi em direção da baliza. Svilar não o esperava e preferiu agarrá-la em vez de a socar, ou atirar por cima da barra - e acabou por entrar com ela na baliza, como a vibração do relógio no pulso do árbitro confirmou. O miúdo, com cara e aparência de quem poderia ser o irmão mais novo de Fejsa, chamado para jogar com os mais velhos porque alguém faltou à última hora, cometia um erro e o Benfica sofria um golo.

E a bola com que entrou na própria baliza, como se esperava, foi um prejuízo demasiado grande.

PATRICIA DE MELO MOREIRA

Porque o Benfica, com bola, não é rápido, nem criativo, nem dinâmico, nem tem jogadores a associarem-se. Sem ela, defende com uma linha de quatro recuada e presa à lentidão de um central, cheia de compensações atrasados e que deixam a equipa curta quando quer usar as bolas que recuperar. Por cima de tudo isto, os jogadores acusaram o cansaço do arranque intenso que tinha feito e, mesmo com Jonas já em campo, o melhor que lograram na segunda parte foi um remate de Rúben Dias, num canto, aos 84’.

A equipa de Rui Vitória, no fundo, foi quase inofensiva a atacar e encolhida a defender as investida de um Manchester United que tem melhores e mais fortes jogadores - e nos 12 jogos que já fez esta temporada, não sofreu golos em nove.

Não é crime nem espanto o Benfica ter perdido. É, sim, notório que faltam mil e uma coisas. Uma delas não parece ser um guarda-redes, porque o erro de Mile Svilar é um erro de miúdo a pensar como um adulto, confiante, pomposo e assertivo na forma com sai da baliza, sai aos pés dos avançados. Ou, como disse José Mourinho no final, foi um erro de “um miúdo que é fera” e apenas “cometeu um erro de posicionamento” pelo qual se desculpou aos adeptos, no estádio.

Falta é a coesão entre jogadores, a intensidade a fazer as coisas, o Jonas das duas épocas passadas, os jogadores a serem criativos com a bola, o Pizzi que disfarçava muita coisa, uma defesa em que não haja alguém distante dos outros, como parece haver em Douglas. Que falta a calma e a cabeça que já nem Luisão teve, quando entrou a pés juntos, foi expulso (92') e ainda barafustou com o árbitro.

Falta uma equipa confiante, sem medos e habilitada a controlar jogos, dominando-os, e não apenas controlando-os pela crença de que as coisas vão correr bem.

É assim que os traumas, aos poucos, também podem aparecer.

Laurence Griffiths