Tribuna Expresso

Perfil

Liga dos Campeões

Quando perder jogos de forma cruel começa a ser uma especialidade

O Sporting perdeu por 2-1 frente à Juventus em Turim, num jogo em que entrou a vencer e dominou uma boa fatia da 2.ª parte. Mas tal como no último ano nos dois jogos com o Real Madrid, os leões voltaram a sofrer golos ao cair do pano e a sair do estádio de um dos colossos europeus com uma derrota inglória, daquelas que Jesus já deve estar mais que farto

Lídia Paralta Gomes

MIGUEL MEDINA/Getty

Partilhar

Ora bem, onde é que nós já vimos isto? Isto do Sporting enfrentar um colosso europeu, jogar bem e perder de forma inglória. Um par de vezes no último ano, por exemplo, nos dois jogos contra o Real Madrid. No Santiago Bernabéu, a equipa de Jesus esteve largos minutos em vantagem, com os merengues a dar a volta aos oitchenta e oitcho e aos 90’+4. E em Alvalade, depois de muito lutar, o Sporting empatou aos 80’, para voltar a ficar em desvantagem aos 87'.

Já este ano, há um par de semanas, aliás, só um autogolo derrotou o Sporting frente ao Barcelona. E esta noite, em Turim, depois de marcar aos 12 minutos, de sofrer o empate e de controlar uma boa fatia da 2.ª parte, o golo da derrota leonina apareceu aos 84 minutos.

E assim se faz um compêndio de como perder jogos de forma cruel.

O último capítulo deste livro que o Sporting tem escrito no último ano começou, tal como outros, bem. Com Doumbia ainda não a 100%, Jesus colocou Bas Dost na frente e até ao golo que abriu o marcador, o que vimos em Turim foi um Sporting não à Champions, com aquele jogo em transição rápida, a apostar na surpresa do contra-ataque, mas à campeonato, com posse, iniciativa, aproveitando a pouca pressão que a Juventus parecia disposta a fazer. Aproveitava Bruno Fernandes para girar a bola, aproveitava Acuña para a ganhar e segurar, com aquele físico que mete respeitinho, até em casa do campeão italiano.

Ainda assim, acabou por ser mesmo em transição rápida que o Sporting chegaria ao golo, aos 12 minutos, numa joint venture entre Gelson Martins e Alex Sandro, que começou com uma atípica perda de bola da Juventus a meio-campo, que Bruno Fernandes se apressou a conduzir e colocar em Gelson. Alex Sandro não conseguiu intercetar um passe que era intercetável e Gelson viu-se de repente isolado frente a Buffon, que rapidamente surgiu como uma aranha em frente ao extremo, que acabaria por rematar contra o guardião italiano.

Já muita gente colocava as mãos da cabeça pelo falhanço quando se percebeu que o lance, afinal, não tinha morrido: Alex Sandro vinha embalado na perseguição a Gelson e a bola defendida por Buffon acabou por bater no lateral ex-FC Porto, entrando caprichosamente na baliza da Juventus. Se o resultado chocava? Não, não chocava nada.

Antes do início da partida, uma bonita homenagem a todos os portugueses que perderam a vida nos incêndios de domingo

Antes do início da partida, uma bonita homenagem a todos os portugueses que perderam a vida nos incêndios de domingo

Massimo Pinca/Reuters

Mas o golo era uma benção e ao mesmo tempo um fardo: a ganhar aos 12 minutos em Turim, Sporting teria a partir daí de aguentar a artilharia pesada. Que, diga-se, surgiu rapidamente. Os remates sucederam-se: primeiro foi Khedira, depois Mandzukic e ainda Dybala. Entre cortes, Patrício e falta de pontaria dos jogadores da Juve, o Sporting ia aguentando, porque o meio-campo funcionava bem. Só não aguentou o livre direto de Pjanic aos 29 minutos, após uma falta desnecessária de Battaglia à entrada da área.

Até ao intervalo e já com o jogo empatado, a Juventus ainda enviou uma bola ao poste, por Higuaín.

Na 2.ª parte e depois de Piccini tirar o pão não da boca mas da cabeça de Mandzukic aos 63 minutos, o Sporting começou a superiorizar-se, a controlar o jogo e a não permitir que a Juventus passasse para lá do seu meio-campo. Bem Battaglia, bem William, quase sempre na posse da maior calma com a bola no pé ou em busca de a recuperar. O problema é que lá à frente Gelson, Acuña e Bruno Fernandes tinham dificuldades em aproveitar os momentos em que o Sporting conseguia construir. Com Bas Dost mal servido - até porque não é fácil para quem quer que seja desembaraçar-se de Chiellini e Barzagli - fazia falta a velocidade de Doumbia, que haveria de entrar já com o Sporting em desvantagem.

Numa altura em que o Sporting estava bem mas não conseguia criar perigo, Jesus pareceu feliz com o empate e colocou Palhinha para dar músculo à posição 6 e soltar William. O problema é que do outro lado Allegri chamou Douglas Costa e o brasileiro seria decisivo para mais uma derrota inglória do Sporting na Champions.

Estávamos no minuto 84 e na primeira vez que Costa tocou na bola apareceu um cruzamento perfeito para Mandzukic, que se antecipou a Jonathan Silva, que tinha entretanto entrado para o lugar de Coentrão (que não parece ter adorado ser substituído) e de cabeça consumou a reviravolta da Juventus, fazendo a memória de muitos sportinguistas voltar ao minuto oitchenta e oitcho da última temporada.

Nos derradeiros minutos e já em desespero, Jesus lançou então Doumbia e o costa-marfinense até esteve quase a fazer um empate que o Sporting merecia: já para lá dos 90’, o antigo avançado da Roma chegou tarde a um cruzamento de trivela de Bruno Fernandes.

Nisto da Champions e com tão poucos jogos na fase de grupos, já se sabe que não há vitórias morais que valham. Aliás, o Sporting está farto delas. Fica mais uma vez a ideia que há um qualquer bloqueio mental que impede Jesus e os leões de baterem o pé um dos grandes da Europa. Começou por ser inglório, agora parece que já só é cruel.