Tribuna Expresso

Perfil

Liga dos Campeões

“Viver ali era como uma lotaria. A qualquer momento, podíamos morrer”. FK Qarabag, o clube maior do que a guerra 

Eles fugiram da guerra para sobreviver e continuar a jogar futebol. Falamos do FK Qarabag, que se tornou, este ano, a primeira equipa do Azerbaijão a chegar à fase de grupos da UEFA Champions League (joga esta quarta-feira, 17h, contra o Atlético de Madrid). Esta é a história de um clube que é também a história de dois países que vivem entre a guerra e a paz. E é um ex-futebolista do Qarabag que nos guia

Helena Bento

SAKIS MITROLIDIS

Partilhar

Os minutos que antecedem acontecimentos sobre os quais criámos expectativas são sempre de algum nervosismo. Naquele dia, antes de entrar em campo, Mushfig Huseynov, que era então o ponta-de-lança predileto da sua equipa, estava muito nervoso. Mas nem era por causa do jogo. “A nossa cidade, Aghdam, estava no centro da guerra. E viver ali, naquela altura, era como uma lotaria. A qualquer momento, podíamos morrer”.

A primeira parte decorreu com normalidade. Bola para a frente e bola para trás, avanços e recuos, arranques lentos e fulminantes, remates exímios e remates toscos, fintas, faltas e quedas no campo. Mas, na segunda parte do jogo, a situação haveria de mudar. “O Exército arménio disparou uma bomba perto do nosso estádio. Os jogadores da equipa adversária ficaram muito assustados. Até hoje, não consegui esquecer o medo que vi nos seus olhos”, conta à Tribuna Expresso o antigo jogador do FK Qarabag, equipa na qual se mantém como treinador-adjunto.

O clube, hoje com sede em Baku, capital do Azerbaijão, já conseguiu vários feitos (na época passada, por exemplo, sagrou-se tetracampeão), mas o maior deles foi mesmo ter-se qualificado, este ano, para a fase de grupos da UEFA Champions League. É a primeira vez que uma equipa de futebol do Azerbaijão consegue chegar tão longe nesta competição europeia. Depois de ter enfrentado o Chelsea e o Roma, o FK Qarabag recebe em casa o Atlético de Madrid, esta quarta-feira.

Um conflito com raízes na década de 1920

Cidade de Shushi, em Nagorno-Karabakh.

Cidade de Shushi, em Nagorno-Karabakh.

Brendan Hoffman/Getty Images

Foi em 1988 que começaram os primeiros protestos pela independência de Nagorno-Karabakh, um enclave do Azerbaijão habitado, na altura, por uma maioria arménia (cerca de 76% da população, que era ainda composta por cerca de 23% de azeris e outras minorias, como russos e curdos). Grupos de arménios começaram a sair à rua e a exigir ao governo soviético, então liderado por Mikhail Gorbachev, que fosse concedido ao território a unificação com a Arménia. Nas semanas seguintes, os protestos engrossaram e tornou-se claro, para quase todos, que os manifestantes não tencionavam arredar pé de locais tão emblemáticos como a Lenine Square (hoje designada Renaissance Square).

Antes de avançarmos até aos primeiros confrontos e ao início da guerra, recuemos, no entanto, até à década de 1920, fundamental para entender o conflito. Estaline, então no cargo de Comissário do Povo para as Nacionalidades, decidira ceder o território à recém-criada república soviética do Azerbaijão. Durante a Idade Média, a região havia estado sob o controlo da antiga Pérsia, dividindo-se em cinco principados governados por famílias arménias. Mais tarde, passou para as mãos do Império Russo, e ao longo do século XIX, muitas famílias muçulmanas fugiram para o Irão, enquanto que muitos arménios foram persuadidos pelo Governo russo a emigrar do Irão para Karabakh.

Com a integração no Azerbaijão, formalizada a 1923, o Nagorno-Karabakh transformou-se numa república autónoma e foram levadas a cabo várias tentativas de repovoamento da região, com a deslocação de azeris para vilas arménias. Apesar de habituados a conviver com outros povos, muitos arménios não viram com bons olhos estas manobras. Tudo lhes fazia crer que estava em curso uma limpeza étnica que haveria de privá-los daquelas que defendiam ser as suas terras e, no limite, levar à sua extinção enquanto povo. “A minha mãe contou-me que, pouco a pouco, todos os cargos políticos passaram a ser desempenhados por azeris e que, nas escolas, deixou de ser ensinada a história da Arménia. Lembro-me também de ela me dizer que, um dia, acordou e percebeu que tudo à sua volta era azeri”, dizia-nos Arthur Arstamyan, antigo soldado e atual diretor do Museum of Fallen Soldiers, situado no centro da capital de Nagorno-Karabakh, Stepanakert, que visitámos há uns meses.

Em 1988, e já depois de alguns anos vividos sob grande tensão, começaram então os primeiros protestos. Foi na vila arménia de Askeran que as tropas de Nagorno-Karabakh se envolveram pela primeira vez em confrontos com o Exército azeri. Meses depois, era eleita uma assembleia local e proclamada a unificação da região com a Arménia, à revelia do Governo do Azerbaijão. A iniciativa veio adensar ainda mais o conflito. Com a dissolução da União Soviética, em 1991, e o apoio da Arménia às tropas locais e da Turquia ao Exército azeri, o conflito escalou para uma guerra sem precedentes. Naquele mesmo ano, era votada, em referendo boicotado pela população azeri que vivia na região, a independência de Nagorno-Karabakh, sobre a qual se pronunciou favoravelmente uma esmagadora maioria de eleitores (cerca de 99%).

Membros das Forças Armadas de Nagorno-Karabakh na linha de fronteira entre o território e o Azerbaijão, perto da cidade de Aghdam.

Membros das Forças Armadas de Nagorno-Karabakh na linha de fronteira entre o território e o Azerbaijão, perto da cidade de Aghdam.

Brendan Hoffman/Getty Images

Da fuga às dificuldades de recomeçar

Quase encostada à fronteira com o Azerbaijão, e habitada sobretudo por azeris, Aghdam rapidamente se transformou num alvo estratégico. “Quando a guerra começou nós continuámos a jogar em Aghdam, mas a vida tornou-se muito difícil para nós. As instalações do clube foram bombardeadas e os campos de treino também”, conta Mushfig Huseynov, que chegou ao FK Qarabag com apenas sete anos, tendo passado a integrar a equipa principal aos 15. Ao fim de algum tempo, tornou-se claro para todos que a equipa não poderia continuar ali. Não era certo que a bomba que, meses antes, caíra a metros do Imarat Stadium, durante o jogo contra o Inshaatchi Baku, não tivesse como alvo a equipa, e também não havia garantias de que outra bomba não pudesse, dali a tempos, cumprir essa missão. Num dia de julho de 1993, e quase antecipando a invasão e captura da cidade pelas tropas arménias, que levaria à fuga dos azeris que ali viviam, jogadores e equipa técnica mudaram-se para Mingecevir, no Azerbaijão, onde permaneceram durante dois anos até se mudarem para Baku (ainda haveriam de passar uma temporada noutra cidade, Sumqayit, até se instalarem definitivamente na capital).

Tantas voltas num tão curto período de tempo parece-nos obra amaldiçoada, mas ainda assim questionamos Huseynov sobre as mudanças e a adaptação aos diferentes lugares, quase para constatar o óbvio: “Foi muito complicado e tivemos momentos muito difíceis, mas mesmo assim conseguimos participar muitas vezes em competições europeias”. Além da instabilidade, a guerra deixou a equipa numa grave crise financeira. Só em 2001 a situação ficaria mais estável, quando uma das maiores empresas do Azerbaijão, a Azersun Holding, assumiu o controlo das contas do clube, com o aval de Heydar Aliyev, antigo Presidente do Azerbaijão. Em 2014/2015, e nas duas épocas seguintes, o FK Qarabag conseguiu apurar-se para a fase de grupos da Liga Europa, outra conquista histórica para uma equipa do Azerbaijão.

Nos últimos anos, o governo azeri tem sido acusado de transformar o futebol, e a equipa do FK Qarabag em concreto, numa arma de propaganda política. “O governo tem violado um dos princípios fundamentais do desporto, que é ser essencialmente não político”, diz à Tribuna Expresso um antigo embaixador da Arménia no Canadá, Ara Papian, para quem não apenas o futebol, como também outros desportos, se transformaram em “veículos de propaganda” do Governo do Azerbaijão. “O FK Qarabag é apenas uma pequena parte de uma estratégia bem maior. Nas últimas duas décadas, empresas do estado têm investido, todos os anos, centenas de milhões de dólares na compra de novos jogadores e em subornos a jornalistas desportivos”, aponta o também historiador, que considera que o que está aqui em causa é uma tentativa de “promover apenas uma versão da história”. “O Governo azeri quer mostrar que Nagorno-Karabakh lhe pertence”, diz, por sua vez, Zakaryan Arshak, militar arménio destacado para a fronteira entre a região disputada e o Azerbaijão.

Para Muhammad Asif Noor, fundador e diretor do Institute of Peace and Diplomatic Studies, em Islamabad, no Paquistão, esta abordagem não é exclusiva ao Azerbaijão. “Do mesmo modo que os arménios acusam o Governo azeri de recorrer a este tipo de táticas, também o Governo azeri pode acusar a Arménia de o fazer”, diz o especialista, que considera que o Azerbaijão “tem o direito de chamar a atenção para o conflito através dos meios que tiver ao seu dispor”, incluindo a equipa de futebol do FK Qarabag. Confrontado com as alegações de falta de neutralidade por parte do Azerbaijão, o especialista diz: “É verdade que deveria haver neutralidade no desporto, mas quando um país tem 25% do seu território ocupado e está constantemente envolvido em conflitos com um país agressor, comportamentos assim são expectáveis”.

FK Qarabag no jogo contra o Chelsea, na fase de grupos da UEFA Champions League.

FK Qarabag no jogo contra o Chelsea, na fase de grupos da UEFA Champions League.

Richard Heathcote/Getty Images

“Cada vez que abro a porta e entro aqui é uma dor gigante”. O cessar-fogo e o museu que devolve paz

A guerra entre as tropas arménias e o Exército azeri terminaria em 1994, com a assinatura de um acordo de cessar-fogo. O balanço foi desastroso - entre 25 mil a 35 mil pessoas morreram e cerca de 50 mil azeris foram obrigados a fugir e a procurar abrigo em lugares considerados seguros. O irmão de Arthur Arstamyan, de que falávamos há pouco, foi uma dessas vítimas mortais. Tinha 21 anos quando perdeu a vida na guerra. Em sua memória, e em homenagem aos soldados de Nagorno-Karabakh que morreram no conflito, a sua mãe decidiu abrir um museu e dar-lhe o nome de Museum of Fallen Soldiers, em 2002. “Durante cinco anos, ela andou de vila em vila à procura de familiares e amigos de soldados que morreram. Pediu-lhes fotografias e outros objetos pessoais para expor”. São essas imagens que vemos agora nas várias salas do pequeno museu, expostas e enfileiradas nas paredes (como se concedendo a estes homens, maioritariamente jovens, o privilégio último de sobreviverem no tempo da mesma forma que morreram, isto é, em fileiras) ou metidas em passepartouts de madeira escura e clara ou de cor cinzento metalizado.

Quando a mãe morreu, Arthur decidiu ficar a tomar conta do espaço. “Eu trabalhava como polícia há 32 anos, mas sentia-me muito cansado. Esperava ansiosamente pelo dia em que iria reformar-me e descansar. Mas também não podia deixar isto abandonado”. O trabalho, no entanto, trouxe-lhe pouco descanso. “Fazer isto é mais difícil do que ser polícia. Não sei se vocês conseguem entender isto, porque para entenderem teria sido necessário viver o que eu vivi, mas de cada vez que eu abro a porta e entro aqui é uma dor gigante. É muito difícil emocionalmente”, dizia-nos Arthur Arstamyan, já dentro do escritório onde preparara uma mesa cheia de chocolates e sortidos de bolachas para nos receber. Deu um gole do brandy que tem à sua frente, marca Ararat, muito conhecida na Arménia (uma espécie de equivalente do vinho do Porto em Portugal), e continuou: “Vêm cá muitos soldados ou familiares ou amigos de antigos soldados. Choram e falam-me sobre os seus problemas, porque acham que aqui podemos ajudá-los de alguma forma. Mas é muito difícil para mim ouvir estas histórias”. Connosco estava também Lilit Minasyan, a guia e tradutora de 28 anos que nos acompanhou na visitar a Nagorno-Karabakh, que começou e terminou num dia quente de junho.

Foi ela que nos mostrou o caminho até ao museu. Conhece bem o espaço e já ali esteve várias vezes. Numa das salas principais, ao lado de outros rostos dispostos em fila, está uma fotografia do seu pai, que também morreu na guerra, quando Lilit tinha cinco anos. Minutos antes, e percebendo uma certa tensão no seu corpo enquanto percorríamos o museu, perguntámos-lhe se lhe custava estar ali, ao que ela respondeu apenas: “Eu antes chorava sempre, mas agora já estou habituada”. Embora conste do guia da “Lonely Planet” e esteja localizado no centro da cidade, numa rua transversal a uma das avenidas principais, o museu é pouco visitado. Em nenhuma placa, antes ou depois de lá chegar, é dada conta da sua existência. A entrada é gratuita. “Ninguém deve ter de pagar para ver isto”, dizia Arthur Arstamyan.

Aghdam, cidade fantasma e em ruínas

Além das vítimas mortais, a guerra deixou várias aldeias e cidades de Nagorno-Karabakh semidestruídas ou mesmo totalmente destruídas, como foi o caso de Aghdam. Uma “pequena Hiroshima” – foi assim que Thomas de Waal, o reputado investigador da Carnegie Europe, descreveu a cidade naquela que é provavelmente a sua mais conhecida obra, “Black Garden”. Abandonada e feita de pó e ruínas, que se destacam na paisagem como pequenas manchas cinzentas separadas por vastos conglomerados de árvores, Aghdam é hoje uma espécie de “buffer zone” (“zona-tampão”, em português), para onde nenhum dos lados envolvidos no conflito se atreve a deslocar homens e armas, por mútuo acordo. Como é óbvio, ninguém quer viver lá. Do que pudemos constatar na nossa visita a Nagorno-Karabakh, nem sequer é possível visitá-la, pelo menos recorrendo aos meios convencionais e/ou legais. Dificilmente um desses homens que conduzem as chamadas “marshrutka” (meio de transporte muito popular não só na Arménia, como também na Geórgia, Rússia e outros países da região) se disponibilizaria para levar alguém até lá. Apesar disso, Mushfig Huseynov gostava de voltar à cidade. Para ele, Aghdam será “sempre” a sua casa.

Vista aérea de Stepanakert, capital de Nagorno-Karabakh.

Vista aérea de Stepanakert, capital de Nagorno-Karabakh.

KAREN MINASYAN/Getty Imges

Um conflito que não só não está resolvido, como pode agravar-se

Apesar da trégua, o conflito na autoproclamada república, não reconhecida pela comunidade internacional, está longe de ter terminado. Em abril do ano passado, as tropas dos dois países, estacionadas ao longo da fronteira entre Nagorno-Karabakh e o Azerbaijão, voltaram a entrar em confrontos. O ministro da Defesa Arménia reportou a morte de 97 militares e o Governo azeri disse ter perdido 31 soldados. Foi ainda confirmada a morte de civis de ambas as partes. Como seria de esperar, cada um dos países culpou o outro pela escalada da violência. Depois disso, não voltou a verificar-se qualquer incidente de maior gravidade mas, de facto, o conflito está longe de estar resolvido. “Ninguém garante que o Azerbaijão não volte a tentar conquistar territórios, como fez em abril. Ninguém sabe exatamente o que esperar deles, quais as suas intenções”, diz Licínia Simão, professora em Relações Internacionais na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, em entrevista ao Expresso. “O conflito tem vindo a piorar nos últimos anos e pode rebentar a qualquer momento”, acrescenta a especialista, que defende que uma escalada do conflito é mesmo “inevitável”.

Em maio de 2009, Azerbaijão e Arménia aceitaram os princípios de acordo contidos num documento assinado em Madrid, em Espanha, sob a supervisão do grupo de Minsk, da OSCE (Organização para a Segurança e Cooperação na Europa), que continua a acompanhar o conflito. Entre esses princípios, designados “Princípios de Madrid”, encontram-se a devolução ao Azerbaijão dos territórios ocupados à volta de Nagorno-Karabakh e o direito dos deslocados e refugiados regressarem ao seu antigo lugar de residência. No entanto, ao fim de algum tempo ficou claro que nenhuma das partes estava interessada em manter os seus compromissos. Postura que se prolongou até aos dias de hoje. “Um acordo que implique cedências por parte de ambas as partes está cada vez mais longe”, considera Licínia Simão, para quem esta disputa pelo território é, sobretudo, “simbólica”. “Quer para a Arménia, quer para o Azerbaijão, Nagorno-Karabakh é um elemento fundamental em termos de imaginário histórico. O fator económico não é assim tão relevante. A Arménia ganhou e, por isso, qualquer cedência representa uma derrota”, diz a especialista, que tem estado envolvida em projetos de investigação centrados no espaço pós-Soviético. Ao ouvi-la, lembrámo-nos imediatamente das palavras de Lilit Minasyan, a guia e tradutora que nos acompanhou na visita a Nagorno já aqui mencionada. “Morreu tanta gente na guerra que agora não podemos simplesmente desistir. Seria tudo em vão”.

Já Mushfig Huseynov, embora assuma uma posição clara neste conflito, prefere não comentar questões políticas. “Não gosto nem quero falar sobre isso”. Acredita que o conflito só poderá ser resolvido de forma pacífica e é isso que espera que aconteça um dia. Para que a Arménia e o Azerbaijão possam viver de “forma amigável”. E ele possa, finalmente, regressar a casa. Em paz.