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Liga dos Campeões

No meio de tanto ruído, passou uma mensagem: o FC Porto sobreviveu

Num estádio barulhento e com tantos gritos, assobios e apupos, os dragões começaram a controlar, a surpreender e a marcar. Depois, sofreram, souberam defender e aguentaram o empate (1-1) em casa do Besiktas, que os deixa a depender apenas deles próprios para, na última jornada, garantirem a continuidade na Liga dos Campeões

Diogo Pombo

OZAN KOSE

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Não se percebeu bem, na altura, se Timo Werner padece de um problema auditivo, ou se é apenas sensível dos ouvidos. Facto é que o alemão do RB Leipzig, por volta da meia hora de jogo, pediu uns tampões para tapar os ouvidos. Sentia-se tonto e transtornado com os assobios, os gritos, os apupos e com a misturada de um ruído ensurdecedor no estádio. Tão sofrível lhe era que pediu para ser substituído.

Das duas, uma: foi um real problema causado pela audição, ou simplesmente o avançado não foi capaz de suportar o barulho, e as respetivas pressão e cagufa, que os adeptos da equipa contra a qual jogava estavam a provocar. Essa equipa era o Besiktas e esse estádio o Arena Vodafone, onde o FC Porto foi jogar sem jogadores com problemas nos ouvidos, garantiu Ricardo Pereira, o lateral direito que já foi extremo e a extremo jogou, à frente do outro Pereira.

Com Maxi atrás, ele avançou uns metros no campo, acompanhado por Danilo, cujas costas ficaram quentes com a presença de Sérgio Oliveira, mudanças que Sérgio Conceição fez na equipa para tentar passar 45 minutos a fazer o que logrou - pressionar os turcos perto da sua área, com a equipa em bloco, tapando linhas de passe e espaços de modo a que a bola só tivesse conforto em Pepe ou Tosic, os centrais. Adiantou o ladrão e aniquilador de jogadas mais eficaz da equipa, habitual trinco e deixou o médio, que parece ser o coelho da cartola na Champions, perto da defesa, e ainda mais perto de Talisca.

Com uma segunda sombra, quase uma vigilância individual, o Besiktas não encontrava os pés que melhor ligam a defesa com o ataque. As suas chegadas à área resumia-se aos consecutivos pontapés longos de Pepe para as alas, em busca de Babel e Quaresma. Apenas uma resultou, quando a simplicidade da receção e remate do português, na área, sacou a melhor das paradas (33’) a José Sá. Antes, o extremo holandês já rematara a 35 metros de distância para o guarda-redes que bem treina, defender mal a bola para a frente (19’).

Mesmo com muito barulho, ruído, assobio, que até pela televisão eram realmente incómodos, era só isto que vinha do lado turco.

Do português, havia uma equipa a pressionar e a não deixar jogar pela relva. Danilo, Sérgio e Herrera mantinham-se perto e a fazer pelas bolas saírem de trás simples e rasteiras, até respirarem com a condução de Brahimi (nos apertos) ou embalarem Ricardo Pereira em tabelas que o lançassem para posições de cruzamento (com espaço). Da rapidez e forma repentina como o extremo agia saíram dois cruzamentos para Aboubakar, um remate por cima, outro dominado pela ingenuidade de tentar enganar Pepe.

Mas outro, oriundo de um livre, à direita, que se julgava ser para Alex Telles bater para a área, saiu um golo matutado: Ricardo tocou ao de leve na bola, fugiu pela ala, recebeu o passe do brasileiro, cruzou logo rasteiro e, entre bloqueios e movimentações, apontou para o rompante remate de Felipe (29’). O livre à Sérgio Conceição apenas foi abafado pelo mesmo central brasileiro, demasiado esperançoso a atacar uma bola de cabeça que estava mais perto de Cenk Tosun. O turco ultrapassou-o com um chapéu, cruzou rasteiro e Talisca empatou na única vez que Sérgio Oliveira o largou (fora compensar os centrais).

Mesmo sofrendo um golo, o FC Porto estava longe de ser a equipa que mais sofria em campo, apesar de todo o barulho e ambiente e ruído a querer trabalhar a favor de quem jogava em casa.

OZAN KOSE

Essa atmosfera, mais cedo do que tarde, iria ser replicada pelos turcos, que trocando Tosic por Medel ao intervalo colocaram um central com pés e pensamento de médio lá atrás, ao lado de Pepe. A equipa ganhou acerto em posse e encostou os dragões à área com o aumento de intensidade e calma que já tinha a evadir-se da pressão portista, que se encolhia cada vez mais. O FC Porto recuava, juntava-se e encavalitava-se na área, confiante em Felipe e Danilo pelo ar, enquanto era bombardeado por cruzamentos rasteiros e pelo ar.

Tão compacto se tornou que os jogadores chegavam tarde aos momentos em que tinha de apertar adversários, à entrada da área. Três foram enganados na pressa e no contrapé por Babel, que rematou um míssil à barra da baliza (58’) e Maxi foi deitado num sofá de relva por Quaresma, até o extremo ter espaço para disparar de pé esquerdo e José Sá salvar (61’) a equipa. O ruído escalava nos decibéis, o Besiktas apertava, o FC Porto minguava, o lugar-comum de se sentir um golo a aparecer fazia cada vez mais sentido.

O pior que podia acontecer foi antes uma situação que, com os minutos, foi ficando menos má. Porque os turcos são humanos e, mesmo a quererem acelerar e pressionar, baixaram o ritmo. A intensidade abrandou. Os dragões acostumaram-se à forma de defenderem - recuados, bem fechados e agressivos no ataque às segundas bolas - à medida de Babel e Quaresma perdiam a explosão e tornavam inconsequentes as jogadas perto da área de Sá. Foram-se vendo muitas faltas (19) e “alívios” (29), como a UEFA chama aos chutões e tira-daí-a-bola do FC Porto, que soube adaptar-se à adversidade do cansaço nas perdas e de um adversário a cair-lhe em cima com tudo na segunda parte.

Os dragões aguentaram enquanto, também, os turcos abrandaram, pois o empate chegava-lhes para garantiram os oitavos-de-final. Resultado que Ricardo Pereira teve a hipótese de desfazer na trivela do pé direito, que quis usar, mas que trocou pelo bico da chuteira com que estragou o remate quando só tinha o guarda-redes Fabri à frente, após um drible falhado de Aboubakar sobrar para ele.

No meio de tanto barulho, assobios e ruído de um estádio feito para ambientes destes, passou a mensagem de que o FC Porto, primeiro, controlou, marcou e surpreendeu, para depois sofrer, defender e aguentar. Ou seja, sobreviveu, porque fez sete pontos e, façam o que fizeram o AS Monaco e o RB Leipzig, os dragões só dependem deles próprios para continuarem na Liga dos Campeões.