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"Tenho cancro", disse Berizzo aos seus jogadores do Sevilha - e eles deram-lhe uma reviravolta

O Sevilha perdia por 0-3 ao intervalo, em casa, contra o Liverpool. No balneário, Eduardo Berizzo disse que acreditava ser possível dar a volta ao resultado. A equipa marcou três golos na segunda parte, o último aos 90'+3, e os jogadores inundaram-no com os festejos porque, dias antes, o treinador lhes disse que tinha sido diagnosticado com cancro da próstata

Diogo Pombo

Aitor Alcalde

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Estava a ser um desastre. O Ramón Sánchez Pizjuán, um dos ambientes mais eufóricos e intensos que rodeiam os relvados de Espanha, vira a equipa sofrer três golos em meia hora. Os piores dos golos, dos que a equipa sofre mais por desatenções, infantilidades ou péssimas decisões, do que por espantoso mérito do adversário: dois cantos desviados ao primeiro poste e finalizados ao segundo, quase siameses; um ataque rápido defendido com buracos e baratas tontas, terminado por um brasileiro provocatório, que rematou à baliza virando a cabeça para o lado contrário.

O intervalo chegava e o Sevilha, desorganizado e atropelado, perdia por 0-3 em casa, numa noite de Liga dos Campeões das que toda a gente quer ganhar.

Quiçá estivessem muitos cabisbaixos e lamentos sentados no balneário. Jogadores quase derrotados, uma equipa ferida. E um treinador, perante tal desmoronamento, podia dizer coisas nas quais não acredita, dizendo-as para quem o ouve acreditar nelas e jogar, depois, melhor. Mas Eduardo Berizzo confiava, mesmo, que o Sevilha ia dar a voltar: “A verdade é que pensei que podíamos empatar. Podia ser que não acreditassem em mim, mas disse aos meus jogadores que íamos igualar o 0-3. Fomos capazes de nos envergonhar com a primeira parte que fizemos e sacámos a alma para competir de forma animal”.

Um lado feroz, aguerrido e brutal. Os jogadores despertaram, e isto terá acontecido, em parte, por causa disto: segundo a imprensa espanhola, o treinador disse-lhes, ao intervalo, que tinha sido diagnosticado com um adenocarcinoma de próstata. Um cancro.

Aitor Alcalde

A péssima novidade inflamou os jogadores. Eles correram e lutaram uns pelos outros e, sobretudo, por quem berrava e puxava por eles, no banco. Aos 51’ e 60’ os golos vindos de Ben Wedder e nos tardios 90’+3, a euforia provocada por Guido Pizarro. O argentino fez o empate e desatou a correr em direção ao treinador, os restantes jogadores atrás, só parando no abraço em que ele e todos os envolveram. Os festejos eram por Eduardo Berizzo.

O logro do empate foi celebrado para o treinador que, após o encontro, não abordou a sua condição. “Há que confiar sempre no futebol. Conseguimos um grande empate e estamos perto da passagem aos oitavos-de-final. Foi uma segunda parte memorável, como memorável foi a atitude dos meus jogadores”, disse, entre outras análises ao que se passou dentro de campo e não nos exames médicos.

Ao que parece, Berizzo, 48 anos, realizou vários durante a semana. Diagnosticaram-lhe um crescimento anormal do tecido glandular da próstata, maligno ao ponto de ser um cancro. É o tipo mais frequente nos homens em Espanha, onde se registaram mais de 33 mil casos em 2015, escreve o “El Mundo”. Estima-se que mais de 65% dos indivíduos sobrevivem mais do que cinco anos.

Esta quarta-feira, o Sevilha, confirmou o estado de saúde do seu treinador. “Exames futuros vão permitir decidir quais serão os passos a seguir em relação ao tratamento. O Sevilha quer mostrar o máximo apoio ao seu treinador nestes momentos e deseja a sua pronta recuperação”, escreveu, num parco comunicado.

Eduardo Berizzo orientou o treino desta manhã e tem-se escrito que o deverá fazer até saber quando vai iniciar um tratamento. José Castro, presidente do Sevilha, falou aos meios de comunicação do clube para dizer que, afinal, o treinador já teria revelado, aos jogadores, que padecia de cancro, após o jogo com o Celta de Vigo (sábado, 18 de novembro).

Este é o segundo caso recente de cancro diagnosticado numa figura da primeira divisão do futebol espanhol. Em dezembro do ano passado, Yeray Álvarez, defesa central do Athletic Bilbao, foi diagnosticado com um tumor no testículo.

Foi operado, regressou aos treinos e jogos em fevereiro, mas, no verão, falhou o Europeu de sub-21 devido a uma recaída, que o obrigou a submeter-se a um tratamento de quimioterapia durante três meses. Entretanto, recebeu alta e já regressou à equipa basca.

CRISTINA QUICLER