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Liga dos Campeões

Em terra de Beatles há uma estrela de rock que esbraceja, salta e grita mas ainda desafina. Este é o Liverpool de Klopp

O FC Porto vai defrontar o Liverpool nos oitavos de final da Liga dos Campeões e se a equipa de Jürgen Klopp já não é o que era na Premier League, nas competições europeias tem mostrado todo o seu poderio ofensivo, avisa o analista Rui Malheiro: soma cinco triunfos e três empates, com 29 golos marcados. Mas a defesa...

Rui Malheiro

Quando a adrenalina de Jürgen Klopp dispara, ninguém o pára. O treinador alemão de 50 anos cumpre a sua terceira época no Liverpool, mas ainda não conseguiu qualquer troféu

Richard Heathcote/ getty

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Quando Jürgen Klopp, a 8 de outubro de 2015, foi apresentado como novo técnico do Liverpool, as expetativas dos adeptos dos reds dispararam, após anos sombrios sob o comando técnico de Brendan Rodgers, Kenny Dalglish (em missão de muita alma e sacrifício que rendeu a conquista de uma Taça da Liga, o último troféu ganho pelo clube em 2011/12, exercício que terminou num modesto 8.º lugar) e Roy Hodgson, na sequência de um final depressivo de uma era que chegou a ser de ouro com o espanhol Rafael Benítez.

O último título nacional do Liverpool aconteceu em 1989/90, ainda com Rush, Beardsley, Dalglish (em final de carreira, só realizou uma partida), Grobbelaar, Barnes, McMahon, Whelan, Houghton, Hansen e Nicol como referências, e a derradeira conquista da Taça de Inglaterra remonta ao exercício 2005/06, quando os reds derrotaram o West Ham em Wembley, com Gerrard num registo superlativo, no desempate por pontapés da marca de grande penalidade.

Foi essa a última fase de ouro do Liverpool, a que marca o início da era Benítez, em que o emblema de Anfield Road conseguiu conquistar no Atatürk, em Istambul, numa das mais épicas finais da competição, a última Liga dos Campeões Europeus do seu historial, numa partida decidida no desempate por pontapés da marca de grande penalidade, depois do AC Milan ter chegado ao intervalo a golear por 3-0.

Mas Gerrard, Smicer e Xabi Alonso, secundados pelos escudeiros Dudek, Carragher, Hyypiä, García, Baros, Riise, Traoré e Hamann, firmariam um dos maiores contos de fadas da sumptuosa história das noites europeias.

O Liverpool já conquistou a Liga dos Campeões em cinco ocasiões (1976/77, 1977/78, 1980/81, 1983/84 e 2004/05), mas ultimamente pouco tem festejado

O Liverpool já conquistou a Liga dos Campeões em cinco ocasiões (1976/77, 1977/78, 1980/81, 1983/84 e 2004/05), mas ultimamente pouco tem festejado

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Mas regressemos a Klopp. Bicampeão alemão pelo Borussia Dortmund, em 2010/11 e 2011/12, vencedor de uma Taça da Alemanha (2011/12), e de duas Supertaças (2012/13 e 2013/14), além de finalista vencido da Liga dos Campeões em 2012/13, numa final perdida ante o Bayern (de Heynckes), o excêntrico treinador oriundo da Floresta Negra, de discurso desempoeirado e gargalhada esdrúxula, rompeu com a ditadura interna do colosso de Munique, mas não conseguiu resistir ao desgaste provocado pelo insucesso na sequência da chegada de Guardiola à Bundesliga.

Despediu-se da muralha amarela em lágrimas, mas estava na altura de abraçar um novo desafio. Devolver a glória a um clube que teve o seu último período de ouro a meio da primeira década do novo século, e que vive ainda na penumbra dos êxitos que lhe afiançaram o trono do futebol inglês e europeus nas décadas de 1970 e 1980, era uma tarefa hercúlea, algo que se confirma pouco mais de dois anos depois da sua chegada a Anfield.

Sem títulos e troféus conquistados, mas com duas finais perdidas – Liga Europa e Taça da Liga Inglesa em 2015/16 –, o terceiro exercício de Klopp à frente dos destinos do Liverpool exige resultados, depois do 8.º (2015/16) e do 4.º lugar (2016/17) nos campeonatos nas duas últimas temporadas. Contudo, a pior notícia que o técnico alemão teve desde que chegou ao comando técnico dos reds foi a chegada de Pep Guardiola (Manchester City) e de Antonio Conte (Chelsea) à Premier League, assim como o regresso de José Mourinho, desta feita para orientar o Manchester United.

Eliminado precocemente da Taça da Liga pelo Leicester, e em 4.º lugar no campeonato, já a 16 pontos do líder Manchester City, onde não poderá almejar mais do que lutar pelo vice-campeonato (cinco pontos de atraso para Manchester United, dois pontos de atraso para o Chelsea, um de avanço para o Arsenal e dois de avanço para o Tottenham), a sede de glória de Klopp e dos indefetíveis adeptos do Liverpool terá que se voltar para a conquista da Taça de Inglaterra e para o sucesso na Liga dos Campeões, competição em que ainda não perdeu em 2017/18 – soma cinco triunfos e três empates, além do impressionante registo de 29 golos marcados em 8 jogos.

A dinâmica ofensiva é um dos pontos fortes do Liverpool, assim como a garra do primeiro ao último minuto: à imagem do treinador

A dinâmica ofensiva é um dos pontos fortes do Liverpool, assim como a garra do primeiro ao último minuto: à imagem do treinador

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Habitualmente organizado estruturalmente em 1x4x3x3, onde procura conciliar a tremenda criatividade e a mobilidade abrasiva de Coutinho, Salah, Mané e Firmino (com Oxlade-Chamberlain e Sturridge à espreita), secundados por Wijnaldum, Emre Can, Henderson ou Milner (Lallana, a contas com problemas físicos, não tem sido utilizado), Jürgen Klopp também já testou o 1x4x4x2 clássico, o 1x4x4x2 em losango, o 1x3x4x2x1 e o 1x3x5x1x1 durante os últimos meses. Mas acaba sempre por regressar ao 1x4x3x3.

Equipa tremenda na exploração de contra-ataques e ataques rápidos, capaz de urdir um futebol combinativo a altíssima velocidade nos últimos metros ou de chegar com contundência a zonas de finalização a partir de ações individuais, o que lhe permite ferir o rival e criar inúmeras ocasiões de golo a partir de remates de dentro ou de fora da área (em bola corrida e em bola parada), tem faltado, em alguns momentos, uma maior paciência na circulação da bola em ataque posicional, como também - e aí fruto da presença de quatro unidades de características marcadamente ofensivas no onze - uma capacidade de pressão e uma reação à perda de bola mais pungentes, aspeto que sempre caracterizou as equipas do antigo treinador de Borussia Dortmund e Mainz.

Quando FC Porto e Liverpool se defrontaram pela última vez, Sérgio Conceição ainda era jogador. Na fase de grupos da Champions 2007/08 houve empate no Dragão (1-1) e vitória do Liverpool em Anfield (4-1) Foto José Coelho/Lusa

Quando FC Porto e Liverpool se defrontaram pela última vez, Sérgio Conceição ainda era jogador. Na fase de grupos da Champions 2007/08 houve empate no Dragão (1-1) e vitória do Liverpool em Anfield (4-1) Foto José Coelho/Lusa

Foto José Coelho/Lusa

Contudo, o FC Porto terá pela frente uma missão extremamente árdua, pois é muito difícil travar o poderio ofensivo dos reds, assim como obstaculizar o ritmo elevadíssimo que são capazes de imprimir ao jogo. Mas também é notório que o setor defensivo do Liverpool está longe de primar pela consistência, e tem sido esse o óbice na principal competição interna.

Muitas vezes expostos pela voracidade ofensiva e tentativa de reação alta à perda, a formação de Klopp apresenta problemas na dupla de defesas-centrais – Matip, Lovren e Klavan lutam pelos dois lugares, mas nenhum é de classe-extra (o mercado de inverno poderá trazer novidades) – e na lateral-direita, onde a lesão grave de Clyne tem vindo a ser suprida por dois jovens: Joe Gomez e Alexander-Arnold.

Equipa-base (1x4x3x3)

Mignolet – Joe Gomez (Alexander-Arnold), Matip (Lovren), Lovren (Klavan), Moreno – Henderson (Emre Can) – Wijnaldum, Coutinho – Salah, Sadio Mané – Roberto Firmino.