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Liga dos Campeões

Então é esta a sensação de ser engolido pela pressão

O FC Porto sofreu a maior derrota em casa e a pior na sua história para as competições europeias com o Liverpool, que atirou os dragões para fora da Liga dos Campeões (com 90 minutos ainda por jogar) apertando-os sempre no mesmo momento: assim que recuperava a bola e nos contra-ataques. E, mais do que a diferença de um 0-5, foi o quão diferentes eram os andamentos das duas equipas

Diogo Pombo

MIGUEL VIDAL/LUSA

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Quando uma equipa perde a bola, o mais típico é retrair-se, fazendo soar uma espécie de aviso na cabeça dos jogadores, que convém ser automático, para cada um se pôr no sítio certo, à altura certa, e a equipa se junte para fechar espaços, proteger a baliza e tentar recuperar o que perdeu. É o que, em dizeres mais formais, se conhece por momento de organização defensiva. O momento pelo qual qualquer equipa passa, em todos os jogos, em que parte ou competição seja.

Mas, entre a bola que se perde e a decisão em nos organizarmos para a reaver, ou não sofrer, há ali um limbo. Um resvés do vai-não-vai em que se toma essa tal decisão.

Nesse limbo, que costuma ser de um ou poucos segundos, o alemão que é conhecido pelos óculos, a barba, o sorriso rasgado e o olhar excêntrico, que temos como simpático e genuíno pela espontaneidade com que reage a tudo, tornou-se também reputado pelo que, na língua dele, se chama gegenpressing. Que não é mais do que, assim que se perde a bola, uma equipa pressionar imediatamente o adversário, com intensidade, para evitar que haja um contra-ataque e tentar recuperar logo o que perdeu. Um conceito simples de explicar, difícil de executar.

E, sobretudo, de contrariar quando é bem executado. Como este Liverpool, deste Jürgen Klopp, neste jogo contra o FC Porto.

Os ingleses podem ter vários defeitos e lacunas, mas, há certas alturas - como lançamentos laterais, livres batidos de forma curta, para perto, demasiados passes entre defesas centrais, para o lado, ou os tais momentos em que acaba de perder a bola - em que é um enxaqueca das valentes, que não se cura com comprimidos ou enfiarmo-nos num quarto escuro, de olhos fechados. Durante 25 minutos, o FC Porto contrariou-os com posses de bola demoradas, jogadas ao primeiro toque e muitos passes longos, a virar o sítio onde o jogo acontece, com segurança.

Mantendo Brahimi mais perto de Sérgio Oliveira e Herrera e de Otávio, a novidade que a teoria validava, por ser um tipo de toque de bola, que se agarra a ela e faz por a ter, a equipa conseguiu contornar essa contra-pressão do Liverpool - porque, arriscando pouco, perdia poucas bolas e, as que perdia, era nas raras vezes em que se aproximava da área inglesa. Isso durou até às precipitações de José Sá.

Porque o guarda-redes agarrou uma bola que fez por se desfazer rápido, como já acontecera no jogo, e tentou atirá-la para o centro do campo, onde o instinto cercador do Liverpool a roubou logo e colocou em Mané, à esquerda da área. O senegalês cortou um remate rasteiro e Sá, para dobrar os pecados, atirou-se em demasia para o lado esquerdo e deixou a bola passar-lhe por baixo do tronco. Pouco depois, outra bola recuperada perto da área, outra tentativa de sair rápido para o ataque e a enésima vez em que os ingleses executaram aquilo no qual mais mecanizados estão.

James Milner caiu sobre Marega, a meio da metade do campo portista, roubou-o, rematou em arco - pormenor 1) usando a ilusão de Reyes, fazendo o disparo contornar o corpo do mexicano -, a bola bateu no poste e Mohammed Salah apanhou a recarga - pormenor 2) o egípcio dominou, porque Alex Telles não acompanhou a linha feita no portador da bola, colocou-o em jogo e ele foi dando toques na bola para a fazer passar por cima de José Sá, antes de marcar o trigésimo golo da época.

Em cinco minutos, o FC Porto sofria dois golos e, mais do que sucumbir, era engolido pela pressão que o Liverpool queria.

Mesmo antes do intervalo, os dragões atinaram e encadearam um par de jogadas da forma como se faz mal aos ingleses: ao primeiro toque, rápido, com jogadores a tocarem entrelinhas e a não darem tempo à pressão. Um remate de Soares passou a rasar o poste esquerdo. E na segunda parte, sem Otávio e com Corona, com uma equipa mais normal e costumeira, o FC Porto entrou melhor, mais rotativo, a acertar mais passes, a ser mais agressivo sem a bola. Tentou remediar um mal com o mesmo veneno.

Andrew Powell

Durante algum tempo, até se ver o que se viu, e mesmo depois de se ter visto, os dragões até tiveram mais bola e foram-se aproximando com mais organização da área inglesa. Pareceram estar a igualar o Liverpool no ritmo, na intensidade, no andamento - mas a equipa de Klopp estava, apenas, a guardar-se para certos momentos, os tais em que mostram tudo o que separa a Premier League da liga portuguesa.

Eles recuperaram uma bola, houve a aceleração de Salah, o calcanhar de Firmino e a devolução do egípcio ao brasileiro para ele rematar, José Sá defender e Mané marcar 0-3 na recarga. Intensos e verticais.

Eles esperaram até o FC Porto, lento a mexer-se, vagaroso a trocar a bola e sem caminhos aberto, abrandar uma jogada e colocar Sérgio Oliveira como um antílope em campo aberto para Mané o roubar, ser imperturbável pela tentativas do português em pará-lo com uma falta, abrir em Milner para este cruzar e Firmino fazer o 0-4.

E eles replicaram os processos para voltarem a aguardar, a cercar alguém no momento certo, a acelerar com a bola recuperada e a deixarem Mané, à entrada da área, sem pressão e a rematar uma espécie de passe forte e a meia altura. Foi o hat-trick dele e o quinto em seis pontapés à baliza que deram em golo. Uma eficácia que fez um 0-5 e serviu como a ponta do icebergue que explica muita coisa.

A primeira é a diferença de ritmo entre duas equipas, de dois campeonatos distintos, que jogam de acordo com essas duas realidades de onde vêm; a segunda é a de que uma tem melhores jogadores do que a outra; a terceira é que, mesmo sabendo, porque só podia saber, que o forte do Liverpool estava na contra-pressão e nos momentos de bola recuperada, o FC Porto não se conseguiu precaver (os dois médios estiveram, quase sempre, em linha e as coberturas ofensivas estavam, muitas vezes, muito longe); a quarta coisa, se quisermos, é que o jogo só poderia correr bastante mal aos dragões quando vemos que James Milner, talvez o jogador mais banal do Liverpool, foi um dos melhores em campo pelo o que correu, o que pressionou e pela rotação que teve.

O FC Porto, simplesmente, não teve andamento para competir com os ingleses.

A equipa está a 90 cerimoniosos minutos de sair da Liga dos Campeões e a única boa notícia da noite foram os aplausos que ouviu, finda a habitual roda entre treinador e jogadores, no relvado. Com este plantel, estes jogadores, o desinvestimento que houve e Sérgio Conceição, que tem espremido o sumo até à última gota, o rendimento que o FC Porto não teve contra o Liverpool é o mesmo que lhe chega para liderar o campeonato português, onde não há uma equipa que faça, sequer parecido, ao que os ingleses melhor fazem.

E a única boa notícia é mesmo essa - ser engolido pela pressão e contrapressão de um adversário só poderia acontecer mesmo acontecer por aqui, nesta prova.