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A vida sem o super-Neymar

O super-jogador que vive driblando e a repercutir-se em artifícios no jogo, longe da área e para os highlights, apesar de ser dos melhores de sempre a atacar uma baliza com a bola controlada, não vai jogar contra o Real Madrid, esta terça-feira. Sem ele, a escalada do Paris Saint-Germain com os petrodólares do Qatar poderá voltar a escorregar com uma participação da Liga dos Campeões em que terá amealhado dinheiro equivalente a pouco mais de metade do salário bruto que paga, por ano, a Neymar

Diogo Pombo

Neymar, que sofreu uma entorse e fraturou o quinto metatarso do pé direito frente ao Marselha, é o grande ausente da 2ª mão dos oitavos-de-final da Liga dos Campeões.

RODRIGO JIMENEZ/ epa

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Perfila-se quase sempre da mesma forma. Aguarda à esquerda, perto da fronteira com a linha, julgar-se-ia mais acompanhado do que sozinho por ser quem é, mas nem por isso. É uma distorção do arquétipo de super-herói, a quem um filme constrói um momento em que parece vulnerável e derrotado, para se refazer como invencível e vitorioso. A Neymar parece o contrário: a bola vem e ele recebe-a, ou apercebe-se que a pode acolher, sem gente a encostar-se, ninguém a empurrá-lo, nenhuma perna ladra a espreitar entre as suas.

Assim o é em França, onde muitos e talvez a maioria dos adversários lhe dá o metro e o segundo que julgam significar prudência. Pensam em ter cautela porque já têm o brasileiro como imparável e ludibrioso, preferem mantê-lo à distância do que aproximarem-se com a presunção de se poderem antecipar e ser mais rápidos do que ele.

Não, isso é-lhes fatal. E por isso é que Neymar é o super-herói que domina o espaço e o tempo em França, onde existe como o jogador que mais bolas remata à baliza (média de 4,5 por jogo), quem mais vezes a cola aos pés para, em corrida, se descolar de adversários (7,3) com fintas, contrariando a ideia de que, no futebol, não há forma mais fácil do que uma tabela para tirar alguém de uma jogada.

Neymar é os 19 golos, as 13 assistências e as cinco faltas que, em média, sofre por jogo em Paris ou em qualquer outro campo em França. Porque ele, mesmo tendo o espaço e o tempo que o respeito - ou receio - ao seu talento como futebolista driblador lhe dão, tem uma personalidade jocosa e provocadora, que insiste na finta, pedalada, simulação e cueca quando já ultrapassou, marcou e foi melhor do que quem joga contra ele. E os adversários castigam-no com pancadas e faltas para as quais não se é preciso ser talentoso.

No verão, o Paris Saint-Germain contratou o brasileiro de inegável perícia, que é o melhor jogador (de longe) a jogar em França, por €222 milhões pagos ao Barcelona e uns alegados €46 milhões brutos usados, anualmente, para o salário do jogador. Comprou-o para prosseguir na sina auto-imposta de tornar o PSG na capital do futebol europeu, na missão de ir buscar aos petrodólares do Qatar o que a história do clube, sozinha, não lhe dá - nome, prestígio, interesse, adoração e futebolistas de classe mundial.

Neymar deveria ser o pontapé rompante que, por fim, arromba a porta de acesso ao cume onde estão equipas como o Real Madrid, o Barcelona, o Bayern de Munique ou Manchester United. Mas os tiques e manifestações de e da estrela, com o seu alegado feitio egocêntrico, acariciado pelo dono de clube dando-lhe palavra em matéria de treinos, contratações, política desportiva e quem bate o quê em campo, deu outras coisas ao PSG - rumores de craques uns contra os outros, polémicas de grupinhos que não se falam, birras em campo e assobios dos adeptos.

Manuel Queimadelos Alonso

Enquanto Neymar, despreocupado ou não perante tudo isto, foi driblando e marcando e provocando no campo e, com ele, o PSG ganhando, a equipa acomodou-se ao que nenhum multimilionário sozinho mudará em França: a pouca competitividade do campeonato.

E chegou a uns oitavos-de-final da Liga dos Campeões com o Real Madrid, tempo, espaço e local para os quais Neymar foi contratado, a perder por 3-1 na primeira mão. O problema, um de muitos, é que ficou sem o brasileiro para o segundo jogo no momento em que o pé direito mal assente na relva lhe abriu uma fissura no quinto osso metatarso. Infiltrada com injeções, a lesão seria suportável para Neymar jogar a segunda mão, embora arriscada em como poderia agravar a mazela.

Pesando na balança um mazelado confronto com o Real Madrid e a presença, com o corpo são, no Mundial, o jogador preferiu a copa que todos os brasileiros privilegiam, supostamente traindo as esperanças que Nasser Al-Khelaïfi, dono todo-poderoso do clube parisiense, tinha para o seu super-herói - que é mais super-estrela do que qualquer outra coisa.

Não é só os tiques de quem finta e desfinta em sítios do campo sem consequência, longe da área e para deleite de highlights dos melhores melhores, quando se é Neymar: um dos futebolistas mais capazes (e imprevisíveis) de sempre a ir com a bola controlada rumo à baliza. Ele também é feito das festas que organiza em Paris, das noites de poker caseiras com convidados de luxo que, em tempos, até terão levado Javier Mascherano a dizer-lhe, em Barcelona, que “se fazes isto todos os dias, a tua carreira ficará mais curta”.

Neymar é o craque brasileiro, potencial imenso, drible como língua-mãe, que supostamente evitar passar bolas e canalizar jogo para Kylian Mbappé em jogos e treinos. Temerá o protagonismo que o miúdo francês pode alcançar no PSG e no imaginário de quem vê futebol. Dois órfãos de Bolas de Ouro cuja distinção poderíamos resumir numa simples linha: um comporta-se como se já tivesse conquistado várias, o outro existe na certeza de que ganhará pelo menos uma, assim que o bullying de Messi e Ronaldo terminar.

E só um deles pode tentar evitar que o Paris Saint-Germain e o milionário projeto dos seus donos em trepar até ao cume do futebol falhe, outra vez, onde mais deve ter sucesso.

Mais além do insucesso desportivo que representará a eliminação nos oitavos-de-final da Liga dos Campeões, os €26 milhões que o clube terá amealhado até aqui (somados dos €12,5 pela fase de grupos, os €7,5 pelas vitórias e os €6 pelos “oitavos”) com a prestação na prova (ou €27,5, caso vença o Real, mas seja eliminado na mesma) apenas representarão pouco mais de metade do que Neymar cobra, em bruto, num ano.

Um super-salário para um super-jogador que é uma super-estrela. Talvez o PSG consiga ser super sem este super-Neymar.