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Ob-La-Di, Ob-La-Da, a vida continua

Em Liverpool, na cidade dos Beatles, o FC Porto entrou em campo já a pensar no campeonato. Afinal, a vitória dos ingleses no Dragão por 5-0 já tinha praticamente decidido estes oitavos-de-final. Ingleses que, por sua vez, já deviam estar a pensar no jogo com o Man. United no sábado. E com duas equipas já com a cabeça fora dali, não é estranho que o jogo tenha acabado 0-0

Lídia Paralta Gomes

Peter Byrne - PA Images/Getty

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La-la-la, a vida continua - e para o FC Porto agora só dentro de portas.

Viu-se logo pelo onze que apresentou em Anfield que Sérgio Conceição não estava propriamente com vontade de, bem, discutir a eliminatória. Tanto quanto se pode discutir um 5-0 de desvantagem, que é muito pouco.

Mas neste caso, Sérgio claramente abdicou por coisas mais importantes. A saber: Taça de Portugal e campeonato, aqueles cinco pontos de vantagem para o Benfica, um para cada elemento da banda mais famosa a sair da cidade de Liverpool - e ora aqui está uma forma altamente forçada de relacionar esta crónica, o título desta crónica e os Beatles.

Voltando ao onze do FC Porto. Com Marcano e Herrera a descansar na bancada, Sérgio Conceição mudou muita coisa do meio-campo para a frente. Entrou André André, Óliver e, em estreia absoluta na primeira equipa dos dragões, Bruno Costa, miúdo da equipa B. Na frente, Waris ao lado de Aboubakar. Lá atrás, gente já habituada às exigências da titularidade, incluindo Diogo Dalot, firme no lado esquerdo da defesa. Mas feitas as contas, Sérgio Conceição já tinha cantado “Ob-La-Di, Ob-La-Da, life goes on” bem antes do apito inicial.

Embora o Liverpool subisse a campo com praticamente todos os titulares, apesar de praticamente apurado para os ‘quartos’, não se esperaria do primeiro ao último minuto um jogo de ritmo elevadíssimo. E tal aconteceu. O FC Porto com a cabeça já no Paços de Ferreira, o Liverpool com o pensamento no jogo de sábado em Old Trafford, casa do Manchester United.

E num jogo com produção ofensiva muito baixa, o 0-0, o mais feio dos resultados do futebol, aceita-se, pois claro, o que é que se há-de fazer. Porque a vida continua.

O FC Porto, normalmente uma equipa de vertigem, abriu o jogo a jogar na paciência, a tentar construir desde trás, esperando espaços onde eles raramente apareceram. Até porque o Liverpool jogou no mesmo espírito, muita bola no pé, tentativas de avançar pouco a pouco, mas muito pouca criatividade.

Peter Byrne - PA Images/Getty

Foi como se as estratégias embatessem uma na outra pelo que não houve exatamente fartura de lances perto das balizas. E quando existiram, foram quase sempre do lado da baliza de Casillas. Aos 18 minutos, Joe Gomez cruzou, os centrais do FC Porto perderam-se pelo caminho e Mané quase conseguiu a emenda em jeito acrobático. Saiu por cima. O mesmo Mané que à passagem da meia-hora enviou a bola ao poste, depois de Dalot falhar a intercepção, naquele que terá sido um dos únicos erros do jovem lateral.

Na 2.ª parte o jogo flutuou mais. Começou melhor o Liverpool, que logo aos 48 minutos podia ter marcado, caso Lallana tivesse respondido melhor a um cruzamento atrasado vindo da esquerda.

Depois o FC Porto subiu um pouco o nível, principalmente após a entrada de Sérgio Oliveira e Ricardo. Aos 52’, Waris teve nos pés aquela que seria então a primeira oportunidade para os dragões. O ganês, em posição frontal, rematou forte para defesa apertada de Karius.

Ainda antes do final, mais dois lances em que o FC Porto poderia ter marcado. Primeiro aos 79’, por Corona, que brincou com Milner até o deixar no chão para depois rematar ao lado, e aos 84’ Óliver quase que mascarava uma exibição, digamos, pouco condizível com o nível que se pede na Champions, mas o seu remate, que se seguiu a uma confusão na área criada após um livre de Sérgio Oliveira, embateu nas pernas de Lovren.

Para os últimos minutos estava reservado um dos mais espectaculares momentos do jogo, cortesia de um guarda-redes, curiosamente. Uma daquelas grandes defesas de Casillas, que pareceu planar no ar para dar uma sapatada num cabeceamento em arco de Danny Ings.

Um momento emotivo num jogo quase sempre amorfo e anódino e que teve talvez como momento mais bonito a dedicação dos adeptos do FC Porto. Num dos estádios mais marcantes e míticos do planeta do futebol, depois do “You’ll Never Walk Alone”, só se ouviram os adeptos portugueses. Durante literalmente todo o jogo.

Prémio para os jogadores de Sérgio Conceição, que mesmo já com a cabeça em objetivos mais palpáveis acabaram por apagar um pouco a imagem deixada na 1.ª mão, aquela terrível derrota por 5-0 em casa que definiu desde logo a eliminatória.