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Liga dos Campeões

Roubaram a vida a Buffon

Ele correu como um louco, desvairado e gritante, quando viu a esperança. E acabou de novo a correr enlouquecido, mas pela vida que sentiu ser-lhe retirada por um penálti. Aos 40 anos, vimos Gianluigi Buffon a despedir-se na única competição que lhe ficará a faltar, comportando-se como nunca

Diogo Pombo

Sonia Canada

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Os olhos do bom e eterno gigante estão esbugalhados. Tem a cara cheia de euforia e espanto, uma mistura estranha, que o faz correr de braços hirtos e punhos cerrados. Não corre desalmadamente, que advérbio parvo, porque é a alma que não vemos, mas sentimos, dentro deste corpo gasto, cansado e rugoso que o faz mexer assim.

Há um homem vivido e grisalho, com 40 anos, a comportar-se que nem um adolescente louco e verde na vida, perto de uma das balizas do Santiago Bernabéu.

É um tipo tão omnipresente e há tanto tempo, que nos confunde. Obriga a pesquisar por “Gianluigi Buffon” e “Juventus” por tão difícil ser distinguir a lenda do clube, o guarda-redes da equipa, de saber quando existiu um sem o outro. Este é o 870ª encontro dele, sim, a octingentésima septuagésima vez que joga um jogo de futebol; tão grande é Buffon que até a forma de escrever o ordinal do mais redondo número da sua carreira é preciso pesquisar.

Ele já viveu tudo, mas corre, gesticulando e berrando, descontrolando-se e abanando os velhos ossos. Maluco com o terceiro golo que a equipa dele acabou de marcar, em 60 minutos, os mesmos que o Real Madrid lhes fizera em hora e meia.

Reage assim pela mesma razão que o levou a ainda estar ali: Buffon é o quarentão cujos olhos se encheram, uma última vez, de vida, porque nesta vida apenas lhe falta a Liga dos Campeões. E, neste momento, com muitas reformas adiadas e limites prolongados num corpo que se machuca defender bolas, ele está a meia hora continuar a viver.

Loris Roselli

Vamos vendo Gianluigi a lutar. Ele soca os punhos de quem corta e afugenta cada bola da área. Fá-lo com um especial e brusco carinho com Chiellini, central calvo e de dentes cerrados, único dos três defesas italianos que, nos últimos anos, o protegeram em todas as batalhas. Eles festejam qualquer jogada que comece nos jogadores do Real Madrid e não acabe dentro da baliza.

Cada uma dessas jogadas é menos uma preocupação por quanto tempo ainda falta. Menos um esforço que é preciso fazer para a Juventus aguentar até ao prolongamento. Até a vida de Buffon se esticar mais um pouco, só um bocadinho, como se isso fosse necessário para o italiano confirmar o que já é, há muito.

Gianluigi Buffon é de outra era, de um tempo que nem é o seu, em que ele nasceu, mas anterior. Quando o futebol se resumia a tipos simples e genuínos, sem artifícios, a gravitarem em torno de uma bola. A elogiarem adversários e a serem cúmplices e respeitosos para com eles; a consolarem quem perde antes de se congratularem por ganharem; a falarem sobre o jogo com risos e sorrisos, sem se esconderem em respostas feitas; a vestirem-se à civil, sem laivos extravagantes e tatuagens a fazerem questão de serem visíveis.

Esta podia ser, e é, a descrição do que é Buffon e a enumeração das razões para que tanta gente que segue futebol o ter como um senhor.

E de muitos torcerem não para que a Juventus lute e batalhe e consiga a reviravolta, mas sim para que a Juventus ganhe porque é a equipa de Buffon. Não é a mesma coisa. Tal como o Real Madrid não reage às adversidade da mesma forma que os outros clubes. Ainda por cima destas, na Liga dos Campeões. Não, aqui é onde o coração do clube mais bombeia sangue, cheio de glóbulos brancos tão anti-tudo-o-que-possa-ser-mau que lhe é genético atacar assim, desenfreadamente, por todos os lados, a baliza.

Buffon tem de agarrar muita bola. Atirar-se à relva e tombar sobre ela, os velhos ossos a chocalharem, com uma estirada para a desviar quando Isco, à distância, ousa obrigá-lo à parada da noite. Ganhar é tão sinónimo de Real que enraizado está em cada jogador ser inconcebível perder.

VI-Images

Eles revoltam-se contra isso, vivem para isso, é essa existência que, aos 97 minutos de um jogo, rouba a vida que resta em Gianluigi Buffon.

O ser ou não ser penálti não o era para o italiano. Ele agarra na bola uma última vez e corre, urgido pela mesma alma, em direção ao árbitro. Vemo-lo de novo a berrar e a gesticular e a mexer-se com cara de um louco embora, agora, já tenha os 40 anos e sinta a vertigem do fim, não a euforia da esperança.

Vemos o Sr. Senhor a perder a cabeça e a boca dele a disparar coisas que tiram uma expulsão da mão do árbitro. Quando os abdominais de Cristiano luzem, destapados e quadriculados, já vimos o corpo gasto de Buffon a recolher-se para o túnel de acesso aos balneários. É o fim do italiano.

Ele vai abanando a cabeça para o lado, esquerda, direita, esquerda, e falando para si próprio com o olhar preso ao chão. É o último vislumbre que temos de Buffon, que podia chorar as mesmas lágrimas que chorou na não qualificação da Itália para o Mundial.

Prefere dizer as palavras com que põe um caixote de lixo no lugar onde devia estar o coração do árbitro. Di-las irritado e exaltado. Gianluigi Buffon está revoltado com a forma como lhe roubaram a vida que fez por adiar até aos 40 anos. Perdeu a cabeça que sempre, mas sempre, teve como ganha.

A Liga dos Campeões não foi boa para o bom e eterno gigante.