Tribuna Expresso

Perfil

Liga dos Campeões

Se calhar já era hora de se começar a construir a Grande Esfinge de Salah (mas atenção que isto ainda não acabou)

O avançado egípcio marcou dois golos, ofereceu mais um par deles e liderou a sessão de terraplanagem com que o Liverpool ia brindando a Roma na 1.ª mão das meias-finais da Liga dos Campeões. E foi já com ele no banco que os italianos tornaram um 5-0 num 5-2, resultado que ainda deixa aquela porta de esperança aberta, não fosse a Roma a equipa que perdeu em Camp Nou por 4-1 para depois bater o Barcelona em casa por 3-0. Quem gosta de futebol agradece, mas Salah talvez não merecesse o sofrimento

Lídia Paralta Gomes

Clive Brunskill/Getty

Partilhar

Segundos antes do egípcio olhar para Manolas, perceber que o grego não o ia pressionar, puxar para o meio e colocar a bola mesmo ao ângulo da baliza de Alisson Becker, eu tinha pensado o seguinte: “O Salah está meio apagado”.

Poderei avançar com segurança que as capacidades de adivinhação não fazem parte do meu portfólio. Porque a partir desse minuto 36, o Liverpool partiu para uma terraplanagem que às tantas chegou aos 5-0 e Salah para uma exibição em que marcou dois, ofereceu outros dois e nos deixou mais uma vez com aquela sensação boa, reconfortante e entusiasmante de perceber que, no corpo daquele egípcio de 1,75m, é bem capaz de estar algo muito especial.

E é tão especial que o mini-meltdown do Liverpool, que deixou transformar em poucos minutos um definitivo 5-0 num desconfiável 5-2, começa precisamente quando Jurgen Klopp resolve tirar Salah, aos 75 minutos, altura em que Eusebio Di Francesco também já havia abandonado a defesa a três que tornou o meio-campo defensivo da Roma numa espécie de parque de diversões para os trio atacante dos reds. Num ápice, a equipa italiana marcou dois golos, aos 81’ e aos 85’ e relançou a meia-final - um 5-2 parece resultado difícil de virar, mas também parecia o 4-1 com que o Barcelona chegou ao Olímpico de Roma nos quartos de final.

É complicado rabujar contra um jogo que teve sete golos e em que uma das equipas esteve morta e enterrada e conseguiu, como que numa Páscoa atrasada, ressuscitar. Mas também fica difícil não ter compaixão por Mohamed Salah neste momento, porque Mohamed Salah, Mo Salah para os britânicos, não merece esta crónica dificuldade do Liverpool em segurar um resultado, muito culpa daquela vertigem tresloucada que é imagem de marca de Jurgen Klopp. Que é uma delícia de se ver, note-se, mas que parece andar sempre a caminhar numa fina linha entre a maravilha e o abismo.

Tendo o Liverpool uma defesa mais sólida e aquele pragmatismo das equipas que sabem controlar um jogo e colocar gelo na hora certa, talvez estivesse aqui a descrever como Salah, a magia de Salah, daquele miúdo de 25 anos que há-de ser neste momento o herói máximo de um país com quase 100 milhões de habitantes, havia colocado já o Liverpool em nova final da Liga dos Campeões.

A Roma marcou dois golos nos últimos minutos do jogo

A Roma marcou dois golos nos últimos minutos do jogo

Peter Byrne - PA Images/Getty

Não tendo, resta-me falar de tudo o que ele fez bem. De como depois do primeiro golo, um golo que já se adivinhava tal a avalanche de ataque e oportunidades falhadas que o Liverpool teve a partir da meia-hora de jogo, Salah fez outro ainda mais bonito antes do intervalo. Isolado por Firmino, quando o egípcio viu Alisson a sair aos seus pés deu aquele toque de classe na altura certa, para a bola sobrevoar o brasileiro e ir com pézinhos de lã aninhar-se nas redes da baliza da Roma.

Ou de como já na 2.ª parte ganhou duas vezes as costas a Kolarov, duas vezes tirou Jesus do caminho e em jogadas semelhantes cruzou, na primeira para Mané e na segunda para Firmino, com ambos a cumprirem com rigor as indicações do novo craque do futebol mundial: entregar a bola à baliza.

Firmino marcaria novamente, de cabeça, desta vez sem Salah na jogada (estranho), até que o egípcio saiu e Dzeko e Perotti reduziram para 5-2, tirando um pouco de brilho a uma vitória que, enquanto Salah esteve em campo, parecia do campo do épico e com tendência a avolumar.

A meia-final não está fechada e será no Olímpico de Roma que as contas finais se irão fazer. Mas, apesar de tudo, permitam-me dizer que se calhar já era hora de se começar a construir a Grande Esfinge de Salah.