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Liga dos Campeões

Uma coisa muito, mas muito Real Madrid

Os alemães tentaram, insistiram e remataram, mas os espanhóis foram a Munique ganhar 1-2 ao Bayern, mesmo que os alemães tenham tentado, forçado e rematado. O Real Madrid está em vantagem para chegar à decisão do que pode ser a sua terceira Liga dos Campeões seguida. Mesmo não sendo espetaculares ou majestosos, os espanhóis fizeram o que era preciso. O que também é típico deles (mesmo sem o habitual golo de Ronaldo)

Diogo Pombo

ODD ANDERSEN

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Quando estas duas equipas se encontram na competição que toda a gente, nós e eles, quer jogar, é normal que tomemos certas coisas como garantidas. Parafraseando, há um contexto entre o Bayern de Munique e o Real Madrid que me obrigaria a teclar durante parágrafos, e vocês a prolongarem a leitura, que faz desta meia-final da Liga dos Campeões uma ocasião especial, mítica, quase nostálgica, a transbordar de significado.

É um contexto que nos faz ansiar por antecipação, porque explicá-lo é pensar numa cobra que morde a própria cauda, tantas que são as ligações: houve quatro jogos nos últimos quatro anos, em que se marcaram 14 golos e onde estiveram quase todos os jogadores que estão aqui; hoje, quando o Real joga para ganhar a terceira edição seguida da prova, e igualar uma proeza que ainda pertence ao Bayern, versão 1976; e agora, em que alemães e espanhóis se defrontam pela vigésima sexta vez.

Tudo está ligado e interligado entre as equipas que mais jogos partilharam na história desta competição. Até há um treinador, Jupp Heynckes, que a conquistou de um lado e do outro e numa das vezes ganhou ao homónimo, Zinedine Zidane, quando o careca genial ainda jogador era. Há também um futebolista, James Rodríguez, que tem contrato com o Real e está no primeiro ano de empréstimo ao Bayern, mas joga porque, simplesmente, não vem mal ao mundo com isso.

É ele que toca na bola e a usa com pés de veludo e simplicidade, passando-a e recebendo-a de volta como modo de vida. Como o faz para encontrar Kimmich a correr campo fora, com metros de espaço, até rematar de onde Keylor Navas espera que ele cruze, e marcar (28’). Aí, o jogo começou a entregar-nos essas coisas que esperávamos ver, para lá da lesão que leva Robben, o homem de cristal, aos cinco minutos e com ele o que já se julgava ser um mito.

Vê-se o Bayern intricado no jogo de posse e passe dos muitos médios que tem em campo, obrigados a essa coexistência por não haver Coman, Vidal e Alaba quando ficam sem o holandês. Por isso abusem de um francês, o único extremo que têm e em quem confiam as conduções de bola na área. Frank Ribéry finta, pausa, desequilibra e tira corpos da frente para rematar quando parece estar tapado (59’), mas também atrapalhar-se no momento (34’) em que é suposto decidir.

Ele, Lewandowski e Hummels, ao pontapé e à cabeçada, os dois matulões em bolas cruzadas para a área, martelam a baliza que o Real protege com buracos até, mais ou menos à hora de jogo. Porque houve a crónica molenguice de Marcelo a reagir às perdas de bola, a rara paragem cerebral de Casemiro para não compensar os centrais, ou a presunção madridista de que pressionar alto e rápido é solução para aprisionar qualquer adversário.

Uma coisa muito Real Madrid. Tal como é ver os seus jogadores, a partir de certa altura, alinharem agulhas, todos se tornarem nos desportistas mais concentrados do planeta e as tais coisas que temos como garantidas a acontecerem.

A. Beier

Mesmo que eles não estejam num estado em que raramente errem e que joguem quase no máximo das suas potencialidades, o que até costuma suceder, pois o que está em causa é a Liga dos Campeões.

É daí que vem o pontapé forte, colocado, repentino e colocado sem tempo de preparação de Marcelo, à entrada da área, quando lá pinga uma bola que os alemães não atacam. Do mesmo espírito e mentalidade de um clube que tem esta prova a ser-lhe bombeada no sangue de onde forçam o erro de Rafinha, após um canto do Bayern, para disparar um contra-ataque inventado por Lucas Vázquez e Marco Asensio e terminado com eficácia gélida (57’) pelo segundo.

Dois tipos que cresceram no clube e sabem que assim têm de ser nestas alturas, nestes jogos, nos eventos em que Ronaldo, mesmo levando um 2-1 para Madrid, acaba o jogo enfurecido por tentar, forçar e não conseguir (tem um golo anulado) prolongar a tentativa de marcar em todas as partidas de uma edição da Liga dos Campeões. Mesmo assim, Cristiano vai com 15 golos.

É por essa mística imperativa no Real, uma obrigação latente em apresentar a melhor versão da equipa, mesmo quando os jogadores não mostram o melhor, individualmente, que eles se aguentam perante as tentativas dos cansados Lewandowski, Ribéry e Muller.

Que se vêem estrelas, craques e prima-donas que se passeiam no seu campeonato mas aqui correm com os pulmões de fora, uns pelos outros. Que mesmo não sendo visivelmente melhores no jogo jogado, ou estáveis e dominadores e imaculados, ganham.

Porque isto é a Liga dos Campeões. E, mesmo sem ser brilhante, espetacular, superior de caras ou majestoso contra um Bayern de Munique que faz três substituições devido a três jogadores lesionados, os espanhóis vivem da vida que consigam ter na competição que namora desde a sua criação. Ganhar assim, desta forma, é uma coisa muito Real Madrid.