Tribuna Expresso

Perfil

Liga dos Campeões

Ulreich não é Neuer, Ronaldo não foi Ronaldo, mas Real Madrid de Champions continua a ser o Real Madrid

Os merengues foram mais alemães que o Bayern Munique e foi no erro do adversário que conseguiram o impressionante feito de chegar em três anos seguidos à final da Liga dos Campeões. Esta terça-feira, no Santiago Bernabéu, houve jogo até ao fim e os bávaros tentaram até à última desfazer o 2-2 que lhes era fatal. Mas o estrago já tinha sido feito, quer na 1.ª como na 2.ª mão

Lídia Paralta Gomes

GABRIEL BOUYS/Getty

Partilhar

Isto já começa a ser como a morte e os impostos, não é? Essa inevitabilidade que é ver o Real Madrid na final da Champions, jogando melhor ou pior, mais subjugado ou menos, mais ou menos pragmático.

O Real Madrid que vai para a sua terceira final seguida da Liga dos Campeões, este que ultrapassou o Bayern depois de empatar a 2.ª mão das meias-finais por 2-2, foi, essencialmente, um Real Madrid frio e eficaz, que soube aproveitar com requintes de malvadez qualquer erro dos alemães, sendo por isso mais alemão que os próprios alemães. Eles que às tantas pareciam latinos de nascimento: se olharmos para os dois jogos, o Bayern foi a equipa que mais tentou, que mais rematou, que mais bola teve, mas faltou cabeça fria, faltou eficácia, faltou aquela dureza mental que o Real, quando chega a estes momentos, parece ter para dar e vender.

Uns nervos de ferro que o Bayern nunca parece ter tido ao longo da eliminatória - e foi isso que de definiu a eliminatória. Não os teve na 1.ª mão, quando Rafinha deixou a bola à mercê de Asensio para o espanhol fazer o 2-1 com que o Real ficou em vantagem, e não os teve logo no arranque da 2.ª parte, quando havia 1-1 no marcador - marcou primeiro o Bayern aos 3 minutos, por Kimmich, com Benzema a empatar aos 11’, após um cruzamento perfeito de Marcelo.

Foi então logo no arranque do 2.º tempo que Tolisso resolveu atrasar uma bola para Ulreich, mesmo que o guardião alemão tivesse Benzema à perna. Ulreich, num momento de total desconcentração, fez o movimento para recolher a bola, mas percebendo no último minuto que isso seria uma infração, tentou chutá-la. Já foi tarde. Quando olhou, já ela estava nos pés de Benzema, que colocou o Real Madrid a ganhar. Ulreich é um guarda-redes simpático e azares acontecem a muito boa gente, mas por esta altura deve haver mais suspiros por Manuel Neuer em Munique do que centilitros de cerveja consumidos na Oktoberfest.

Porque estes são erros que se pagam caro, muito caro. É certo que o empate de James, aos 63’, fez com que a emoção durasse até ao fim, mas para a história fica que sem estes dois erros crassos, sem estas duas faltas de concentração do tamanho das bancadas do Santiago Bernabéu, o Bayern estaria seguramente na final da Champions.

Erro de Ulreich foi decisivo para o desenrolar da eliminatória

Erro de Ulreich foi decisivo para o desenrolar da eliminatória

David Ramos/Getty

Perder com o Real Madrid já nem sequer é exatamente uma surpresa para o Bayern, que no último ano também conseguiu empatar a eliminatória nos quartos de final para depois cair no prolongamento. Agora, à segunda, talvez seja hora da direção dos bávaros se questionar se a política de ir buscar os melhores jogadores aos rivais é assim tão boa: é muito porreiro ganhar a Bundesliga por 20 pontos, mas a falta de concorrência interna depois paga-se nestes momentos, estes momentos em que o Real parece uma equipa de homens de barba rija e o Bayern um aglomerado de miúdos, a tentar de todas as maneiras e sofreguidão chegar à baliza adversária.

Ainda assim, o Real arriscou-se e bem a falhar a terceira final consecutiva, ao jogar no erro e na expectativa. Desta vez não houve Ronaldo, que teve umas meias-finais muito, mas muito abaixo do que estamos habituados, com falhanços até algo cómicos, mas do outro lado também não houve Lewandowski, ele que, diz-se, quer tanto ir para os merengues sem nunca conseguir fazer bons jogos contra eles. Mau princípio.

Houve sim, também, muito Keylor Navas, o guarda-redes que não é elegante nem carismático e que todos os anos está com um pé e meio fora do Santiago Bernabéu, mas que aqui e ali vai salvando o Real Madrid, como aconteceu esta noite. Nos minutos finais de pressing desenfreado dos alemães, Navas lá foi limpando tudo pelo ar, tirando ainda um golo feito a Tolisso aos 74’ e aos 79’ a Muller.

Navas foi assim uma espécie de garante de uma lei que qualquer dia é oficial. Mesmo numa temporada menos boa, para não dizer fraquinha, como está a ser esta para o Real Madrid, na Champions a história é outra. Não foi bonito, talvez nem merecessem assim tanto, mas os merengues suam Liga dos Campeões por todos os poros, haja o que houver. E isso tem o seu mérito.