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Liga dos Campeões

O Liverpool perdeu um jogo, a final da Liga dos Campeões ganhará um espetáculo vindo do caos

A Roma ficou a um golo de, pelo menos, empatar uma eliminatória que acabou por ter uns incríveis 13 golos, soma de um 7-6 que colocou o Liverpool na 13ª decisão europeia da sua história. Além de ter o Real Madrid pelo terceiro ano seguido, a final da Liga dos Campeões também terá a equipa mais goleadora, espetacular e vertiginosa da competição

Diogo Pombo

Tullio Puglia - UEFA

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Fora o tipo, de seu nome Francesco Totti, que estando em Roma e sendo romano nele reúne o maior significado que é possível alguém ter, nesta cidade, não podia haver mais significado contido no Olímpico. Porque, a esta altura deste campeonato tão especial que é a Liga dos Campeões, as versões distante e recente da história que havia entre a Roma e o Liverpool, e dentro de cada uma das equipas, não podia ser maior. E passo a explicar porquê.

Sem contar com a única figura que, enquanto viver, será igual ou maior que o único clube de futebol pelo qual jogou, este jogo, neste sítio, nesta competição, era a reedição da primeira final da Champions que foi decidida em penáltis, em 1984. A famosa final em que Bruce Grobbelaar, guarda-redes do Liverpool, balanceou os braços e as pernas para distrair Graziani a falhar um pontapé, o mesmo gesto de esparguete que Dudek replicou, em 2005, para o clube ganhar outra final no jogo dos 11 metros.

Feito o 5-1 em Liverpool, os ingleses com o melhor ataque da competição visitavam os italianos que não tinham golos sofridos em casa, um contraste que apenas os opôs durante nove minutos. Foi o tempo que demorou até um passe lento, frouxo e sem cautela sair do pé de Nainggolan para o de Roberto Firmino, à entrada do meio campo da Roma, de onde o brasileiro arrancou, levou a bola o tempo suficiente para fixar um adversário e soltar Mané na área.

O primeira vez que os italianos tiraram uma bola da própria baliza fê-los, nesse momento, terem de chutar e ir buscar quatro à dos ingleses. Esses necessários golos passaram a ser três, quando Lovren fez um corte contra a cara de James Milner, dentro da área (15’), para um auto-inadvertido-e-caricato-golo, mas voltaram a ser quatro assim que Dzeko cabeceou para trás a segunda bola de um canto e deixou Wijnaldum fazer o 1-2 - e marcar o seu primeiro golo fora de casa pelo Liverpool, em dois anos.

Portanto, em menos de 120 minutos de futebol, os italianos sofriam sete golos de uma equipa que, ali, ainda nem tinha dado grande uso ao vertiginoso Mohamed Salah, único futebolista em campo que dera alegrias a todos os adeptos presentes no estádio. Incluindo Francesco Totti. Porque estavam a beneficiar, sobretudo, do crânio de Roberto Firmino a pensar em como podia arrastar adversários e explorar o espaço que tinha, em parte devido à forma como a Roma não subia muito a linha defensiva, para acautelar o perigo do egípcio.

Ter de inventar forma de fazer quatro golos é outra maneira de dizer que se está forçado a tomar riscos no ataque - quando se tem a bola, quando se está a tentar abrir espaços perto da baliza dos outros. Coisas nada fáceis em que pensar quando se joga contra o Liverpool, equipa que mais obriga a valorizar cada posse de bola como se a vida dos nossos familiares estivesse presa a ela.

Se o futebol fosse uma questão de contas, de soma de oportunidades de golo que continuariam a aparecer se a anterior, de facto, tivesse sido aproveitada, a Roma, neste imaginário hipotético, teria fabricado um milagre ainda maior do que o conseguido frente ao Barcelona.

El Shaarawy rematou uma bola ao poste e outra à sola da chuteira de Alexander-Arnold, a dois metros da baliza; Ünder, o turco com cara de puto reguila, desviou um passe longo de De Rossi, quase na pequena área; o checo Schick deu tanto efeito a um remate de primeira, à beira da área, que a bola rasou o ângulo superior esquerdo da baliza; Dzeko lutou, dominou bolas, livrou-se de defesas centrais e obrigou Karius a ir à relva para uma das melhores paradas do jogo.

Houve jogadas, remates e gente com a ter a chance de marcar em doses suficientes para haver esperança.

Mas o bósnio Dzeko só marcou na recarga (52’) a uma defesa do guarda-redes e, depois de tudo o descrito em cima, só Nainggolan fez outro golo (94’), de penálti. Os italianos, alguns mesmo com postura de derrotados, lutaram e bateram-se contra o quase impossível. Os ingleses confiaram no estado moribundo do adversário, mesmo sabendo que eles próprios seriam o prato da casa se o futebol fosse um restaurante e lhe pedissem para servir o melhor exemplo atual de equipa que relaxa nos jogos e permeia uma defesa já de si permeável.

A vitória do Liverpool (5-2), há uma semana, ficou com uma certa sensação de derrota por, lá está, a equipa ter sofrido dois golos nos últimos 10 minutos. A derrota que sofreram neste jogo (4-2) ter-lhes-á sabido à melhor vitória de sempre, enquanto os adeptos da Roma festejam uma partida perdida como um jogo ganho.

Para trás fica uma meia-final com 13 golos e uma certeza para a final da Liga dos Campeões que se jogará a 26 de maio, em Kiev. Haverá espetáculo, só pode, porque se terá um Real Madrid pela terceira época consecutiva, e vai ter o Liverpool. Este Liverpool, que tem 29 dos 40 golos na prova vindos dos três da frente, chamados Mané, Firmino e Salah, fruto de um estilo de futebol espetacular por aceitar o caos que cria, à força, em cada jogo.

Ou, mais não seja, também por a última final europeia perdida pelo Real Madrid ter sido, por coincidência, contra o Liverpool (em 1981).