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Liga dos Campeões

A atacar é que a gente se entende

O Liverpool de Jürgen Klopp e o Real Madrid de Zinedine Zidane defrontam-se este sábado (19h45, RTP1), numa final da Liga dos Campeões que se espera que seja assim: tudo ao ataque e fé nos golos - e nos goleadores, nomeadamente Ronaldo e Salah

Mariana Cabral

O Real Madrid conquistou a Liga dos Campeões nas últimas duas épocas (2015/16 e 2016/17)

Angel Martinez/Getty

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São feios, brancos e maus. Chamam-lhes, em inglês, white walkers, que é como quem diz, em português, "caminhantes brancos". Atacam em grupo, de forma gélida e silenciosa, e, demore o tempo que demorar, levam tudo à frente, como icebergs. Há uma única maneira de travá-los: atacar com ainda mais ímpeto, rapidamente e em força, com uma arma especial que funciona como um vulcão em erupção sobre uma camada de gelo.

Se não os conhece, saiba que estes "caminhantes brancos" são os mauzões de uma das séries mais premiadas dos últimos anos, "Guerra dos Tronos" (baseada nos livros de George R. R. Martin), mas também podiam facilmente ser os jogadores da equipa mais infalível no ataque à Liga dos Campeões (já lá vão 12 troféus), que terão pela frente, no sábado, alguém que tem a arma perfeita para pará-los.

Será isto a final da Liga dos Campeões 2017/18, entre Real Madrid e Liverpool: um ataque gélido contra um ataque vulcânico (pode ler a antevisão tática mais pormenorizada AQUI). Em que o resultado mais provável é este:

goles, goals, golos.

Jürgen Klopp já esteve numa final da Liga dos Campeões, em 2012/13, com o Borussia de Dortmund, mas acabou por perder para o Bayern de Munique. Já Zinedine Zidane conquistou a taça, enquanto treinador, em 2015/16 e 2016/17, precisamente no Real Madrid

Jürgen Klopp já esteve numa final da Liga dos Campeões, em 2012/13, com o Borussia de Dortmund, mas acabou por perder para o Bayern de Munique. Já Zinedine Zidane conquistou a taça, enquanto treinador, em 2015/16 e 2016/17, precisamente no Real Madrid

Getty Images

Muitos deles, para ambos os lados. Ou não fossem estas as duas equipas na Champions que mais rematam à baliza - 89 tentativas para o Liverpool, 86 para o Real Madrid - e que, efetivamente, mais marcam - o Liverpool somou 40 golos em 12 jogos, o Real Madrid somou 30 golos em 12 jogos.

Atacar, atacar, atacar - mas não da mesma forma. Ao contrário do que acontece com os ingleses, que preferem a rapidez de processos, os espanhóis até gostam de ter a bola e acarinhá-la (pelo menos até a lançarem para a área). Depois do Manchester City, o Real Madrid foi a equipa que mais passes tentou e completou com sucesso na prova, até porque tem no meio-campo artistas como Modric e Kroos (e Isco e Asensio...). Sobre o segundo, o primeiro disse o seguinte, ao "El País": "Quem me dera ter a sua tranquilidade e a sua frieza no passe. Ele é incrível, porque, aconteça o que acontecer, nunca fica nervoso. Eu também costumo estar tranquilo, mas ele está sempre muito mais".

Frieza. Kroos tem-na, Modric tem-na e, segundo Zinedine Zidane, Cristiano Ronaldo também. "Nunca fica nervoso, nem sequer quando o criticam. Por isso é que é o melhor. Há jogadores que não aguentam a pressão e há outros que nem sequer a sentem", disse, antes da final.

Mais uma final para disputar? Sem stress. O Real Madrid venceu o Mundial de clubes, em dezembro de 2017, ao derrotar o Grémio, com um golo de Cristiano Ronaldo

Mais uma final para disputar? Sem stress. O Real Madrid venceu o Mundial de clubes, em dezembro de 2017, ao derrotar o Grémio, com um golo de Cristiano Ronaldo

GIUSEPPE CACACE/GETTY

É este "gelo" que torna o Real Madrid diferente dos outros, segundo Jürgen Klopp. "Eles têm sangue frio [vale a pena colocar aqui a frase original, em inglês: "they are cool as ice"]. Há uma oportunidade de golo contra eles e eles não se incomodam com isso. Não os afeta. Já os viram, nem que fosse uma vez, em pânico porque o adversário teve uma oportunidade de golo? Gelo", explicou o treinador do Liverpool ao "Mirror".

"Eles pensam: 'Os adversários têm oportunidades, acontece. Se nós temos uma oportunidade, nós marcamos'. Pep Guardiola disse uma vez: 'As grandes equipas tomam um café e depois, pumba, aí vão elas'. Portanto, se tens uma oportunidade que seja contra elas, é melhor aproveitares", acrescentou.

Klopp tem razão. Tal como acontece com o Liverpool, o Real Madrid não tem uma organização defensiva brilhante - já sofreu 15 golos nesta edição da Liga dos Campeões (o Liverpool sofreu 13) -, mas compensa com a tal frieza - e com os golos que marca, claro está.

Nas meias-finais, sofreu, a certa altura, um massacre ofensivo do Bayern de Munique, mas venceu na Alemanha por 2-1 e aguentou o empate em casa, por 2-2. E, nos quartos-de-final, a história foi semelhante: venceu de forma brilhante em Itália, por 3-0, mas depois, em casa, deixou a Juventus marcar três golos. O que vale é que Ronaldo salvou, de penálti, aos 90+7'.

"Às vezes são caóticos, às vezes são organizados. É futebol", disse Klopp na conferência de imprensa de antevisão da final, rejeitando críticas a alguma falta de conhecimento tático de Zidane. "Muitas pessoas acham isso de Zidane, mas também opinam o mesmo de mim. É muito engraçado ter na final da Liga dos Campeões dois treinadores que não percebem nada de tática”, gracejou.

A diferença está, isso sim, na experiência de ambas as equipas, admitiu Klopp, já que o Real Madrid nos últimos quatro anos esteve em três finais da Champions - e conquistou-as todas. "A experiência que eles têm é uma enorme vantagem. Mas ninguém esperava que chegássemos aqui e estamos aqui porque somos o Liverpool e o ADN do Liverpool é ganhar títulos”, acrescentou, recordando as cinco Champions conquistadas pelo clube.

getty

De facto, se há equipa que tem poderio ofensivo (e história e adeptos) suficiente para contrariar o Real Madrid, essa equipa é a que tem um trio ofensivo composto pelos seguintes goleadores: Mohamed Salah (10 golos na Champions), Roberto Firmino (10 golos) e Sadio Mané (nove golos).

Foram eles que, nos quartos-de-final, rebentaram com o Manchester City, primeiro por 3-1, depois por 2-1, com ataques rápidos cirúrgicos, como Klopp gosta - e como já tinha acontecido no Dragão, nos oitavos-de-final, onde os ingleses golearam por 5-0.

Mas, tal como acontece com o Real Madrid, o Liverpool não é propriamente exímio a defender: nas meias-finais, ia vencendo a Roma por 5-0 e depois sofreu dois golos, e, na 2ª mão, perdeu por 4-2. Ou seja, marca muitos, mas também sofre muitos.

E é preciso não esquecer que, do outro lado, quando os artistas conseguem meter a bola na área, há Ronaldo. E Ronaldo é o melhor marcador desta Champions, com 15 golos (um deles de bicicleta), e da história da Champions, com 120 golos. E, caso o Real Madrid vença, será o primeiro jogador a conquistar cinco vezes a Liga dos Campeões no formato atual. Pressão? Nenhuma. Frieza. E fé no ataque.