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Eles não eram conhecidos - e por isso é que isto podia ter corrido muito pior

O Braga empatou em casa com o Gent (1-1), num jogo em que foi pior do que o adversário. Aconteceu na primeira jornada da fase de grupos da Liga Europa

Diogo Pombo

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FRANCISCO LEONG

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É fácil, canja, facílimo, não custa nada, ou qualquer outra expressão e palavra que vai dar ao mesmo. Tirar conclusões precipitadas dá tão pouco trabalho que vou fazê-lo agora mesmo, como se fosse um adepto preguiçoso, formado e doutorado em bitaite, acabado de saber que o Braga vai jogar contra o Gent.

É mais ou menos isto:

Sei que é nome de clube belga, de uma equipa que joga num país onde toda a gente gosta de futebol, mas o futebol não quer grande coisa com quem joga. É uma nação pequena, com um campeonato assim-assim, onde chegar à Liga dos Campeões é uma sorte e resignar-se à Liga Europa é um prémio. O Gent, ainda por cima, não é campeão. E a última vez que foi detetado no sonar das nossas atenções aconteceu quando o FC Porto lhes comprou o matulão (Depoitre) que tem mais corpo placar no râguebi do que para marcar golos no futebol.

Mas tem que se lutar contra a preguiça.

Vou à internet e ela diz-me que, no Gent, moram nomes que já estiveram em Portugal, onde pouco saíam da casca e todos têm algo que ver com William Carvalho. Há Renato Neto, um brasileiro grande, forte e lento que uma vez Sá Pinto chamou de volta ao Sporting, a meio da época, de um empréstimo ao clube onde também estava o hoje médio dos leões, quando as lesões tiraram os trincos à equipa. Há Anderson Esiti, um tipo que se a clonagem de humanos já cá estivesse, teria sido uma réplica mal sucedida de William - uma que, há umas temporadas, disseram que podia interessar aos leões (estava no Leixões e acabou no Estoril).

Há um sérvio barbudo que joga a central, chamado Stefan Mitrovic, que o Benfica comprou por Jorge Jesus o querer, para depois querer livrar-se dele. E há Rabiu Ibrahim, nigeriano parco em altura que, outrora, o Sporting foi buscar por achar que era um craque para limar na academia.

O sumário de tudo é que o Braga, habituado a jogos europeus a meio da semana, ia jogar contra uns belgas desconhecidos e com uns quantos lá para o meio que, em Portugal, não deram em nada. Não há maneira de o bitaite da vitória certa falhar".

Mas quando desligo o modo adepto-preguiçoso-que-não-sabe-nem-quer-saber e páro de escrever como um, o Gent já marcou um golo. Porque Mauro, já a farejar a área, bloqueia um remate do tal Esiti com o braço e dá o livre que Misimovic bate (6’) para dentro da baliza. Esquecendo as conclusões precipitadas, os belgas passam 45 minutos a jogar muito e bem contra um Braga que joga pouco e, o pior de tudo, mostra estar mal preparado. O que espanta, pois José Peseiro não é homem para se precipitar nas conclusões. O treinador até avisou que, mesmo não sendo muito conhecidos, os belgas jogavam muito e faziam-no em 3-4-3. Da maneira com a qual os minhotos não conseguem lidar.

Passam muito menos tempo com a bola. Não conseguem pressionar os três defesas do Gent que têm pela frente, por não saberem como lidar com quem têm atrás. O Braga não encaixa a defender, tem os laterais a fechar ao centro, os extremos perdidos sem bola, uma equipa a ver os belgas trocarem passes como querem. Renato e Esiti mandam em todas as jogadas.

O Braga é uma equipa que chega atrasada a tudo, que parece ter um jogador a menos. Está tudo tão desequilibrado que precisa daquele momento que sempre deixa quaisquer equipas numa espécie de luta de igual para igual - uma bola parada, a que Wilson Eduardo cruza para, na confusão das marcações, André Pinto ter arte na cabeça para rematar (24’) o empate.

O golo mexe no marcador e nada muda no jogo. É o Gent a ter a bola, a atacar, a por os jogadores a trocarem de posições, a jogar ao primeiro toque, a fazer coisas tão simples como tabelas ao primeiro toque. O Braga só é a equipa que deve ser - forte, mandona em casa, inclinada para a baliza dos outros - nos últimos cinco minutos da primeira parte, em que Pedro Santos e Bakic dão oportunidade ao guarda-redes Rinne de mostrar que também é bom.

FRANCISCO LEONG

Os minhotos devem ter saído do balneário com os ouvidos cheios. Voltam para ficarem uns metros mais adiante no relvado, apertam a saída de bola do Gent, perto dos três centrais. Espevitam. Já conseguem recuperar bolas para lá da linha que divide o campo, é lá que contra-atacam. Arriscam a cansar os jogadores, põem-se a jeito de a equipa abrir espaços ao mínimo jogador que se distraia ou acuse a fadiga por estar a correr mais, a lutar mais e a pressionar mais.

É o que acaba por acontecer, aos poucos, à medida que os ex-razoáveis Renato e Esiti jogam como construtores de jogo valiosos. O primeiro quase marca de cabeça (58’), num canto, os dois veem o Gent a montar uma jogada das bonitas a que só Matteus coloca um travão (53’) no remate.

A bola tem que parar outra vez e pedir que Wilson Eduardo a volte a bater num livre para o Braga assustar os belgas. O português cruza e a cabeça de um montenegrino (Bakic) remata contra a barra (65’). E a equipa de José Peseiro sofre até ao árbitro deixar de apitar.

Está cansada, os defesas formam uma linha bem longe da área, os restantes já não pressionam, os espaços abrem-se e os belgas atacam-nos rápido. E rematam, são perigosos, assustam e farejam sempre a baliza minhota.

É costume dizer que o empate é bom para a equipa que joga menos, é mais lenta, defende pior, tem menos bola e acaba nem com um terço dos passes da outra. Essa equipa, que toda a gente conhece, é o Braga. Porque os desconhecidos foram mais em tudo. E, no fundo, mostraram-nos que isto da Liga Europa ser a segunda divisão do continente e o sítio onde o fosse entre as equipas é maior, já era.