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O idílio de Mourinho ou quando no futebol também se vence por submissão

O Manchester United bateu o Ajax (2-0) e conquistou pela primeira vez na história a Liga Europa, num encontro em que a equipa de José Mourinho não jogou exatamente bem, mas soube neutralizar em mestria todos os pontos fortes do adversário. É o quarto título europeu para o técnico português, que continua a viver uma espécie de idílio com as provas da UEFA

Lídia Paralta Gomes

Julian Finney/Getty

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O futebol não é um desporto de combate, mas também no futebol se pode ganhar por submissão. E a quarta taça europeia de Mourinho, a quarta em quatro finais, foi ganha à base da neutralização, com a experiência e o pragmatismo a colocarem um pé sobre um grupo de miúdos de talento, mas demasiado verdinhos para não cair na teia montada pelo técnico português, que levou o Manchester United à sua primeira vitória da história na Liga Europa, com um triunfo por 2-0 frente ao Ajax.

Mourinho, que nestes jogos a eliminar continua um estratega de mão cheia, sabia o que tinha antes de jogar esta final. Ou vá, o que não tinha. Bastava olhar para a quantidade de canadianas estacionadas no banco do United. E face a um Ajax que é uma equipa rápida, jovem, que gosta de atacar, mas que nem sempre prima pela estabilidade, as ordens eram claras: gelo no jogo (que é uma forma corriqueira de dizer “controlo tático”), neutralizar as peças-chave do adversário e, na hora certa, aproveitar os erros.

Os primeiros minutos ainda deram para um pequeno bluff: o United começou o jogo a dominar, com bola, a pressionar. Ao ponto do Ajax ter acusado o toque. Ainda não havia um minuto de jogo e já o guardião Onana e o defesa Veltman se atrapalhavam. Com o guarda-redes fora da baliza, a bola foi parar aos pés de Pogba, que rematou ao lado (e não foi tão ao lado assim).

O bluff durou cinco minutos. Depois disso, e tal como já era esperado, o Ajax, equipa de liderada por Peter Bosz, treinador da escola Cruyff - aliás, foi Johan Cruyff que aconselhou Bosz ao Ajax -, tentou pegar no jogo. E quando os holandeses começaram a ser, bem, holandeses, o United foi italiano.

Mike Hewitt/Getty

Depois de ganhar a bola num lançamento lateral do Ajax, o ataque do United fez a bola dançar entre todos os seus homens. Um, dois toques, não mais. O carrossel, coisa pouco vista em Old Trafford este ano, desequilibrou a defesa do Ajax, que deixou Pogba sozinho e abandonado à entrada da área. E quando a bola chegou ao francês, já era tarde: Pogba encheu o pé, com a bola a embater em Sanchéz. Onana já se tinha lançado e a bola foi entrar do lado contrário.

Reação

Os minutos que se seguiram foram provavelmente os únicos em que o United não conseguiu manietar os miúdos de Amesterdão, que esperavam dar novo título europeu ao clube 22 anos e precisamente 22 anos depois da Champions ganha ao Milan em 1995, marcava também no calendário 24 de março. Como seria de esperar - porque o ADN é impossível de negar - o Ajax reagiu com ataque torrencial: partiu para cima dos ingleses e em menos de nada ganhou dois cantos.

Dean Mouhtaropoulos/Getty

Ainda assim, não se pode dizer que os holandeses tenham criado perigo iminente. Dolberg estava bem tapado e Schone, no meio-campo, praticamente não se via. Nesta fase, e quando não estava encostado às cordas, o United tentava ir para o ataque com passes diretos para Rashford, quase todos errados, quase todos para o rapaz de 19 anos correr sozinho e perder a bola logo a seguir - o que, sejamos honestos, não está muito longe daquilo que o United mostrou em muitos, demasiados jogos da Premier League.

O intervalo terá sido, portanto, um alívio para Mourinho. E mais alívio veio quando logo após o arranque para a 2.ª parte Mkhitaryan colocou o Man. United a vencer por 2-0. Na sequência de um canto, Smalling ganha lá em cima e o arménio, rápido, rato, antecipou-se aos centrais do Ajax e dá um coice na bola que engana Onana.

A partir daí foi controlar. Foi colocar mais umas pedras de gelo no jogo, foi ver Ander Herrera sempre bem colocado, Pogba a controlar, nem que fosse só com os olhos. Foi colocar toda a experiência e pragmatismo em campo, submetendo os homens com mais talento do Ajax: se isto fosse um combate, os jogadores holandeses estavam no chão, sem conseguir desenvencilhar-se da chave de pernas feita pelos homens do United.

Mike Hewitt/Getty

E nisso, há que dar mérito a Mourinho e à sua equipa. Se foi bonito? Não foi exatamente bonito. Na verdade, foi um pouco como um dia no escritório, daqueles das nove-às-cinco, a carimbar formulários com um nome qualquer cheio de letras e números.

Sim, esta terá sido das mais aborrecidas vitórias europeias de Mourinho, mas significado não lhe falta. Quando os pares de canadianas começaram a aparecer no relvado após o apito final, percebeu-se isso. E, mais ainda, se recordarmos o que se passou na cidade de Manchester esta semana.

E para a história não ficará esse aborrecimento, sejamos honestos. Ficará que o idílio do técnico português com as finais europeias continua vivo - e na Champions, no próximo ano. O 4.º título europeu significa estar no mesmo patamar que Sir Alex Ferguson, Nereo Rocco e Bob Paisley. Giovanni Trapattoni, o treinador com mais títulos europeus no currículo, já só está a um de distância.