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Sporting e o admirável novo mundo das vitórias morais

O Atlético de Madrid fez apenas um remate na baliza e foi domado durante mais de 70 minutos por um Sporting melhor, mais intenso, mais pressionante e com uma alma bem maior que, por isso, ganhou. O problema é que marcou apenas um (1-0) dos três golos que precisava e, por isso, a vitória real dos números é (bem) menor do que a vitória moral das sensações

Diogo Pombo

NurPhoto

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As entradas a matar, não as faltosas e carniceiras, com alvo nas pernas dos outros, sim as entradas nos jogos, têm um problema, que se transforma logo em dois caso venha a suceder. Ter os jogadores a serem intensos na pressão, mais loucos sem a bola do que com ela, a quererem acelerar qualquer viagem à baliza dos outros são formas de ser de quem tem a ideia de entrar com tudo num jogo. Esta estratégia implica que, ali por volta dos 30 minutos, haja uma quebra e que as coisas abrandem em seja qual for a equipa.

O futebol, afinal de contas, ainda é jogado apenas por humanos.

A pior barreira que se pode erguer perante o esforço, a garra e a energia que os jogadores do Sporting têm de gastar, à bruta, é o corpo de um dos mais frios, reativos e instintivos guarda-redes do mundo ser capaz de uma das paradas do ano. É o braço que o quase robótico Oblak estica para impedir, sabe-se lá como, o hipotético golo que a cabeça de Coates marcaria, logo aos 11 minutos, para fazer a equipa ter de correr um bocadinho com menos pressa para tentar igualar uma luta desigual (dinheiro e orçamento) fora do campo.

A estratégia montada para a remontada, expressão que sai rimada da boca de Jesus, antes do jogo, sai também certa e eficaz no campo. Nos três centrais sobra um para dobrar as raríssimas vezes em que o irrequieto Griezmann ou o chato Diego Costa desdobram quem os marca. Há largura em homens colados à linha na saída de bola e Gelson na frente, que obriga um médio do Atlético a perseguir quem vale como futebolista pelo forma como não se deixa apanhar.

Entrando a matar, tudo isto funciona duplamente para, mais do que anular o Atlético, atropelar o que os espanhóis têm de melhor, as basculações. Com passes rápidos, poucos toques e as linhas bem altas no campo, os leões saltam por cima desta palavra do futebolês, em que Simeone põe há sete anos os seus a correrem incansáveis e enlouquecidos uns pelos outros.

As mordidas a pronto de Battaglia contagiam o toque de Bruno Fernandes e a pausa de Bryan Ruiz. O trio não deixa baixar o ritmo na equipa e mantém a pressão em Saúl, Gabi e Koke, médios melhores e com mais rodagem do que eles. O Sporting domina e controla e doma o Atlético e, quando o assusta com o cabeceamento de Montero que marca na bola que sobrevoa o corpo tomado de Oblak, já outras duas cabeças quase marcaram antes dele.

E chega a meia hora.

Mas eles, afinal, talvez estejam um pouco menos humanos face à transcendência da ocasião. Não abranda, não dão sinais de jogarem pior, nem com a lesão de Mathieu que faz Jesus arriscar em Petrovic para ser o central no meio dos centrais. A equipa mais intensa, criativa, arriscadora e pressionante tem o triplo dos ataques (15-5) e erra muito pouco quando aparece o intervalo, segundos depois do maior erro que faz: o salto de peixe com que Gelson ataca um tenso cruzamento de Acuña e cabeceia a bola quase para a linha lateral.

O mais incrível de tudo o que o Sporting é capaz, daí em diante, é o facto de poder ser descrito por essa palavra.

A abordagem comodista do Atlético aprisionou os jogadores na contenção, presos a um controlo de danos que não lhes permitia reagir à avalanche de garra, luta, esforço e sacrifício que os atacava a cada minuto. O Sporting mantinha as linhas lá à frente no campo, os médios iam buscar pulmões a mais no corpo, cada bola recuperada pelos espanhóis era uma sina do diabo. Implicava levar com invasões de Gelson, Bruno, Battaglia e até Ruiz, telepáticos a flanquear qualquer rival para o roubar.

O Sporting continuou a ser a melhor equipa e, mesmo que tal não seja verdade, a que queria mais. A bicicleta de Coates à entrada da área para a bola ir mansa até Oblak, mais os remates fortes e rebeldes de Montero e Bruno Fernandes, tudo momentos perigosos para o adversário, foram as maneiras que a equipa teve de o mostrar. Até aos momentos em que os leões regrediram à forma original, aos poucos a serem humanos - logo falíveis, cansados e erráticos -, não houve jogador do 2º classificado em Espanha, que esteve em duas das últimas quatro finais da Liga dos Campeões, superior a eles.

O que aconteceu não à meia hora, mas aos 75 minutos.

A quebra natural e esperada partiu o Sporting em dois, sem médios que ainda saíssem na pressão quando o Atlético respirava para lá do meio campo. Sem energia para evitar o espaço em que se formaram os triângulos de passe que lançariam Griezmann na profundidade, sozinho perante Rui Patrício. Uma o guarda-redes salvou, a outra o francês falhou a baliza e assim continuará a matutar sobre o que terá este tipo desde aquela noite em Paris, há quase dois anos.

O Sporting lutou, batalhou, acabou com tudo o que lhe ainda sobrava, com a alma de tipos como Bruno Fernandes, que no 53º jogo da temporada correm como se a vida da família estivesse em jogo. Estava a continuidade na Liga Europa que os tramou assim que pôs o Atlético de Madrid no caminho, mais, estava a oportunidade de poder ser feliz no meio de posts de Facebook, de Assembleias Gerais, de um presidente esgotado e contestado - de serem a equipa viva de um clube moribundo em polémica.

O Sporting ganhou 1-0 e foi eliminado. É uma vitória real e palpável, mas, pela maneira como aconteceu e como está tudo o que rodeia a equipa, é uma vitória moral, porque dá moral e une as pessoas e mostra umas quantas coisas bonitas - como os adeptos, no final, a aplaudirem de pé uma equipa estafada e eliminada - que o futebol tem.