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Luís Franco-Bastos

“Estado Puro” #6. A Alemanha mantém as qualidades do Holocausto, mas continua a não chegar para ganhar (por Luís Franco-Bastos)

Luís Franco-Bastos nasceu em Lisboa, nomeadamente num hospital privado. Licenciou-se em Ciências da Comunicação na Universidade Nova de Lisboa e a média com que concluiu o curso é, no seu entender, um assunto do foro privado. É humorista e proprietário de imóveis, mas sobretudo humorista. Foi contratado só para esta crónica e, se alguém do Expresso tiver dois dedos de testa, não se seguirá mais nenhuma colaboração

Luís Franco- Bastos

David Ramos - FIFA

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O Mundial já não é o que era. Os meus conhecimentos e experiência acumulada de nada me servem, porque tudo mudou: o lateral direito da Rússia chama-se Fernandes, Portugal é uma equipa respeitada, o Brasil não consegue ganhar a um país com 300m² e o México foi mais eficaz que a Alemanha.

Os germânicos apostam no planeamento, continuidade, organização e trabalho colectivo, ou seja, todas as qualidades do tempo do Holocausto se mantêm – e ontem, tal como no tempo do Holocausto, essas qualidades não foram suficientes para lhes dar a vitória.

O fosso entre os favoritos e os underdogs estreitou-se. É muito mais difícil prever resultados. Sinto-me como um pai que está a tentar ajudar o filho nos trabalhos de casa mas como, 35 anos depois, os programas escolares são completamente diferentes, é como se nunca tivesse andado na escola embora lá tenha passado metade da vida. “Então, filho, π é 3.14”, “Não, pai”, “Como assim, não? π = 3.14!”, “Não, pai, o segundo governo Sócrates mudou isso. Agora é 23%, como o IVA”.

Estou, progressivamente, a libertar-me de todas as minhas antigas concepções para compreender a realidade do Mundial actual. Aconselho todos os seleccionadores das principais potências a fazer o mesmo, ou serão despedidos em 72 horas. “Ora bem, os dinamarqueses são possantes mas lentos, logo vamos fazer circular a bola e jogar em profundidade” - ou talvez não, porque ambas as alas têm jogadores cujos pais nasceram na Tanzânia e, no fundo, são mais completos atlética e tecnicamente do que tu alguma vez sonharás ser, portanto não podes tratar os dinamarqueses como dinamarqueses embora eles sejam dinamarqueses.

Antigamente, o Mundial era entre países cuja identidade era estanque, porque o mundo era mais estanque. A miscigenação do mundo trouxe a miscigenação do futebol. Basta olhar para os plantéis: metade dos alemães são turcos, um terço dos suíços é africano, outro terço dos suíços é árabe, 17 dos 23 marroquinos são franceses, 80% dos árbitros foram subornados pelos russos e 100% dos vídeo-árbitros são invisuais.

A isto se chama Globalização.