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Luís Franco-Bastos

“Estado Puro” #11. Neymar está a um bícep de ser Cauã Reymond. Que actor (por Luís Franco-Bastos)

Luís Franco-Bastos nasceu em Lisboa, nomeadamente num hospital privado. Licenciou-se em Ciências da Comunicação na Universidade Nova de Lisboa e a média com que concluiu o curso é, no seu entender, um assunto do foro privado. É humorista e proprietário de imóveis, mas sobretudo humorista. Foi contratado só para esta crónica e, se alguém do Expresso tiver dois dedos de testa, não se seguirá mais nenhuma colaboração

Luís Franco- Bastos

GIUSEPPE CACACE

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Estou num nível diferente, não vos vou mentir. Faço muito mais que o cidadão comum. A esmagadora maioria das pessoas levanta-se da apenas cama uma vez por dia, geralmente de manhã. Ontem levantei-me da cama por quatro ocasiões: duas para passear os cães, uma para ir buscar a encomenda da Uber Eats à porta, e outra para jantar.

De resto, confortavelmente instalado, vi os três jogos do dia de ontem em 4K e ninguém me tentou impedir. Enquanto isso, os meus colegas de escola e faculdade, que obviamente sempre foram mais brilhantes que eu, usaram os seus fatos e gravatas durante dez horas seguidas para garantir o futuro do país. Na verdade, garantiram apenas o futuro dos seus patrões, mas não lhes digam. É chato saberem desta maneira.

Falemos do que interessa. Torço pelo Escrete quase com a mesma alegria que torço por Portugal. Os dois primeiros Mundiais que apanhei enquanto ser vivo que sabe e conhece e vê coisas, para além de ingerir e defecar, foram 94 e 98, onde Portugal não esteve.

A minha primeira concepção de Mundial era uma competição muito importante onde torcíamos pelo Brasil, porque era o mais parecido que havia. Parecido, não no sentido em que eles tinham Roberto Carlos e nós Dimas, mas parecido. Vocês percebem. O Brasil era um sucedâneo de Portugal em muitas coisas. Não tínhamos selecção, usávamos a deles. Não tínhamos novelas realmente boas, usávamos as deles. Não tínhamos gente suficiente disposta a enveredar pela prostituição, usáv... Exacto. Agora as coisas estão mais niveladas nas três áreas que referi, e só quem não anda de carro perto do Instituto Superior Técnico em Lisboa depois das 22h da noite é que não se apercebeu. Somos campeões europeus e, como se viu, os árbitros preferem correr o risco de ser assassinados por vingança nas próximas férias em Marrocos do que assinalar penalties aos nossos centrais, portanto tornámo-nos respeitados. Mas o meu carinho pelo Brasil ficou.

Se Portugal não ganhar, o que acho difícil, que seja o Brasil. Com Neymar a subir de forma, tudo pode acontecer. Este ano que passou em Paris afastado do futebol profissional e dedicado a um curso de representação fez-lhe bem: está mais forte em artes dramáticas do que nunca. Um pouco mais de caparro e o Cauã Reymond já era. Que intensidade. Que performance.

Não consegui perceber se era período, gravidez ou menopausa, mas uma coisa é certa: há actores que manipulam as suas emoções, Neymar vai mais longe e manipula as suas hormonas. É o único jogador do Mundial que, até ao fim da competição, corre o risco de sair com uma lesão no clitóris. É uma questão de ligarem a Petr Cech a ver se ele empresta o capacete e alguém faz uma adaptação para caber na zona pélvica. Não custa tentar.