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Luís Franco-Bastos

“Estado Puro” #13. Portugal unido contra Carlos Queiroz – ou seja, tudo igual a 2010 (por Luís Franco-Bastos)

Luís Franco-Bastos nasceu em Lisboa, nomeadamente num hospital privado. Licenciou-se em Ciências da Comunicação na Universidade Nova de Lisboa e a média com que concluiu o curso é, no seu entender, um assunto do foro privado. É humorista e proprietário de imóveis, mas sobretudo humorista. Foi contratado só para esta crónica e, se alguém do Expresso tiver dois dedos de testa, não se seguirá mais nenhuma colaboração

Luís Franco- Bastos

Anadolu Agency

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O Mundial é como um namoro de adolescentes. Intenso, inesquecível e, antes que chegue Agosto, tem que acabar. A primeira fase começa a decidir-se e, para meu gáudio, algumas das Selecções com as quais antipatizo já estão eliminadas. A Polónia é uma delas – entrou no Mundial igual à obra literária de José Saramago, e ao fim de duas jornadas continua a parecer a obra de Saramago: com poucas vogais e, acima de tudo, nenhuma pontuação. Já uma das que mais simpatizo, nomeadamente, Portugal, joga hoje o último encontro da fase de grupos numa situação favorável ao apuramento - ou seja, esperam-nos apenas 90 minutos do mais puro sofrimento para poder dizer que estamos nos oitavos.

A grande diferença que encontro na postura desta Selecção e nos adeptos em relação a outros tempos é que, finalmente, encontrámos a dose certa de optimismo. Nunca fomos propriamente equilibrados: ou íamos numa de “nem vale a pena ver, marquei um baptizado para a hora do Roménia-Portugal que aqueles gajos são fodidos”, ou então numa de “este António Oliveira é um GÉNIO e obviamente já ganhámos o Mundial da Coreia que ainda nem começou”. Neste momento, damos por nós numa situação inédita: temos uma boa geração de jogadores, um misto equilibrado de juventude e experiência, provavelmente o melhor futebolista de todos os tempos a capitanear-nos, um treinador que já provou ser competente, um título de campeões da Europa acabado de ganhar e, mesmo assim, estamos todos borrados. É este equilíbrio que me deixa optimista.

Mas, acima de tudo, e sei que vou dizer uma aparente heresia: se hoje perdermos com o Irão, não vou ficar excessivamente triste. Os portugueses não estão a colocar as coisas em perspectiva mas, faça o que fizer, esta Selecção, por si só, já é uma vitória. Senão vejam: Eduardo; Ricardo Costa, Ricardo Carvalho, Bruno Alves, Duda; Pepe, Tiago, Raúl Meireles; Ronaldo, Fábio Coentrão e Danny. Não, não era o 11 inicial do Alverca no Torneio do Guadiana em 2010 frente ao Blackburn Rovers. Era o 11 titular da Selecção A de Portugal no Mundial 2010 frente ao Brasil. Peço desde já desculpa a todos os leitores que não evitaram bolsar ao recordar estes nomes e que estão, neste instante, a desembaciar os ecrãs, mas o passado da nossa Selecção é como qualquer outra grande catástrofe: deve ser recordado para nunca perdermos a noção de quem somos e do que fizemos até chegar aqui. Percebem? Perspectiva.

E depois, se o Irão nos eliminar, a sensação já não é nova: seria a segunda vez que Carlos Queiroz impedia Portugal de fazer boa figura num Mundial e destruía com as suas próprias mãos o sonho de 10 milhões de adeptos. A primeira ainda custou, a segunda era mais fácil de engolir.