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Luís Franco-Bastos

“Estado Puro” #23. 48h em que o Mundial não existe: reservo-me o direito de escrever o que entender (por Luís Franco-Bastos)

Luís Franco-Bastos nasceu em Lisboa, nomeadamente num hospital privado. Licenciou-se em Ciências da Comunicação na Universidade Nova de Lisboa e a média com que concluiu o curso é, no seu entender, um assunto do foro privado. É humorista e proprietário de imóveis, mas sobretudo humorista. Foi contratado só para esta crónica e, se alguém do Expresso tiver dois dedos de testa, não se seguirá mais nenhuma colaboração

Luís Franco-Bastos

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Olhem, vou pela honestidade. Não tenho nada para vocês. Podem parar com esse olhar de julgamento que estão a fazer ao ler esta crónica no iPhone (Huawei, se forem pobres), porque não é fácil. É uma posição delicada, aquela em que me encontro, mas assumo: esta crónica não terá ponta por onde se lhe pegue.

Eu sabia no que me estava a meter, ninguém me enganou. Na reunião que tive no Expresso para acertar os detalhes da minha colaboração, surgiu este cenário. “Bem, vai ser meio estranho continuar a escrever a crónica todos os dias se Portugal for de vela cedo, não?”. Pois. Agora imaginem o que é escrever uma crónica sobre um Mundial onde Portugal já não está, nos dias em que não há jogos - não só de Portugal, mas de ninguém. É escrever sobre um Mundial que não existe. Estão a pedir-me que comente uma alucinação colectiva. Assim sendo, e porque durante estas 48h o Mundial não existe, sinto-me no direito de escrever o que bem entender.

Com essa mão e esse gancho podes fazer tudo quanto quiseres, e há coisas que um gancho faz melhor que a mão completa, um gancho não sente dores se tiver de segurar um arame ou um ferro, nem se corta, nem se queima, e eu te digo que maneta é Deus, que fez o universo.

Sim, é um trecho do Memorial do Convento. Querem que eu escreva o quê? Pensem que, em vez de gastarem uns 24€ na Fnac, que é o preço mínimo dum livro em Portugal (uma bela medida para incentivar a leitura num país que lê pouco), estou a dar-vos cultura de bandeja.

Quando voltar a haver Mundial, eu falo. Até lá, estou em blackout. Sou provavelmente um dos últimos praticantes desta modalidade que caiu em desuso desde que existem redes sociais, mas pratico, sim: quando não tenho nada para dizer, não digo nada. Resulta estupidamente bem.