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Luís Franco-Bastos

“Estado Puro” #28. Não odeio a França, apesar de ter passaporte português (por Luís Franco-Bastos)

Luís Franco-Bastos nasceu em Lisboa, nomeadamente num hospital privado. Licenciou-se em Ciências da Comunicação na Universidade Nova de Lisboa e a média com que concluiu o curso é, no seu entender, um assunto do foro privado. É humorista e proprietário de imóveis, mas sobretudo humorista. Foi contratado só para esta crónica e, se alguém do Expresso tiver dois dedos de testa, não se seguirá mais nenhuma colaboração

Luís Franco- Bastos

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Normalmente (e isto vai parecer-lhe estranho, caríssimo leitor, mas aqui vai), só começo realmente a desfrutar do Mundial quando Portugal é eliminado. Não porque deseje que Portugal o seja (muito pelo contrário), nem pela saída em si, que me deixa triste. É pela libertação total e absoluta de expectativas.

Embarquemos numa analogia: passam perto dum jogo de miúdos num campo de escolinhas. Se não conhecerem lá ninguém, giro, uns putos a jogar à bola, se quiserem vêem até ao fim, se chover vão para casa. Se um dos miúdos é vosso filho, não só vão ter de ver o jogo até ao fim sem opção de escolha, faça chuva, sol ou granizo, como vão ter de se preocupar com o resultado, se ele está bem, se se magoa, se os pais dos outros miúdos lhe chamam nomes, se ele vai ficar triste caso perca, pensar que conversa devem ter para lhe explicar que isso faz parte da vida, conseguir que ele não se desmotive ao ponto de desistir da vida e optar por uma licenciatura em antropologia ou abrir uma loja de cristais, enfim, as habituais inquietações de qualquer progenitor.

Se Portugal não está em prova, vejo o Mundial tranquilamente e qualquer resultado me serve. O Japão vai ganhar 2-0 à Bélgica? Lindo. A Bélgica deu a volta e ganhou 3-2 ao Japão? Lindo. Foram os dois desclassificados e repescaram o Chipre? Lindo. Se Portugal está em prova, tudo me preocupa. Desde o resultado ao alinhamento das vértebras do Quaresma passando pelo grau de satisfação de José Fonte com o pequeno-almoço do hotel.

Nos dias que correm, estou tranquilíssimo. Tive a sorte de chegarem às meias quatro equipas com as quais simpatizo. Sim, leram bem: simpatizo com a França, apesar de ter passaporte português. Primeiro, porque têm muita qualidade. Segundo, não sou ingrato - na hora em que, enquanto português, mais precisei da França, em 2016, lá estavam eles prontos para me dar a maior alegria desportiva da minha vida.

Por outro lado, Inglaterra tem uma bela geração, Croácia está cheia de talento e Bélgica é espectacular. Qualquer um deles, ganhando, me deixará contente. Ou se, a meio da final, Putin entrar no relvado montado numa segway a cantar a “125 Azul” dos Trovante traduzida para russo e o presidente da FIFA disser “Isto é brilhante, esqueçam a final, a Rússia fica com o troféu”, ficarei contente também. Ninguém aprecia mais a “125 Azul” dos Trovante do que eu.