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O 'moleque' que tem o pai como sombra e que se fartou de estar na sombra de uma lenda

Um 'moleque' que foi o último dos moicanos está prestes a tornar-se no jogador de futebol mais caro de sempre, aos 25 anos. O Paris Saint-Germain vai pagar €222 milhões ao Barcelona para ficar com Neymar, que tem o pai (e agente) como sombra e se fartou de estar na sombra de uma lenda chamada Lionel Messi

Diogo Pombo

Quatro anos depois de chegar a Barcelona, Neymar disse adeus - e o clube já o retirou de todos os posters e imagens

JOSEP LAGO/GETTY

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O miúdo é nascido e criado de forma humilde, palavra que não resume o que tem dentro: uma vida pobre, mais ou menos dura, recauchutada dentro do único quarto da casa minúscula onde tem de haver espaço para familiares às dezenas. Esse miúdo, magricela, sem tamanho de roupa porque qualquer peça lhe ficar a boiar no tamanho que tem, é feliz. Só precisa de uma bola e ei-la em qualquer pedra, papel embrulhado, peúga velha dobrada, lata de refrigerante pisada.

O pai do miúdo, jogador frustrado e com mais esforço do que talento a chutar uma bola normal num relvado, está retirado. Trabalha três trabalhos por dia. É mecânico, pedreiro e empregado da câmara. O tempo que não tem oculta-lhe o jeito que agarrou no filho e lhe fugiu a ele. Chegava-lhe aos ouvidos, as pessoas contavam-lhe, mas era um progenitor que não tinha noção do que o filho era, por ter de trabalhar para o filho poder viver.

Até que o viu a jogar, a sério, fora da rua e dentro de um pavilhão.

O Neymar Sénior viu como o Júnior, cópia no nome, se livrava de miúdos maiores no tamanho e na idade, quando os anos a mais ainda dão supremacia em quase tudo. Com seis ou sete anos, o 'moleque' começou a jogar futsal, o piso do salão a prender-lhe os pés, a bola colada e fiel a um corpo que parecia sambar, baloiçar e coordenar-se numa espécie de descoordenação planeada, umas pernas balbuciantes que enganariam até um robô que prevê o futuro.

Neymar estreou-se aos 17 anos, em 2009, pelo Santos

Neymar estreou-se aos 17 anos, em 2009, pelo Santos

MAURICIO LIMA/GETTY

Anos passam, não muitos, e o pai deixa de trabalhar. A profissão é o filho, cuidar dele e do potencial que não se esconde em São Vicente, terra perto de São Paulo, por muito tempo. Com 12 anos vai jogar para o Santos, clube do qual o miúdo gosta e que cria um escalão etário só para o acolher. Começa-se a ouvir falar de um miúdo que humilha os outros com um sorriso na cara e truques no corpo que costumam ser hábito de rua, jogos com amigos e pedras a fazer de balizas.

E o pai vê para lá do futebol.

Neymar pula até aos 14 anos e Walter Ribeiro, um agente, leva-os até Madrid. Ele visita o maior clube do mundo em títulos importantes e fica à mercê de ser seduzido por um museu onde cabiam nove troféus da Liga dos Campeões e 29 da liga espanhola. O Real Madrid diz que é apenas um convite, uma visita inocente. O Santos queixou-se, preocupado, a tudo quanto é entidade que manda no futebol, criticando o aliciamento a um adolescente. Com essa idade não se é profissional de coisa alguma, mas, pouco depois, o 'moleque' assina o primeiro contrato com o Santos.

A partir daqui, podíamos dar um pulo ainda maior e só aterrar neste momento, em que já não deve faltar muito para que Neymar salte do Barcelona para o Paris Saint-Germain. No mundo em que os seres humanos têm um preço e um que seja especialmente predestinado para o futebol vale, pelos vistos, €222 milhões.

Porque a história de quem já foi o último dos moicanos, o 'moleque' Neymar, o herdeiro de Pelé, o extremo magro dos dribles, das cuecas, das fintas malucas e humilhações a quem lhe quer roubar o que ele mais gosta - e demais descrições que vêm à cabeça por terem sido banalizadas pelo tempo -, vale muito dinheiro.

Neymar trocou o Barcelona pelo PSG

Neymar trocou o Barcelona pelo PSG

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Mas este momento é anterior a tudo isso. Ele está prestes a estrear-se na equipa principal do Santos. Os jornais, os adeptos e os brasileiros, no geral, falam dele. Entra em campo, joga meia hora, cada vez que a bola lhe toca nos pés é uma desculpa para ovação. Antes de a histeria tomar conta do Vila Belmiro, estádio do clube, pela primeira vez, Neymar tem no contrato uma cláusula que lhe dá 40% do valor de uma futura transferência. O Santos arranja um comprador para essa fatia do passe e o pai, a negociar pelo filho, fixa o valor em cinco milhões de reais.

Neymar tem 17 anos e, no dia antes de se estrear pelo Santos, já é milionário.

Fica no clube durante cinco épocas e são anos de loucura. Os adversários pontapeiam-no, com raiva e força de vingança, pelos dribles que sofrem e o mau que ficam a parecer nos olhos de quem vê. Há miúdos por todo o Brasil a imitarem o penteado de Neymar, um moicano. Antes de ter 20 anos já tem 100 golos marcados na carreira. Aparece numa telenovela brasileira - a cena põe Neymar no quarto de um hotel e chamar a segurança por lá entrar, do nada, uma mulher com pouca roupa.

É o primeiro atleta brasileiro a aparecer na capa da "Time". A mesma revista escolheu-o como o único futebolista na lista dos 100 desportistas mais influentes do mundo. Pelé diz que não imagina onde o rapaz pode chegar e o seu ego até o faz dizer que Lionel Messi não é o melhor, porque ao argentino devorador de Bolas de Ouro ainda falta ser melhor que Neymar. A histeria não pára de aumentar.

O dinheiro, ou a preocupação com ele, vai atrás. Um grupo de adeptos ricos do Santos junta-se para comprar ao clube 5% do passe de Neymar. Em 2010, ele estreia-se pela seleção e, nesse ano, milhares de brasileiros assinam uma petição a exigir que seja convocado para o Mundial, mas não resulta. Conquista uma Copa Libertadores pelo Santos, feito inédito desde os tempos de Pelé (1963) no clube, vai de renovação em renovação de contrato, negociados pelo pai e agente enquanto se reúne com presidente de clubes como o Real Madrid, o Chelsea e o Barcelona.

O show de Neymar continua porque Neymar é extrovertido, falador, imprevisível no campo e nas respostas, descontraído, avesso ao álcool, mas adorador de festas noturnas. Tem o perfil de estrela. É pai aos 19 anos, com uma mulher de um caso e com quem não tem uma relação. Assume-o, fica a cuidar do filho, nada esconde. Entretanto, torna-se namorado de Bruna Marquezine, uma famosa atriz brasileira.

O primeiro jogo na seleção aconteceu em 2010. Até tem 77 partidas e 52 golos marcados pelo Brasil

O primeiro jogo na seleção aconteceu em 2010. Até tem 77 partidas e 52 golos marcados pelo Brasil

MARWAN NAAMANI/GETTY

A vida de Neymar, no bom sentido, tem tanto de espalhafatoso no futebol, como fora dele.

Mantém-se no Brasil até aos 21 anos, gosta do país e da vida que leva, não se quer precipitar. Só em 2013 chega ao Barcelona e torna-se o protagonista, quiçá, da transferência mais polémica de sempre, tão complicada como a tarefa de a explicar, resumidamente: o Barça prometeu €40 milhões a Neymar e ao pai, por se comprometerem com o negócio que, concluído, foi cifrado em €17 milhões, valor pago pelo clube ao Santos. Até que a desconfiança de um sócio catalão evoluiu para cartas, queixas, tribunais, um processo judicial, acordos paralelos, pagamentos não declarados, a demissão de um presidente (Sandro Rosell) e uma grande mentira: Neymar, afinal, custara mais de €86 milhões.

Nesta altura, ele já é parte de um dos tridentes mais conhecidos do futebol. O brasileiro vive à esquerda, encostado à linha, vizinho da área habitada por Luis Suárez e residente autorizado do campo do qual Lionel Messi é dono. Os três marcam, jogam e sorriem muito juntos, e o Barcelona vence uma Liga dos Campeões, um Mundial de Clubes, uma Super Taça Europeia, dois campeonatos e uma Taça do Rei.

Os remates rápidos, as desmarcações e o estar no sítio certo são do uruguaio. As fintas mirabolantes, os sprints, as cuecas e demais enfeites na bola para gáudio geral, pertencem ao brasileiro. Coisas que tornam dispensáveis as cadeiras no estádio, portanto. O problema é que tudo o resto, a matéria de que são feitas as lendas e que nenhum deles tem, está com o argentino.

Neymar ainda partcipou na digressão que o Barcelona fez aos EUA, nesta pré-temporada

Neymar ainda partcipou na digressão que o Barcelona fez aos EUA, nesta pré-temporada

Mike Ehrmann/GETTY

Por mais que Neymar nos deixe boquiabertos com fintas, golos, ziguezagues com bola, passes sem olhar, túneis humilhantes e façanhas em que é o brasileiro contra um mundo que o quer parar, há sempre Messi - a, provavelmente, fazer o mesmo, ou melhor, na mesma equipa. Enquanto coabitarem, ninguém que jogue no Barça e tenha bola olhará para o brasileiro como o porto seguro, o homem a recorrer, os pés onde por a bola quando a bola está incandescente e queima.

Seria olhado desta forma em 99,9% das equipas. Mas, permanecendo neste 0,1%, nunca seria o líder, o melhor, a estrela.

Continuaria a ser o incrível Neymar, o 'moleque' rebelde e inventor de fintas e formas de ultrapassar pessoas como não víamos desde Ronaldinho, brasileiro que sorria mais do que ele, cujos génios eram semelhantes no arrojo e falta de pudor. A incredibilidade de Neymar já teria valido uma, ou duas, Bolas de Ouro, não fosse a coincidência com o tempo de Cristiano Ronaldo e o facto de, estando no Barcelona, ser não mais do que um fiel escudeiro do pequeno extraterrestre que diz ser argentino e habita na Terra.

Neymar está com 25 anos, é um dos três ou quatro melhores jogadores do mundo desde que veio experimentar o futebol da Europa, e por muito que seja feliz e marque golos e arranque aplausos e conquiste títulos, está dependente do tempo - até Lionel Messi deixar de jogar, o que ainda vai demorar; ou do tempo que ele próprio demore a fartar-se de não ser o melhor.

Esse tempo chegou e Neymar pára no Qatar. Veio da China, de obrigações publicitárias do Barcelona, para, supostamente, fazer exames médicos no Paris Saint-Germain e seguir viagem. Quem manda no clube catalão, entretanto, diz que nada pode fazer, porque os parisienses estão dispostos a pagar os €222 milhões de uma cláusula inventada na suposição de que vivalma gastaria tanto dinheiro num futebolista.

Messi, Suárez e Neymar, um dos melhores trios atacantes de sempre

Messi, Suárez e Neymar, um dos melhores trios atacantes de sempre

David Ramos/GETTY

Talvez se tenham esquecido que os tempos mudam e tudo muda com eles.

E hoje vivemos um tempo em que o pai de um jogador, que por sinal é seu empresário, depois de anos a forçar cláusulas e braços de ferro no Santos, depois de maroscas compactuadas com o Barcelona, vai receber €26 milhões de um clube que, daqui a dias, o filho vai abandonar. Porque, o ano passado, Neymar renovou com o Barcelona e no preto que se rubricou no branco havia uma linha que estipulava uma choruda compensação para o progenitor.

O outrora pobre, mas ainda magrinho, já cheio de tatuagens, o ex-moicano que agora tem outros penteados esquisitos, é o jogador de futebol por quem mais se vai pagar na história. Hoje ele é um fenómeno, um rapaz de 25 anos que tem 77 jogos e 57 golos marcados pela seleção em que é o único fenomenal, a sentir o peso de um povo habituado a ter muitos fenómenos a jogar ao mesmo tempo.

As camisolas já não ficam a boiar ao 'moleque' Neymar. Mas ainda é o pai que está por trás de tudo o que ele faz mover e que não seja uma bola ou o corpo desengonçado de um adversário.