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Irmãos de sangue. E de suor e de lágrimas

Os irmãos britânicos de apelido Brownlee estão a marcar a história do triatlo não só pelos feitos conquistados. Na última etapa do circuito mundial, Alistair desistiu de disputar a vitória com o sul-africano Henri Schoeman para ajudar seu irmão Jonathan a cruzar a linha de chegada.

Alexandra Simões de Abreu

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ELIZABETH RUIZ

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Alistair e Jonathan Brownlee não são irmãos gémeos, mas tornaram-se almas gémeas no triatlo. Onde está um, o outro vem logo atrás. Depois de terem conquistado o ouro e a prata nos Jogos Olímpicos do Brasil, os dois irmãos voltaram a protagonizar um cena digna de filme de Hollywood, durante a etapa final do circuito mundial de Triatlo, em Cozumel, no México.

Jonathan, o mais novo (26 anos), estava prestes a chegar à meta na primeira posição - o que lhe daria o título de campeão do mundo da modalidade -, quando, a 700 metros da meta, começa a cambalear. O esgotamento fisico numa prova feita em condições de calor e humidade adversas, vem ao de cima dominando o corpo do britânico que, num primeiro momento, é amparado por um assistente, impedindo que caísse. Mas eis que surge o mano velho (28), campeão olímpico, que vinha logo a seguir na segunda posição. Alistair pega de imediato em Jonathan, e leva-o abraçado em direção à meta.

Nesta altura, aparece o sul-africano Henri Schoeman, que tinha ficado em terceiro nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Sem deixar que a história se repetisse nem que a oportunidade fugisse, ultrapassa-os, conseguindo a vitória.

Jonathan Brownlee cortou a meta em segundo, empurrado por Alistair, que se deixou ser terceiro. Caso tivesse vencido a prova, Jonathan ter-se-ia sagrado campeão mundial. Assim, ficou a quatro pontos do espanhol Mario Mola, que ficou em 5.º na prova do México.

Jonathan foi de imediato hospitalizado por causa da desidratação severa, mas já partilhou fotos suas nas redes sociais afirmando que está bem e agradeceu publicamente a ajuda do irmão.

Não foi a primeira vez que os irmãos Brownlee vivenciaram este tipo de cenas. Já em 2010, durante uma prova da World Championship Series, em Londres, Alistair fez tanto esforço que desmaiou. O atleta só que acordou 30m depois, no hospital, coberto de sacos de gelo, com sua temperatura corporal próxima dos 42ºC, e não se lembrava de nada. “Prefiro morrer do que perder”, afirmou na altura o atleta.

Nos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012, Jonathan cortou a meta meio minuto depois de Alistair e 20 segundos após o espanhol Javier Gomez e desfaleceu, o que provocou um atraso na cerimónia de entrega das medalhas olímpicas.

Nascidos para competir

O triatlo foi apresentado aos Brownlee, por um tio que praticava a modalidade. O primeiro a apaixonar-se foi Alistair. Depois de participar em várias provas de cortamato Alistair resolveu dedicar-se de corpo e alma ao triatlo quando venceu o campeonato do mundo de juniores, em 2006. "Aí sim, eu tomei a decisão consciente de me focar no triatlo", explica o mais velho dos Brownlee. Jonathan que desde cedo seguiu as pisadas do mano velho, em 2006 e 2007 foi campeão britânico junior de triatlo e duatlo. Os dois nunca mais pararam de somar títulos e de ajudarem-se mutuamente dentro e fora das pistas.

E apesar da modalidade ocupar-lhes boa parte do tempo, Alistair começou por estudar medicina na Universidade de Cambridge, e transferiu os seus estudos para a Universidade de Leeds, onde mora, estando já a terminar o mestrado em Economia. Jonathan terminou recentemente o curso de história.

LEON NEAL

Nos Jogos Olímpicos, Alistair cruzou a linha de chegada da prova - que consiste em 1,5km de natação no mar; 40km de ciclismo e 10km de corrida- em 1h45m01s. Jonathan chegou seis segundos depois. Esgotados, os irmãos deitaram-se no chão e abraçaram-se. “É incrível (estar ao lado de Jonathan). Tentamos ficar com o ouro e a prata há quatro anos, em Londres, mas desta vez conseguimos. Quando Jonny cruzou a linha, disse a ele 'conseguimos'”, disse Alistair, no Rio. “Nós dois tivemos anos difíceis. Ver o teu irmão mais novo aparecer na linha de chegada segundos depois de ti é fenomenal”, concluiu.

De realçar que o maior adversário dos britânicos, o espanhol Javier Gomez, medalha de prata em Londres2012 e cinco vezes campeão mundial, foi a grande ausência do triatlo nos Jogos do Rio, uma vez que fraturou o cotovelo durante um treino e foi obrigado a ficar de fora. Mas os dois irmãos também foram afetados por lesões no ano passado. Alistair foi operado ao tendão de Aquiles e Jonathan sofreu uma fratura de stress no femur esquerdo, no início de 2016.

Alistair é o único bicampeão olímpico (2012 e 2016) do triatlo. A somar a estes ouros conquistou por duas vezes o campeoanto do mundo de triatlo (2009 e 2011) e por equipas (2011 e 2014); foi três vezes campeão da Europa (2010,2011 e 2014) e campeão da Commonwealth (2014). No curriculo de Jonathan, além do bronze nos Jogos de Londres e da prata no Rio, realçam-se o titulo de campeão do mundo (2006) e europeu ( 2007) de juniores.

Na verdade Alistair e Jonathan praticamente não têm pontos fracos. Nadam ambos muito bem, saindo na maioria das vezes no primeiro pelotão; também pedalam muito bem, igualando aos melhores ciclistas da modalidade; e, na corrida, costumam ter os melhores tempos. E se pensa que o método de treino deles está cheio de alta tecnologia, esqueça. Quem os conhece diz que o seu programa de treino é formado por muito volume (quilómetros e quilómetros) e muita frequência (várias sessões semanais de treino), entre 30 e 35 horas semanais e sobretudo ao ar livre.

Se dúvidas houvesse, Alistair publicou na internet um exmeplo de uma sessão semanal de treino: “Na segunda, eu corro 90m, nado durante uma hora, faço uma hora de musculação e duas horas de pedal. Na terça, nado forte de manhã, corro leve, pedalo leve e termino o dia com um treino forte de pista (corrida). Na quarta, começo com um treino longo de natação, 90m de corrida e depois 3h de ciclismo. Na quinta, nado de manhã, corro uma ou duas vezes e depois pedalo forte. Sexta é o dia mais fácil – nado de manhã, corro leve e pedalo leve. Sábado e domingo são os meus dias de treino longo de ciclismo e corrida, respetivamente”.

LEON NEAL