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Doping ou batota: estará todo o desporto sob suspeita?

Ser apanhado num controlo antidoping é o mesmo que tomar uma substância proibida com autorização médica? Ou será esta última uma forma de dar a volta ao sistema e fazer batota? E isto também acontece em Portugal? O diretor da ADoP explica

Alexandra Simões de Abreu

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A ficha médica de Rafael Nadal diz que este usou substâncias proibidas mas com autorização da Federação Internacional de Ténis

Geoff Burke/ Getty

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O grupo de piratas informáticos russos autodenominado “Fancy Bears” voltou a inflamar o desporto mundial, revelando mais uns quantos nomes de atletas que alegadamente terão recorrido a substâncias proibidas. Desta vez, o destaque vai para as fichas médicas do tenista espanhol Rafael Nadal e de Mo Farah, quatro vezes campeão olímpico (nos 5000 e 10000 metros).

O ex-número um mundial de ténis e vencedor de 14 títulos do Grand Slam foi autorizado, pelo médico da Federação Internacional de Ténis, Stuart Miller, a receber duas doses intramuscular de betametasona, em 2009, e várias doses de uma substância corticóide, durante os Jogos Olímpicos Londres 2012. Já sobre Mo Farah, vencedor da meia maratona de Lisboa, em 2015, as autorizações remontam a outubro de 2008 e julho de 2014, e dizem respeito ao corticosteroide triancinolona e a morfina.

Mo Farah é especialista nas provas de 5 mil e 10 mil metros

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DYLAN MARTINEZ

Não é a primeira vez que estes “hackers” russos, também conhecidos por “Tsar Team” – que acederam ilegalmente à base de dados do Sistema de Administração e Gestão Antidopagem (ADAMS) da Agência Mundial Antidoping (WADA), criado para seguir os controlos feitos aos atletas – colocam na praça pública as fichas de atletas.

A campanha começou há pouco mais de uma semana e teve como alvo atletas americanas. Na altura, foram tornados públicos relatórios médicos confidenciais das irmãs Serena e Venus Williams, tenistas, e de Simone Biles, ginasta, entre outros, revelando que as famosas atletas americanas receberam permissão médica para usar drogas consideradas proibidas.

As irmãs Williams, ambas tenistas, também receberam permissão para tomar substâncias proibidas

As irmãs Williams, ambas tenistas, também receberam permissão para tomar substâncias proibidas

TOBY MELVILLE/ Getty

António Julio Nunes, diretor executivo da Autoridade Antidopagem de Portugal (ADoP), realça desde logo a necessidade de separar duas situações distintas. “Uma coisa é o atleta ser apanhado num controlo antidoping, outra é estar devidamente autorizado a tomar uma substância proibida. Neste último caso, não é considerado doping”, começa por explicar, aceitando no entanto que “a autorização é que pode ser posta em causa”.

Vamos por partes. A própria WADA assume que alguns atletas com determinadas condições médicas podem pedir prescrições para certos medicamentos, que estão na lista das substâncias consideradas proibidas. Ao que parece, terá sido o caso da especialista norte-americana em ginástica artística, Simone Biles, que terá consumido medicamentos para combater a hiperatividade. Medicamentos esses que são considerados proibidos no desporto mas foram aprovados pela agência antidoping. Já as irmãs Williams terão ingerido anti-inflamatórios.

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“Em cada uma das situações, as atletas fizeram tudo de acordo com as regras globais para obter a permissão para usar aquela medicação”, adiantou Travis Tygart, o presidente da Agência Antidoping dos EUA. Até aqui, aparentemente, nada de errado.

“Se a doença for comprovada, a substância o que faz é colocar o organismo a funcionar num patamar normal”, avança Júlio Nunes. E, sendo assim, não há um rendimento extra para o atleta. O problema é quando essas substâncias são tomadas por pessoas saudáveis. “Aí sim, dá mais capacidade ao organismo e então podemos dizer que está a ser utilizado de forma batoteira”, conclui o diretor da ADoP.

Em Portugal, a comissão de autorização de utilização de terapêutica (CAUT) é quem procede ao registo e análise das solicitações feitas pelos atletas. “Composta por cinco médicos, a CAUT decide em colégio se a documentação apresentada pelo médico do atleta é suficiente. Se achar conveniente pode exigir que se façam exames complementares. É a CAUT que decide se o atleta necessita ou não dessa medicação e verifica se há uma alternativa terapêutica”, sublinha.

O mesmo deverá passar-se nos outros países, “embora os atletas possam fazer o pedido de utilização de terapêutica à Federação Internacional da sua modalidade, quando estão em grandes eventos desportivos ao abrigo dessas federações”, ressalva. Sobre as fichas que vieram a público o diretor da ADoP diz que “cabe à WADA fazer investigação e mostrar que naqueles casos as autorizações estavam corretamente atribuídas”.

Guerra fria no desporto

Há muitos anos que já nos habituámos à ideia de haver casos de doping no desporto, uns mais escandalosos do que outros. Este ano, as coisas entraram numa nova dimensão, quando quase um terço da delegação russa ficou impedida de participar nos Jogos Olímpicos do Rio, com destaque para o atletismo, em que nenhum atleta foi autorizado a competir.

Em causa está um relatório da WADA que, no final do ano passado, revelou que os atletas russos de atletismo consumiam substâncias proibidas, que seriam patrocinadas pelo governo do país. Não terá sido por acaso que o grupo de ciberespionagem russo que tem tido como alvo os ministérios da defesa de vários países, se tenha virado para o desporto. Como o próprio Júlio Nunes reconhece, “a WADA devia esperar uma reação da Rússia e devia ter protegido melhor os seus dados”.

Os “Fancy Bears” estão a querer vingar os atletas russos e já vieram afirmar que, nos Jogos Olímpicos, os EUA tiveram uma boa prestação, mas que não foi justa. Entretanto, o governo americano está a investigar o caso, com suspeitas de que os “hackers” tenham ligação ao governo russo. Mas o porta-voz do presidente Vladimir Putin, Dmitry Pescov, negou que o país tenha alguma coisa a ver com o caso.