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Será que Sara Moreira ainda pode chegar ao ouro de Barcelona 2010? Estranho. Mas possível

Nos 5.000m do Europeu de Barcelona a atleta portuguesa foi terceira, mas a desqualificação da vencedora, por doping, deu-lhe a prata. Entretanto, a atleta que estava à sua frente também foi apanhada por consumir substâncias proibidas. A atleta diz que, a acontecer, a medalha não teria o mesmo sabor

Alexandra Simões de Abreu

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Ian MacNicol

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Já passaram seis anos desde que as atletas Sara Moreira e Jessica Augusto correram os 5.000m do Europeu de Pista de Barcelona onde alcançaram, respetivamente, a medalha de bronze e o quarto lugar. E não estaríamos agora a falar do assunto, não fosse o caso de até agora haver uma réstia de esperança de virem a ser reconhecidas como campeã e vice-campeã europeias. Estranho. Mas possivel.

Vamos à explicação. Em 2012, a Associação Internacional das Federações de Atletismo (IAAF) baniu, durante quatro anos, as atletas Alemitu Bekele e Inga Abitova e sancionou-as com a perda de todos os resultados obtidos desde 17 de Agosto de 2009, para Bekele, e 10 de Outubro de 2009, para Abitova.

Ora, durante esse período de tempo, foi disputado o Campeonato da Europa de Pista Barcelona 2010, onde Sara Moreira foi terceira classificada (com um recorde pessoal de 14.54,71 minutos) e Jessica Augusto quarta, na prova dos 5.000m, onde Bekele conquistou o ouro e Elvan Abeylegesse a prata. Em consequência destas desclassificações e com a anulação do resultado de Alemitu Bekele, as atletas portuguesas subiram um lugar na classificação geral, ficando Sara com a prata e Jessica com o bronze.

Um parentesis: quanto à prova feminina de 10.000 metros, Jessica Augusto, que à data tinha alcançado a medalha de bronze, passou a ser considerada como medalha de prata nesta disciplina, pela anulação do resultado de Inga Abitova.

Só que, entretanto, no início deste ano, a atleta turca de origem etíope, Elvan Abeylegesse, vice-campeã olímpica de 2008 nos 5.000 e 10.000 metros, surgiu numa lista de 28 atletas suspeitos de doping após a reanálise de amostras recolhidas nos Mundiais de 2005 e 2007. De acordo com fonte da Federação Turca de Atletismo, citada pela imprensa alemã, as amostras recolhidas à atleta revelaram vestígios de stanozolol. Um esteróide.

A Comissão Disciplinar da federação turca decidiu suspender por dois anos a fundista por causa de um controlo positivo no Campeonato do Mundo de Osaka, em 2007. Elvan Abeylegesse sempre rejeitou ter consumido substancias proibidas e processou a IAAF por alegados erros técnicos no teste.

“A informação que tenho neste momento é que poderei vir a ser medalha de ouro, mas não sei se vou ser. Parece que a atleta recorreu aos tribunais e essas coisas normalmente demoram muito tempo a resolver-se”, começa por dizer Sara Moreira. Colocada perante o cenário de vir mesmo a ser considerada campeã europeia de 2010, Sara reconhece que “o sabor e o impacto” de uma medalha vinda assim, à posteriori, “não é o mesmo”, mas considera que “mais vale tarde do que nunca” e que é sempre “bom repor a verdade”. Subir ao pódio e ouvir o hino claro que “teria outro significado”. Assim, fica uma espécie de “sabor amargo”.

António Júlio Nunes, diretor executivo da ADoP (Autoridade Antidopagem de Portugal) afirma que ao ter “consciência que uma possível sanção disciplinar aplicada à atleta Elvan Abeylegesse, poderia anular resultados e títulos obtidos pela mesma com efeitos retroativos, podendo dessa forma afetar diretamente resultados de provas onde participaram atletas portuguesas”, a ADoP, solicitou informações sobre o processo tanto à autoridade antidopagem turca como à IAAF. Esta última respondeu: “é do entendimento da IAAF que a atleta seja punida com dois anos de suspensão e que os resultados alcançados pela atleta, entre o período de 26 de agostos de 2007 (data do teste positivo) e 25 de agostos de 2009, sejam anulados”.

Pelo que, mesmo que a atleta perca o processo em tribunal, “a vitória da atleta a 1 de agosto de 2010, na final dos 5000m do Europeu de Barcelona, não será alterada”, esclarece o diretor executivo da ADoP. António Júlio Nunes faz questão de concluir: “ADoP não se preocupa apenas em controlar os atletas, sobretudo os portugueses, também se preocupa em os proteger, face a outros atletas incumpridores. Somos o manifesto do princípio da legalidade, somos um organismo que defende em primeiro lugar o interesse nacional.”

Sara Moreira prepara regresso

Depois da fratura de stress que obrigou Sara Moreira a desistir da maratona dos JO do Rio, a atleta está agora empenhada na sua recuperação. Esta semana começou finalmente a fazer alguma atividade fisica, embora ainda só dentro de àgua. “Mais uma ou duas semanas e serei reavaliada”, diz, confessando que espera regressar à competição ainda este ano. “Neste momento os meus objetivos são os do meu clube (o Sporting), e eles só começam no inicio do ano com o campeonato nacional de estrada, que deverá ocorrer em janeiro”, explica.

Sara adianta que gostaria de estar no campeoanto do mundo do póximo ano, em Londres, mas ainda não sabe em que distância, porque “vai depender da forma como regressar à competição”. No íntimo, confessa que quer participar na maratona, para “desforrar-me um bocadinho do que aconteceu nos JO, já que o nivel competitivo é o mesmo”. Reconhecendo que “o sonho de qualquer atleta é o pódio olimpico”, no seu horizonte estão os JO de Tóquio 2020.