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Kobe, Garnett e Duncan: três lendas que dizem adeus. Mas a NBA não vai fechar

Kevin Garnett foi a última estrela a anunciar que em 2016 não estará nos pavilhões da NBA. Kobe Bryant e Tim Duncan já o tinham feito. Os homens que marcaram a geração pós-Jordan estão a dizer adeus, mas a verdade é que a liga norte-americana de basquetebol ganha todos os dias novos motivos de interesse.

Lídia Paralta Gomes

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GABRIEL BOUYS/Getty

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“Goddamn bar fight! Bar fight, Craig! Tonight was a bar fight. Have you ever been in a bar fight? Ask Charles [Barkley], he’s been in a bar fight”

Digam adeus a entrevistas assim. Ou assim.

Na última sexta-feira, Kevin Garnett anunciou a retirada, após 21 épocas na NBA. Aos 40 anos, o último dos reis do trash-talk deixa a liga norte-americana de basquetebol, que se vai despedindo de uma geração pós-Jordan que teve a arte e o engenho de continuar o trabalho de ‘His Airness’. Se Michael Jordan ajudou a NBA a tornar-se global, gente como Kevin Garnett, Kobe Bryant e Tim Duncan manteve o radar do mundo bem em cima dos pavilhões espalhados pelas mais diversas cidades dos Estados Unidos.

Quando a 25 de outubro arrancar mais uma época regular, nenhum destes três entrará em campo, pela primeira vez em mais de duas décadas. Garnett, o último a dizer adeus, foi o primeiro a chegar, em 1995, vindo diretamente da escola secundária, algo que não acontecia na altura desde 1975. Um ano depois chegou Kobe, também ele sem passar pela universidade. E em 1997 Tim Duncan foi a primeira escolha do draft, depois de quatro anos na Universidade de Wake Forest. Agora, de um momento para o outro, o trio despede-se, obrigando à força os amantes da NBA a questionarem se não estamos perante o fim de uma era.

Arrancamos este texto com frases de uma das entrevistas de campo mais inacreditáveis que há memória. Em pouco mais de um minuto, Kevin Garnett compara a recuperação de 27 pontos dos Boston Celtics em casa dos Orlando Magic, em 2012, a uma rixa de bar. Pelo meio, pergunta a Craig Sager, um dos mais icónico repórteres desportivos da TV norte-americana (nomeadamente pelo seu gosto a vestir), se já andou à pancada num bar e, caso não tenha andado, para perguntar a Charles Barkley, que em 1997 foi preso depois de atirar um homem pela janela de um pub, precisamente em Orlando.

A conversa, intensa, caótica - como tudo em Kevin Garnett - segue, com o extremo a pedir desculpa a Sager por estar ele próprio a conduzir a entrevista. Fala-se um bocadinho do jogo até que o gigante Garnett se lembra de dar os parabéns ao colega Ray Allen, que tinha sido pai. Diz a Sager que ele está “muito bonito” e remata com uma mensagem para a filha: “Vai para a cama, Boo”.

Também podemos falar da história contada por Tyronn Lue, atual treinador do Cavaliers, sobre uma estranha noite em que viam na televisão uma competição entre rappers - Garnett, de tão entusiasmado com a luta, enfiou a cabeça contra uma parede. A KG não aconteceu nada, na parede ficou um buraco. Ou daquele desconto de tempo em que Garnett berrou de tal forma a Glen Davis que o rapagão de 2,06 m e 130 quilos não evitou as lágrimas.

Isto era Kevin Garnett e é isto que a NBA vai perder. Isto e aquela arrogânciazinha de Kobe, de quem sabe que tem um talento maior. Ou, num plano contrário, a absoluta discrição de Tim Duncan. A liga ficará agora entregue a outros, talvez mais bem comportados, mas também mais frios, mais comedidos. Tentem ir ao YouTube e encontrar uma entrevista de LeBron James em que este saia do tom. Ou Kevin Durant a ser bad boy. Pois.

Kobe e Kevin Garnett em 2003

Kobe e Kevin Garnett em 2003

STEWART COOK/Getty

Miguel Barroca tem 32 anos e lembra-se bem da chegada do trio à NBA. “Acompanhei mais o Kobe Bryant, porque é um ídolo para mim. Aos 17 anos, o Kobe já era o Kobe. Mas recordo-me que havia grande expectativa em relação ao Garnett na altura, por causa da idade”, conta o comentador da Sport TV e jogador do Algés. Em 1995, chegar à NBA diretamente do high school não era a regra. “Com o Duncan havia a dúvida: era muito alto e não se sabia como o jogo dele se ia adaptar ao do David Robinson nos Spurs. A verdade é que não podia ter corrido melhor”, conta Miguel, lembrando o impacto praticamente imediato dos três: “Entraram pela porta grande”.

Também não saíram mal. Kobe fechou a carreira com 37 anos e cinco títulos, depois de uma vida inteira vestido com o amarelo e púrpura dos Lakers. Duncan, de 40 anos, tem também uma mão cheia de anéis, sempre com os San Antonio Spurs. Garnett foi o único que esteve em mais do que uma equipa: depois de 12 anos nos Minnesota Timberwolves, foi para os Boston Celtics em 2007, onde ganhou o seu único título. Passou ainda pelos Brooklyn Nets (2013-2015), antes de voltar à casa de partida há um ano.

Juntos têm 11 títulos da NBA, quatro distinções de MVP (Duncan com duas e Kobe e Garnett uma cada) e 48 seleções para o All-Star.

O que eles trouxeram

Pedimos a Miguel para nos explicar o impacto de Kobe Bryant, Kevin Garnett e Tim Duncan na liga. E o base, filho de Carlos Barroca e que, entre outros clubes, passou pelo Benfica, Académica e Física, “rouba” as alcunhas dadas ao trio para nos dizer o que eles trouxeram ao jogo.

“A responsabilidade da transição do pós-Jordan é principalmente do Kobe, ele assumiu essa responsabilidade, mas a liga tem crescido de tal forma que dar-lhe o destaque total é injusto. O Kevin Garnett ganhou apenas um título mas era um jogador de uma raça enorme. Era conhecido como o ‘The Big Ticket’ também pela forma intensa como encarava cada adversário, nunca virou a cara à luta, fosse a melhor ou a pior equipa. Nos últimos anos já não jogou tantos minutos, mas funcionou como um mentor para os miúdos, era uma voz muito presente em campo, importante numa equipa tão jovem com é a dos Wolves”, conta Miguel.

Já Duncan fica na história como “The Big Fundamental”. “Parecia um jogador parado e lento, mas tinha uma técnica e um sentido posicional tremendos, tanto a atacar como a defender. Conhecia muito bem os fundamentos do basquetebol”.

Tim Duncan: "The Big Fundamental" anunciou a retirada aos 40 anos

Tim Duncan: "The Big Fundamental" anunciou a retirada aos 40 anos

Patrick Smith/Getty

Por fim, o Kobe Bryant, o preferido de Miguel, o “Black Mamba”: “Tinha aquele instinto assassino que só se vê em dois ou três jogadores. É por isso que o coloco ao lado do Michael Jordan. Nos momentos mais difíceis estava lá, não se encolhia e normalmente resolvia. Mexeu a liga com a sua irreverência. Alguns dizem que era demasiado individualista, mas foi assim que ganhou cinco títulos”.

Em 2021, Kobe, Duncan e Garnett tornam-se elegíveis para o Hall of Fame da NBA, distinção que imortaliza os melhores de sempre da liga, e para muitos está encontrada a melhor classe da história. Mesmo que em 2016 Shaquille O’Neal, Allen Iverson e o chinês Yao Ming tenham sido os eleitos.

A escolha entre o melhor trio é, no mínimo, complicada. “Acho que tínhamos de colocar os seis num campo a jogar um 3x3 [risos]. É injusto comparar, para mim a deste ano é a melhor de sempre, mas quando chegar a vez de Kobe, Duncan e KG também vai ser histórico”, diz-nos Miguel Barroca.

Saudosismo? A NBA continua elétrica

A saída destes jogadores vai deixar a NBA, de uma assentada, sem três das maiores figuras da história do jogo. O pânico. A desgraça.

Nada disso. Miguel Barroca acredita que a liga tem muito para oferecer, até porque o trio estava já numa fase descendente a nível físico. Habituar-nos à sua ausência será mesmo o mais difícil. “Essencialmente vai sentir-se alguma estranheza. Vai ser estranho entrar no Staples Center [casa dos Lakers] e não ver o Kobe Bryant, ir a San Antonio e não estar lá o Tim Duncan. O mesmo em Minnesota, ainda que o Kevin Garnett não tenha estado sempre na mesma equipa”, diz-nos Miguel, lembrando que há “outros grandes jogadores na NBA e novos a chegar todos os anos”.

Kobe Bryant durante o jogo de despedida, em abril. Marcou 60 pontos frente aos Jazz

Kobe Bryant durante o jogo de despedida, em abril. Marcou 60 pontos frente aos Jazz

Harry How/Getty

“Há uma grande geração aí, que é a próxima que vai abandonar. A geração do LeBron James, do Carmelo Anthony, do Dwyane Wade, do Chris Bosh”. Todos chegaram à NBA em 2003 e Barroca acredita que “ainda têm muito para dar”, apesar de Bosh estar em risco de deixar de competir por motivos de saúde. O jogador e comentador recusa saudosismo e sublinha que na NBA “há sempre coisas novas para fascinar e agarrar” quem se habituou às longas madrugadas passadas em frente à televisão.

“Nos próximos anos vamos ter, por exemplo, o Steph Curry, que anda aí a bater recordes e que se continuar assim vai acabar a carreira com números incríveis”. A partir de 25 de outubro, cá estaremos, prontos para abdicar de sono, à espera destes novos ídolos, agora que as lendas decidiram que era hora de descansar.