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Preparem as canecas de café: a NBA está de volta

A temporada 2016/17 da liga norte-americana de basquetebol regressa para baralhar o nosso sono. Cleveland e Golden State, finalistas da última temporada, jogam já esta madrugada, num arranque que promete: os campeões Cavaliers recebem os Knicks (às 0h30 de Lisboa) e os Warriors estreiam-se frente aos San Antonio Spurs (3h30). A longa espera terminou, depois de uma movimentada pre-season com retiradas marcantes e mudanças de equipa inesperadas

Lídia Paralta Gomes

Stephen Curry, dos Golden State Warriors, e LeBron James, dos Cleveland Cavaliers, nas finais de 2016. Uma imagem que poderá muito bem repetir-se lá para a primavera de 2017

Bob Donnan - Pool/Getty

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Stock de café reposto? Maquilhagem contra olheiras comprada? Desculpas para chegar tarde ao emprego bem trabalhadas? Se não, apressem-se, porque a nova temporada da NBA arranca esta madrugada - infelizmente, o mundo continua a ser um local onde há fusos horários - e logo com os finalistas da última época em ação.

A NBA é território de tradições - a melhor, na nossa modesta opinião, são os jogos no dia de Natal - e por isso quem abre a época são os campeões de 2015/16, os Cleveland Cavaliers. A equipa de LeBron James, Kyrie Irving e Kevin Love recebe os Knicks, que foram buscar Derrick Rose a Chicago mas que nem assim deverão fazer cócegas àquilo que parece inevitável: mais um ano de total domínio dos Cavs no Este, por falta de comparência dos rivais.

No Oeste, há um Portland-Utah a abrir (às 3h00), mas apesar dos Blazers terem um dos bases mais competitivos da liga, Damian Lillard - que além disso é um rapper de mão-cheia -, todos querem é acompanhar a visita de uns Spurs órfãos de Tim Duncan (mas com Pau Gasol) ao pavilhão dos Golden State Warriors, que já tinham Curry e agora também têm Durant, na mudança de equipa mais fraturante desde que LeBron James decidiu anunciar ao vivo na TV que ia levar os seus talentos para Miami.

Esta foi ‘A’ história da pre-season, mas a temporada que começa esta terça-feira terá mais uns quantos atrativos capazes de nos deixar acordados até horas indecentes.

Durant à procura do anel em Oakland

Foi o escândalo: Kevin Durant, o bom rapaz que se fartou de chorar no discurso de aceitação do prémio de MVP de 2014, deixou para trás a equipa que o recebeu na NBA, os Oklahoma City Thunder, e foi atrás do ouro para a Califórnia, ao assinar com os Golden State Warriors. Curiosamente a equipa que afastou os Thunder das finais de 2016.

Em nove temporadas nos Thunder, Durant fez com o base Russell Westbrook uma das duplas mais dinâmicas e prolíficas na NBA e parecia que era uma questão de tempo até o título chegar a Oklahoma City, um dos mercados mais pequenos do campeonato e onde os dois eram heróis locais. A verdade é que anéis nem vê-los e Durant, que além de MVP tem quatro títulos de jogador com melhor média de pontos da temporada, acreditou que aos 28 anos era hora de seguir para outras paragens com mais talento, para evitar entrar na infame lista dos melhores jogadores que não venceram qualquer campeonato.

Durant e Curry: uma dupla de lançadores temível

Durant e Curry: uma dupla de lançadores temível

Ezra Shaw/Getty

“A primeira coisa que pensei quando tomei esta decisão foi no meu crescimento enquanto jogador. Mas cheguei a um momento da minha vida em que também procuro crescimento enquanto homem e por isso saio da minha zona de conforto rumo a uma nova cidade e a uma nova comunidade”, escreveu Kevin Durant na plataforma The Players’ Tribune, onde anunciou a mudança.

A surpresa foi grande, o medo dos rivais ainda maior e as palavras de Durant não emocionaram ninguém porque as críticas choveram: uma equipa com Kevin Durant, Stephen Curry, Klay Thompson e Draymond Green parece virtualmente impossível de bater e toda esta concentração de talento numa liga que trabalha para ser competitiva e equilibrada não caiu nada bem.

Charles Barkley é um dos tais melhores jogadores de sempre sem um anel da NBA no currículo. E por isso foi um dos mais duros com a escolha de Durant. “Para mim é um problema quando um grupo de jogadores se reúne e diz ‘Vamos dominar a liga’, tentando forçar o caminho até ao campeonato. Não queres que haja competição? Adorava voltar atrás, ligar ao Michael Jordan, ao Larry Bird e ao Magic Johnson e dizer-lhes ‘bora lá dominar a NBA’”.

Paul Pierce, que ainda anda pelos pavilhões da NBA - não por muito tempo, mas isso fica para depois -, também não foi simpático para Durant. “Sempre acreditei que quando queres ser o melhor, deves vencer os melhores. E para mim é simples: quando estás tão próximo de um objetivo, não vais para a equipa que te afastou dele”, atirou o extremo de 39 anos, campeão pelos Celtics em 2008.

A escolha de Durant colocou os Golden State Warriors numa posição até agora desconhecida. “Se Durant escolheu o caminho fácil, como muitos dizem, está no seu direito, mas não se livra das críticas e de fazer dos Warriors os novos vilões da NBA. Esse será um dos motivos de interesse da temporada: até agora, Steph Curry e companhia eram os meninos bonitos da liga. Vamos ver como vão lidar com esse novo rótulo”. As palavras são de Ricardo Brito Reis, que a partir de hoje também vai dormir um bocadinho menos: além de treinador, é um dos membros do quinteto que comenta os jogos da NBA na SportTV.

LeBron de olho em Jordan

Depois de vencer dois anéis em Miami, LeBron James voltou ao seu Ohio natal em 2014 com uma missão: levar os Cleveland Cavaliers pela primeira vez a um título da NBA, em 44 anos de história. Não aconteceu na primeira época, mas na segunda não falhou, com os Cavs a baterem na época passada os Warriors no 7.º jogo, depois virarem uma desvantagem de 3-1 na série. LeBron foi o MVP das finais.

Aos 31 anos, LeBron tem três títulos no bolso, mas a sua ambição é ser maior que Michael Jordan. Ou seja, igualar ou ultrapassar os seis títulos de His Airness.

“LeBron faz 32 anos em dezembro, mas é um jogador que tem muitos cuidados com o corpo. Acredito que ainda tem mais quatro ou cinco épocas de rendimento ao mais alto nível. Ele quer ser melhor que Jordan e, se ganhar o título esta temporada, ficará mais perto. Não é impossível, mas será muito difícil”, diz-nos Ricardo Brito Reis, que é também um dos autores do podcast semanal MVP, sobre atualidade da NBA.

Um 4.º título colocaria ‘King James’ num grupo de 12 jogadores que chegaram aos quatro anéis, onde estão, por exemplo, Robert Parish, Shaquille O’Neal ou, entre os que estão ainda no ativo, Tony Parker e Manu Ginobili. Isto numa temporada em que “estreia” um novo contrato: assinou por três épocas com os Cavs, por meros 100 milhões de dólares, pelo que este ano será pela primeira vez na sua carreira - por incrível que possa parecer - o jogador mais bem pago da NBA.

LeBron James procura a 7.ª final seguida e o 4.º título

LeBron James procura a 7.ª final seguida e o 4.º título

Aaron Doster

LeBron pode ainda atingir esta temporada outro número impressionante: caso Cleveland vença a Conferência Este, será a 7.ª vez consecutiva que James joga a final da NBA. Um feito que só tem paralelo nos anos 60, quando os Celtics de Bill Russell jogaram 10 finais seguidas, numa altura em que a liga tinha menos 10 equipas e muito menos jogos. E a probabilidade de tal acontecer é grande, já que, no papel, os Cavs são superiores a Raptors, Pacers, Celtics ou Bulls. Mas tudo dependerá do estado físico de Kevin Love e Kyrie Irving, mais propensos a lesões que todo o plantel do Benfica junto.

(Justiça seja feita: há outro jogador que pode chegar às sete finais seguidas. O seu nome é James Jones, passa muito mais tempo no banco de suplentes do que a jogar, mas é um dos homens de confiança de LeBron, que não abdicou dele em Miami e levou-o para Cleveland. Como basquetebolista é fracote, mas está sempre nomeado para o prémio de melhor colega de equipa e é respeitado ao ponto de ser o tesoureiro da Associação de Jogadores da NBA).

Farewell Kobe, Duncan e Garnett

“Vai ser muito estranho não ver Kobe, Duncan e Garnett em campo. Creci a acompanhar a carreira dessas três lendas e, agora, a liga perde algumas das suas principais referências”. Ricardo Brito Reis é outro dos amantes da NBA que se sente órfão. A época que arranca hoje será a primeira em mais de 20 anos sem o trio de futuros hall of famers. Já falámos sobre a retirada de Kobe Bryant, Tim Duncan e Kevin Garnett aqui na Tribuna, mas não é demais recordar, até porque também é uma das histórias desta nova época.

O comentador da SportTV vai sentir falta sobretudo de ver os Lakers sem Kobe e os Spurs sem Duncan. “São dois atletas que representaram as respetivas equipas durante duas décadas e, por isso, confundem-se com as próprias equipas. Garnett, apesar de ter trocado de equipa nos anos mais recentes, também deixa uma marca muito vincada na modalidade, pelo seu compromisso com o jogo”, diz Ricardo Brito Reis que, no entanto, acredita que há “outros atletas a despontar” e que por isso “o interesse continua lá porque novas referências que vão acabar por surgir”.

E se Kobe, Duncan e Garnett já disseram adeus (Garnett foi o último a fazê-lo, em setembro), outros preparam a reforma. A época 2016/17 será a última de Paul Pierce e Dirk Nowitzki vai decidir no final da época se ainda tem pernas para mais um ano de competição.

O que valem Knicks e Bulls?

São duas das equipas históricas e dois dos maiores mercados da NBA mas a nível de resultados a coisa não anda famosa nos últimos anos. New York Knicks e Chicago Bulls nem sequer chegaram aos playoffs na última época e por isso reforçaram-se muito na pre-season. Mas, adeptos dos Knicks e dos Bulls, acalmem lá o entusiasmo. Porque muito nem sempre quer dizer bem.

Foi exatamente a Chicago que os Knicks foram buscar os dois reforços mais sonantes: Derrick Rose, MVP em 2011 mas que agora é mais prémio “Rapaz de cristal”, tal o número de lesões que sofreu nos últimos anos, e Joakim Noah, que vem de grave lesão no ombro esquerdo. Já os Bulls contrataram Rajon Rondo e promoveram o regresso a casa de um homem de Chicago, Dwyane Wade. Duas estrelas que sabem o que é ganhar um campeonato mas de temperamento volátil.

Rose trocou Chicago por Nova Iorque

Rose trocou Chicago por Nova Iorque

Scott Halleran/Getty

E então o que podem fazer Knicks e Bulls esta temporada? “Nada de extraordinário”, garante-nos Ricardo Brito Reis: “Os Knicks construíram uma boa equipa para ganhar o título, mas só se for o de 2010! Foram buscar jogadores no ocaso da carreira ou com um historial grande de lesões. Ainda assim, deve chegar para ir aos playoffs e, talvez, passar a 1.ª ronda. Playoffs é algo que já duvido mais quando se fala dos Bulls. Contrataram atletas muitos semelhantes – não têm um único lançador exterior no plantel. E é preciso perceber como se vão encaixar os egos de Rondo, Wade e Jimmy Butler”.

Favoritos e destaques

Todos os anos a NBA promove uma sondagem aos 30 general managers das 30 equipas da liga sobre quem serão os melhores da temporada. Sem surpresa, 69% dos responsáveis acreditam que os Golden State Warriors e o seu novo trio-maravilha (Durant-Curry-Thompson) vão recuperar o título perdido na última época para os Cavs, os segundos favoritos ao anel, com 31%.

O ‘nosso’ especialista também não consegue vislumbrar outro cenário. “Os principais favoritos a vencer o título são os Warriors e, logo atrás, os Cavaliers. São, por isso, as equipas que deverão conquistar o troféu nas respetivas conferências. Não acredito que haja alguma equipa capaz de lhes fazer frente”, vaticina Ricardo Brito Reis.

Já quando falamos do jogador que mais se vai destacar, Ricardo discorda dos general managers, que apontam LeBron James como futuro MVP: “Como tem acontecido nos últimos anos, o LeBron vai aproveitar o domínio dos Cavs no Este para se poupar para os playoffs. Já o Steph Curry terá de dividir o protagonismo com o Kevin Durant nos Warriors. Assim, acredito que vão surgir outros jogadores com números individuais de maior relevo, como o Russell Westbrook [Thunder] e o Paul George [Pacers]. E atenção ao Karl-Anthony Towns, dos Minnesota Timberwolves”.

É o que vamos fazer, a partir desta noite.