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“Mudei quando vi que o meu filho me tentava imitar, pondo pauzinhos à boca, porque via o pai sempre com um cigarro. Chocou-me”

O Parque Nacional Peneda-Gerês recebe este sábado o Campeonato Mundial de Trail e o organizador Carlos Sá explicou à Tribuna como passou de sedentário a ultramaratonista – e apreciador de expedições inóspitas, como uma travessia de 600 km na Gronelândia: “Descansávamos cinco horas por noite e depois seguíamos, mas aquilo para mim estava a ser um prazer”

Mariana Cabral

Carlos Sá tem 42 anos e é ultramaratonista

DR

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É a primeira vez que Portugal recebe o Mundial de Trail. Que competição é esta?
Estamos a falar da sexta edição do Mundial, que é uma prova única, disputada numa só etapa de 85 km. As expetativas de todos são muito altas e o que espero é organizar uma grande prova e proporcionar a estes 38 países o melhor Mundial de sempre. É tão simples quanto isto. Este Mundial para nós até já vai a meio, porque já organizámos uma série de iniciativas, como um Mundialito com crianças. Para já está a correr melhor do que esperávamos e o São Pedro está do nosso lado também.

Como é se conseguiu ficar com a organização da prova?
Portugal é um país sem grande tradição de montanha, ou seja, não temos montanhas com grandes altitudes, comparando com os últimos Mundiais, nos Alpes, nos Pirinéus... Não temos essas caraterísticas mas temos outras coisas. Temos um povo muito acolhedor, temos uma grande cidade como é Braga, que serve de entrada para o Parque Nacional da Peneda-Gerês, temos as vilas de Terras do Bouro, Gerês, Ponte da Barca, Arcos de Valdevez, Montalegre, Melgaço... São vilas com infraestruturas para receber eventos com esta dimensão e depois temos ao lado aldeias completamente paradas no tempo, preservadas com a sua alma histórica. Estas nações que nos visitam ficam deslumbradas com aquilo que encontram aqui. A 40 quilómetros de uma grande cidade há património, quer cultural, quer paisagístico, quer humano, ainda bastante preservado.

O Carlos conhece perfeitamente essa zona.
Sim, conheço tão bem o Gerês como a aldeia onde nasci, Vilar do Monte. Para mim foi uma grande aposta tentar ajudar este Parque Nacional e todas estas comunidades. Quisemos ajudar a promover esta zona como um destino de eleição, um destino único.

Só organiza, já não corre?
Nestas últimas semanas tenho estado muito focado na organização. Habitualmente treino diariamente na Serra de Arga, que está muito próxima da minha casa, ou no Parque Nacional Peneda-Gerês. Passo horas e horas a fio nestes dois sítios e conheço-os muito bem. Sei o potencial que têm e o que falta é mesmo promover, é mostrá-los ao mundo e as pessoas acreditarem que vale a pena vir para o nosso país.

Fica com pena de não participar?
Tem de ser, o diretor da prova não pode correr. Mas quando começar a competição já vou estar mais cansado do que estaria no final, se corresse. É lógico que, por um lado, fico triste, porque é um percurso completamente dominado por mim e é o meu local de treino. Mas também tenho noção que é muito importante pôr isto tudo a acontecer, é uma responsabilidade enorme, mas temos um staff fantástico e todos estes municípios têm acreditado muito neste projeto, temos tido um apoio incondicional, deles e dos patrocinadores, porque este é um evento que custa muito dinheiro e só acontece em Portugal porque Espanha não teve essa capacidade financeira. A organização deles tinha isto em mãos mas não conseguiu reunir todos os elementos. Portugal consegue organizar um Mundial de Trail antes de Espanha, o que é um motivo de orgulho para nós.

Estamos a falar de quanto dinheiro?
São muitos milhares de euros. Inicialmente o orçamento previsto estaria na casa dos €300 mil, mas só no final é que vamos fazer as contas.

Carlos Sá começou a correr ultramaratonas em 2008

Carlos Sá começou a correr ultramaratonas em 2008

Ana Baião

Em que moldes decorre o Mundial?
Cada seleção nacional - são 38 - pode trazer no máximo nove atletas masculinos e femininos, sendo que apenas seis pontuam. Estamos a falar de cerca de 300 atletas a competir, mais as equipas técnicas e médicos, portanto cerca de 400 pessoas.

Há quanto tempo não corre?
O problema não é o correr, é o descansar. Estas últimas duas semanas têm sido de dias e dias a dormir muito pouco, os mínimos dos mínimos, com algumas diretas pelo meio. Portanto não adianta muito correr quando o corpo precisa é de descansar e relaxar. Tenho estado a gerir e espero que a partir do dia 30 já volte tudo a entrar nos eixos para preparar já a próxima época.

Quantos quilómetros costuma correr por dia?
Quando estou muito focado numa prova treino duas vezes por dia, em média 200 km por semana. Ao fim de semana faço quatro, cinco, seis horas, depois há outros dias que só corro uma hora, outros em que faço uma hora e meia de manhã e uma hora e meia de tarde... Depende.

Quando está a correr ainda consegue maravilhar-se com a paisagem ou passa e não vê nada?
Ah, quando estou a treinar é uma autêntica diversão. Principalmente nos treinos mais longos, tento ir para zonas que não conheço ou que não conheço tão bem, para me abstrair até das horas. Estamos sempre a descobrir sítios novos, às vezes até no Google Earth, há sempre algo novo para ver.

Tem medo quando vai sozinho para zonas isoladas?
Sim, há sempre esse risco, mas por isso é que antes de sair de casa normalmente digo sempre à minha esposa que treino é que vou fazer e para onde é que vou, e levo sempre o telefone. Há sempre alguns cuidados antes de ir correr.

Quando é que começou a correr a sério?
Acho que a nossa vida é sempre uma caixa de surpresas e a minha não é diferente. Costumo dizer que perdemos demasiado tempo a planear o futuro e o futuro é sempre amanhã e nem sempre sai como queremos. Hoje pensamos de uma forma e daqui a um ano já pensamos de outra e o mundo evolui a uma velocidade louca e vai-nos mostrando caminhos diferentes a toda a hora. Temos de estar preparados para mudar a qualquer momento. E a minha vida tem sido um autêntico acidente. Tive uma fase em que tinha demasiado peso, mas depois comecei a praticar desporto, a andar de bicicleta, a fazer alpinismo, a entrar em atividades de montanha e depois a correr e a treinar regularmente. Isto tudo muito rápido, porque começo a ganhar qualidade de vida. Em 2004 já estava nos Pirinéus a fazer uma expedição, em 2005 já estava nos Andes, no Peru, a fazer montanhas de mais de seis mil metros de altitude... E por aí fora.

De repente já era um atleta.
Começo nas maratonas, a participar em provas internacionais, e começo a ganhar logo nas primeiras participações. Acho que tenho jeito para isto e é uma grande paixão. Correr é a melhor forma de descobrir o mundo. Tem sido uma evolução alucinante, porque também tenho organizado eventos, depois de descobrir estas provas fantásticas que há no mundo. E as pessoas também começam a querer praticar esta modalidade. Recordo que no início éramos cerca de 200 pessoas a participar neste tipo de provas em Portugal e depois passámos para 700, mil e duas mil e tal. Sempre a crescer. E hoje estamos a organizar um Campeonato do Mundo, seis anos depois de eu organizar a minha primeira prova. É absolutamente fantástico para a modalidade, porque foi um crescimento que era impensável há quatro, cinco, seis anos.

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Recentemente soube-se que a educação física vai voltar a contar para a média escolar. Parece-lhe importante mostrar ao jovens que o desporto promove essa qualidade de vida?
Sem dúvida. Faço muitas palestras nas escolas a falar precisamente sobre isso. Conto a história do Carlos que na altura cometeu muitos erros mas que percebeu que a qualquer momento é possível mudar de vida e ter resultados fantásticos. Nós com qualidade de vida ficamos mais concentrados, menos stressados... E infelizmente as nossas crianças hoje, ou melhor, os pais, porque eu também sou pai, às vezes estamos demasiados ocupados e queremos é ter os filhos entretidos - e às vezes é mais fácil dar-lhes um telefone ou um computador para as mãos para não nos chatearem do que pegar na bicicleta ou ir passear com eles para o parque. As crianças precisam de uma atividade desportiva equilibrada para serem felizes.

Os seus filhos também correm?
Quero é que os meus filhos sejam felizes. Não quero imitações. O meu filho joga futebol e a minha filha faz natação. Quando o pai vai para a montanha fazer caminhadas, de uma forma mais lúdica, eles acompanham e gostam. E fazem parte do staff nas organizações, porque isto é um projeto de família e gosto que eles tenham esta cultura desportiva, de estarem ativos.

Qual foi o clique para si? O que é que o fez mudar tudo?
Primeiro é preciso tomarmos consciência da forma em que estamos e depois é preciso uma coragem muito grande para mudar as coisas. Isso aconteceu comigo porque vi que o meu filho me tentava imitar, pondo pauzinhos à boca, porque via o pai sempre com um cigarro na boca. Isso chocou-me. Não era essa imagem que tinha de dar ao meu filho. É sempre para amanhã, para amanhã, mas há um dia em que nós temos de tomar uma atitude. Basta força de vontade, não é preciso mais nada.

As expedições e corridas que faz são difíceis de completar ou é sempre um prazer?
É tudo um prazer. A aventura mais extrema e inóspita que fiz foi a travessia da Gronelândia, cerca de 600 km. Atravessar aquela ilha gelada de uma costa à outra, de trenó. É uma expedição polar, sem condições nenhumas, a correr alguns riscos. Foram 12 dias de travessia e ao longo de 12 dias nunca tivemos mais do que um horizonte branco à nossa frente. Praticamente não fazia noite, era sempre de dia e havia ali uma hora de lusco fusco só. Víamos tudo branco, completamente plano, e tínhamos de nos orientar com o GPS. Não havia referências. Descansávamos cinco horas por noite e depois seguíamos, mas aquilo para mim estava a ser um prazer. Estava ali a fazer e já estava a pensar noutros voos, se calhar polo norte, polo sul. Quando entramos neste nível de ambição de querer fazer coisas extraordinárias queremos sempre mais.

Tudo branco, não se vê nada, não há nada... Pensa-se em quê?
Quer dizer, nos doze dias vi um pássaro a passar [risos]. Impressionante. São autênticos momentos de meditação pessoal. Nós aqui durante a nossa vida normal estamos sempre rodeados pela internet, pelos telefones, pelos amigos... sempre numa correria. Não temos tempo para pensar, organizar as nossas ideias. Ali não. Ali somos nós e nós. Tinha lá mais três amigos mas nós não conseguíamos falar uns com os outros porque estávamos sempre debaixo de um vento fortíssimo. Os colegas estavam a dois metros e não conseguíamos ouvir ninguém. Só mesmo dentro da tenda, mas quando estávamos dentro da tenda caíamos para o lado mortos e descansávamos. Portanto são dias em que praticamente não comunicamos.

Pretende continuar a fazê-lo até quando?
Enquanto o meu corpo me permitir e a minha cabeça estiver focada. Espero que a minha carreira esteja ainda a começar e não perto do fim. Tenho sempre como referência um senhor italiano chamado Marco Olmo, que com 58 anos venceu a prova de Monte Branco, que é a principal prova destas ultramaratonas. Tenho 42 anos e até aos 58 ainda tenho muito para dar à modalidade e ao país.