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“Não falamos muito de ténis de mesa em casa, a minha mulher não gosta”

Acabou o jogo, abraçou-a, pegou-lhe quase ao colo e beijou-a. João Pedro Monteiro e a romena Daniela Dodean estiveram lado a lado, no último fim de semana, a jogarem ténis de mesa. Foram campeões europeus em pares mistos e foi a primeira vez que um casal conquistou uma medalha de ouro. Ele disse-nos que nunca tinham jogado juntos e que o ténis de mesa nem costuma ser tema lá em casa

Diogo Pombo

ATTILA KISBENEDEK

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Não o apanho à primeira, na ressaca do fim de semana. Ele vai viajar, está prestes a apanhar o avião. A conversa fica para dali a três dias, quando estiver de volta e com a raquete arrumada. Por volta da hora combinada, atende o telemóvel e pede mais uns minutos. Está “em tratamento”, a cuidar do braço que, menos de uma semana antes, já lhe dói quando partilha um lado da mesa com uma mulher. Fez vários jogos com ela, a mãe da filha que tem, com quem se casou há três anos. Tudo por causa do ténis de mesa.

João Pedro Monteiro conheceu Daniela Dodean em Itália. Já a tinha visto noutros lados, equipada, concentrada e a jogar. Sabia quem a romena era, mas a conversa nunca fora com eles. Achava-a uma “mulher bonita”, engraçada e com quem engraçava, e o facto de estarem juntos no mesmo país fê-lo dar o primeiro passo. Namoraram, casaram, foram pais e, depois, faltava-lhes o que nunca tinham feito. Partilhavam uma profissão, mas nunca tinham pegado na raquete no mesmo jogo, a revezarem-se nas pancadas que atiram a bola para o outro lado da rede. E, diz o português, “ela até estava um bocado reticente”.

Receava que o ténis de mesa a dois, ao mesmo tempo, os fizesse levar coisas para casa. Discussões, birras ou desentendimentos. Aconteceu o contrário - pela primeira vez, um casal venceu o Campeonato da Europa na variante de pares mistos. No último ponto, Daniela ficou radiante, saltou para o colo de João, trocaram um beijo e festejaram. Pelo terceiro ano seguido, o português saiu de um Europeu com uma medalha de ouro (em 2014, em equipas, com Portugal; em 2015, em pares, com o austríaco Stefan Fegerl). E agora será boa altura para o casal falar de ténis de mesa lá em casa, algo que, pelos vistos, não costumam fazer.

O que se passa com o braço?
Tenho um bocadinho de inflamação no supraespinhoso.

Ok, não sei bem o que isso é.
É uma pequena tendinite. Por acaso é no braço direito, curiosamente.

Isso aconteceu durante o Europeu?
Sim. Já antes da final dos pares mistos tinha sentido dor. Depois foi-se agravando de dia para dia. Fui jogando um bocado limitado.

Mas deu para seres campeão com a Daniela, tua mulher.
Sim, é um sentimento espetacular, muito bom. Depois, juntar a isso o facto de ter sido com a minha mulher, claro que é a cereja no topo do bolo. Foi um momento bastante feliz para os dois. Estamos muito contentes e há poucas palavras que possam descrever este tipo de momentos.

Pensavam em jogar juntos há muito tempo?
Já tinha falado com ela, desde o momento em que soubemos que o Europeu ia ter a prova de pares mistos. Fomos conversando, aos poucos, até que, há dois meses, falámos um bocado mais a sério. A minha mulher estava um bocadinho reticente.

Porquê?
Não sei, porque podia acontecer que a gente, às vezes, não se entendesse durante o jogo. Podia dar confusão entre os dois.

E começarem a discutir por causa do ténis de mesa?
Exatamente. Então ela estava um bocado reticente. Mas consegui convencê-la e pronto, esta conquista, o que posso dizer… Foi bom termos jogado os dois. O meu jogo encaixa bastante bem no jogo da minha mulher, as coisas foram-nos correndo bem logo desde o início, fomos ganhando confiança e melhorando a nossa performance. No final, fomos uns justos campeões da Europa.

Nunca tinham competido juntos?
Não, foi a primeira vez. E também foi a primeira vez que um casal é campeão da Europa. É histórico na modalidade.

Costumam treinar juntos?
Eu treino mais com os meus colegas da seleção, mas, às vezes, treinamos um com o outro. Não em pares, mas um com o outro.

Agora a vossa história. Como é que se conheceram?
É assim, eu já conhecia a minha mulher do ténis de mesa, das provas, mas não tínhamos um grande contacto. Aproximámo-nos quando eu fui jogar para Itália. Ela já jogava lá num clube e pronto, fomo-nos conhecendo aos poucos. Além de gostar dela fisicamente, e de a achar uma mulher muito bonita, fui gostando bastante da personalidade dela. E pronto, começámos a namorar e já são oito os anos que estamos juntos, três dos quais casados.

O ténis de mesa nunca se meteu no meio da relação?
Não falamos muito de ténis de mesa em casa, a minha mulher não gosta. De vez em quando sim, falamos, quando são coisas importantes, de jogos que eu, ou ela, tenhamos feito. Sobre coisas que um ou outro possam melhorar. Falamos de vez em quando, só. Não perdemos muito tempo em casa a falar sobre ténis de mesa, já é suficiente o tempo que estamos nos treinos e nos jogos. Agora temos uma filha e tentamos aproveitar ao máximo o tempo que temos com ela.

Nunca discutiram por causa do ténis de mesa?
Não, não.

[entretanto, interrompemos a conversa por uns segundos porque João está com o carro numa bomba de gasolina, e alguém lhe diz que não pode estar ali a falar ao telemóvel.]

Imagino, portanto, que não tenham uma mesa em casa.
Não temos, não.

Onde vivem agora?
Estamos no Porto, a treinar no Centro de Alto Rendimento do Douro, em Gaia. Estamos cá a viver há sensivelmente um mês. Vamos ficar por aqui.

Vão os dois ter a mesma vida: treinar em Portugal e jogar fora?
Sim, é bastante cansativo. Não só pelo cansaço em si, mas também porque estamos bastante tempo sem ver a nossa filha. Se formos somar os dias todos, num ano, em que não a vemos, claro que é bastante duro. Mas percebemos que é a nossa profissão e a forma de, mais tarde, lhe podermos dar uma vida melhor. É por ela que fazemos isto.

Como fizeram durante o Europeu? Ela viajou com vocês?
Não, ela ficou com os meus pais. Agora, que estamos num período com bastantes jogos, está cá a minha sogra, durante 10 dias. Pronto, vamos alternando entre os meus pais e os pais da minha mulher. Quando estamos os dois fora, a menina tem que ficar com alguém.

Pelo terceiro ano seguido, saíste de um Europeu com uma medalha de ouro. Vocês vão continuar a competir juntos?
Para o ano, no fim de maio/início de junho, vai haver o Campeonato do Mundo que, além da prova individual, também terá a de pares mistos. Ainda não falei com a minha mulher sobre isso, mas estava a pensar também jogar com ela.

ATTILA KISBENEDEK