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A equipa mais amaldiçoada dos EUA quebrou um enguiço de 108 anos. E pensar que tudo começou com uma cabra

Há 108 anos que os Chicago Cubs não venciam a World Series do basebol americano. Nem sequer atingiam uma final desde 1945, ano em que um adepto lhes rogou uma praga por não o deixarem entrar com a cabra de estimação no estádio. Já toda a gente os tinha como os “adoráveis derrotados” e a piada que circulava sobre eles era esta: “O que disse Jesus aos Cubs? Para nada fazerem até ele voltar”

Diogo Pombo

Elsa/Getty Images

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Era um dia especial. Os Cubs, clube que dava basebol a Chicago, iam para o quarto jogo da World Series, nome que os americanos inventaram para a final, à melhor de sete partidas, do campeonato que, de mundial, não tem nada. Billy Sianis, como muitos, estava em pulgas. Fiel e fervoroso adepto, dono de uma cadeia de restaurantes na cidade, queria o melhor para a equipa e, sem a poder ajudar no campo, quis dar-lhe sorte fora dele. Antes do jogo, foi buscar Murphy, a cabra de estimação e mascote própria, confiante que a presença do animal no estádio iria, por magia, contagiar a sina da equipa.

Billy chegou ao Wrigley Field, recinto do clube, foi à bilheteira e pagou por dois bilhetes. Tinha-os na mão ao acercar-se dos torniquetes, onde um segurança barrou a entrada ao animal que tinha à trela. Chateado com a intransigência de quem guardava a entrada, o empresário mandou chamar P.K. Wrigley, dono dos Cubs. Mostrou-lhe os bilhetes, explicou a situação e pediu que a cabra o acompanhasse para dentro do estádio. O proprietário recusou, ele pediu-lhe uma razão e Wrigley justificou-se – “Porque a cabra cheira mal”.

Billy Sianis passou-se.

Teve que deixar a cabra à porta do estádio, presa algures, enquanto gritou que os Cubs “não iriam ganhar uma World Series” enquanto “a cabra não puder entrar em Wrigley Field”, nome do estádio. Nesse dia, 5 de outubro de 1945, um mês após o fim da Segunda Guerra Mundial, os Cubs perderam o tal quarto jogo das finais. Semanas volvidas, acabaram derrotados na World Series. Quando tudo já estava perdido, o dono do clube recebe um telegrama de Billy, no qual se lia: “Quem cheira mal agora?”. O adepto alinhava do lado da honra da cabra e não do sucesso da equipa que apoiava.

Nos 20 anos que Billy ainda acumulou na vida, os Cubs nunca terminaram acima do quinto lugar na National League, um de dois campeonatos que formam a Major League Baseball. Até esse episódio, a equipa de Chicago era um dos monstros papões do basebol nos EUA, porque venceu 16 ligas e duas World Series. Depois, foi-se vendo um acumular de infortúnios que deram uma tristeza comum às pessoas da cidade. Em 1969, por exemplo, um ano antes de morrer, Billy Sianis disse que levantava a maldição, os Cubs lideraram o campeonato durante quase toda a época, mas perderam na final da National League.

Elsa/Getty Images

Foi quase, como em 2003, quando o nome de Steve Bartman se tornou famoso. Ele, um adepto pacato, de óculos na cara e auriculares nos ouvidos, esticou as mãos para apanhar uma bola batida para a fronteira entre a bancada e o campo. Tocou-lhe e impediu que Moises Alou, dos Cubs, lhe chegasse com a luva. A bola não valeu (foul ball) e este episódio, que virou todos os adeptos contra um, aconteceu ao quarto jogo da final da National League, com um 3-0 a favor dos Cubs. Após Bartman tocar na bola, a equipa acabou por perder esse jogo e os três seguintes.

Não é preciso escrever sobre tacadas, pitches, bolas batidas, ins, outs ou innings para se chegar à moral do que são os Chicago Cubs - uma equipa perdedora e que se viu forçada a acreditar em maldições.

Em 1969, um gato atravessou-se perto do capitão da equipa, em Nova Iorque, em pleno estádio e a meio de um jogo. Atribuíram-lhe as culpas pelo insucesso nessa época. Em 1984, o sobrinho de Billy Sianis até foi convidado a passear uma cabra, supostamente descendente de Murphy, a original, no relvado do Wrigley Field antes de arrancar o primeiro jogo da temporada. Não surtiu sucesso. E podíamos estar aqui a debitar linhas e palavras sobre episódios deste género que se foram sucedendo nos últimos 71 anos.

Até que, em 2015, aparece um homem no clube que era um descrente nestas coisas. “Foi-nos colocado um fardo. Penso, honestamente, que foi mal colocado. Respeito o que aconteceu no passado e respeito totalmente os nossos adeptos. Mas se querem carregar esse fardo com vocês a toda a hora, esta noite nunca teria acontecido”, disse Joe Maddon, treinador dos Cubs, na madrugada desta quinta-feira, acabado de guiar a equipa a uma proeza - 108 anos após colocar o caneco da World Series de 1908, os Chicago Cubs voltaram a ganhar o maior título da Major League Baseball.

A equipa venceu os Cleveland Indians, outro clube esfomeado, mas cujo senhor jejum de 68 anos sem uma World Series se torna um imberbe ao lado do pecúlio dos Cubs. A vitória apenas chegou no sétimo e último jogo das finais, o que esticou ainda mais a espera.

Já não haverá um adepto vivo que se recorde do anterior título, numa época em que Theodore Roosevelt era o presidente dos EUA, um país onde, por exemplo, as mulheres ainda não tinham direito de voto. líder americano atual, que em tempos foi senador de Illinois, estado que acolhe Chicago, ainda quer congratular os jogadores dos Cubs. “Querem vir à Casa Branca antes de eu me ir embora?”, escreveu Barack Obama, na sua conta de Twitter, a menos de uma semana de dar o lugar a Hillary Clinton ou Donald Trump.

Findo o jogo, muitos adeptos foram até ao estádio dos Cubs, onde escreveram num muro o nome dos familiares ou amigos, já falecidos, que não tiveram vida para ver a equipa ser campeã. Ao contrário do ator Bill Murray ou do músico Eddie Vedder, vocalista dos Pearl Jam, que tiveram direito a celebrar com os jogadores, em campo, e partilharem o champanhe.

Os Chicago Cubs mataram o maior jejum, e maldição, que perdurava no desporto americano. E não obedeceram à piada que muitos adeptos de outras equipas lhes atiravam, apesar de simpatizarem com quem apelidavam de “adoráveis derrotados” - “O que disse Jesus aos Cubs? Para nada fazerem até ele voltar”.

Ezra Shaw/Getty Images