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O guarda-redes que gostava de ser odiado e agora virou wrestler

Tim Wiese foi guarda-redes, fez mais de 200 jogos na Bundesliga, esteve no Mundial 2010 e no Euro 2012 e tornou-se conhecido com luvas nas mãos. Há dois anos, com 32, retirou-se, começou a ir ao ginásio e, à medida que ia ganhando músculo, aproximava-se de um sonho que tinha: fazer parte da WWE. Esta quinta-feira estreia-se como wrestler profissional e até Hugo Almeida, que jogou com ele, acha isto mesmo muito estranho”

Diogo Pombo

PATRIK STOLLARZ

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"Era uma pessoa tranquila. Até era magro, todo fitness, gostava de cuidar do corpo, de ser magro, mas definido. Nunca imaginei tal coisa."

Mesmo que seja por mensagem, dá para reparar que Hugo Almeida está surpreso. O avançado, que está hoje no AEK da Grécia, ainda acha “mesmo muito estranho” que um tipo com quem jogou há uns anos, no Werder Bremen da Alemanha, tenha largado as luvas de guarda-redes para se agarrar ao wrestling.

Para ele, e nós, tentarmos perceber o que passou pela cabeça de Tim Wiese, é preciso contar uma história.

Era carnaval. Tim e Tobias Weis, um pouco embriagados, diz-se, estão numa festa na qual só entra quem está mascarado. O primeiro, vestido como um recluso de prisão, vai atrás do segundo, disfarçado de homem das cavernas, para a casa de banho reservada às mulheres. A desculpa, que dão mais tarde, culpa os lavabos dos homens, que estaria cheio. Alguma confusão terá rebentado lá dentro com os dois ao barulho, porque ambos são expulsos do espaço, pouco depois. Aos jornais, um segurança lá do sítio suspeita que “o consumo de álcool” terá provocado o “comportamento rude” com que os jogadores celebraram o feriado.

Como era o futebol, e não as festas, a bebida, as máscaras ou o deboche, a profissão de ambos, o clube que lhes paga o salário não perdoa. O Hoffenheim multa-os e suspende-os por tempo indefinido. O fevereiro de 2013 vai a meio, a temporada da equipa não é famosa - está em 16º lugar da Bundesliga - e o fim da carreira de Tim Wiese começa aí.

Pela forma errática com que se comporta sem as luvas postas, o guarda-redes, de repente, fica com mais tempo livre. Deixa de jogar, o clube castiga-o pelo sucedido, e o alemão vira-se para o ginásio. Não se sentia bem no relvado, os assobios chateavam-no, cedia à pressão do maldizer dos adeptos, quando eles já se comportavam mais como castigadores implacáveis dos erros dos jogadores, do que como apoiantes incondicionais da equipa. “Parecia um filme de terror. A pressão não era humana, não conseguia jogar livremente. Cada vez que perdíamos, parecia que a culpa era minha. Não desejaria isto a qualquer outro jogador”, desabafa Wiese, anos mais tarde, ao “The Guardian”. Chegou ao ponto de os adeptos se unirem num protesto contra ele, à porta da instalações do Hoffenheim.

A suspensão que o clube lhe aplica até o faz feliz. Os pesos e alteres tornam-se os seus melhores amigos, esforça-se para os levantar e para eles lhe erguerem os músculos. Na época seguinte ainda está na equipa, mas retira-se a meio. Tem 32 anos, a idade pródiga dos guarda-redes, e farta-se do futebol.

DANIEL ROLAND

Acaba ali uma carreira com mais de 200 jogos na Bundesliga, seis internacionalizações pela seleção alemã, presenças no Mundial 2010 e no Euro 2012, e com muitos momentos fora da caixa. Quando se despede do futebol, Tim tem a reputação de ser um guarda-redes meio maluco, com o cabelo para lá das orelhas, braços sem pele por tatuar, com hábito de sair com as pernas em riste da baliza (uma vez, pontapeou o croata Ivia Olic no queixo, já fora da área) e de usar a boca para refilar com toda a gente. Se havia um tipo para os adeptos da outra equipa detestarem, era ele.

Já retirado, o alemão arranjou maneira de, em novembro de 2014, aparecer numa modalidade diferente. Tim foi até Frankfurt, onde a World Wrestling Entertainment (WWE), a empresa americana que mistura espetáculo com desporto, organizou um evento. Wiese apareceu, sorriu, distribuiu cumprimentos, sentou-se ao lado do ringue e, no final de um combate, deixaram-no mostrar os músculos para a plateia. “Era um grande fã da WWE em miúdo. Não lhe larguei o rasto durante a minha carreira no futebol, mas nunca pensei em mim como um wrestler”, resumiu, à BBC.

Nessa altura, o tipo que Hugo Almeida, entre 2006 e 2010, via magrinho, a cuidar do corpo e a controlar bem o que comia, terá começado a imaginar-se noutra carreira. Os 90 quilos em 195 centímetros de altura passaram a perto de 130 quilos, à medida que os pesos que Wiese levantava iam sendo tantos quanta a comida que devorava - chegou a comer um quilo de carne por dia e a ingerir mais de seis mil calorias. Tornou-se uma caixa forte de músculo, à imagem e semelhança dos atletas que têm de ser tão bons atores como lutadores, aptidões que aperfeiçoam com horas de treino em Florida, nos EUA, onde está a academia da WWE.

Ele, o atleta que trazia polémica e vontade do futebol, e eles, a empresa que escreve guiões ao pormenor para que quem esteja no ringue não ganhe por ele, mas porque está combinado que vença. A união fez-se com meses e meses de treino que, esta quinta-feira, vão culminar com Tim Wiese a combater dentro do ringue, num evento em Munique.

O alemão será o mau da fita, deixar-se-á ir no papel de detestável, provocador e arrogante, que lhe calhou na rifa que todos os que embarcam no wrestling têm de tirar. “Acho que vou interpretar o papel do mauzão, estou a ser empurrado nessa direção, mas tudo bem. Enquanto jogador, sempre tentei que as pessoas me detestassem. Gosto de conseguir polarizar opiniões. Se fores odiado, as pessoas reagem no campo, nunca tive problemas com isso”, garantiu, já com a figura esculpida de músculo e com o tamanho que intimida só de olhar.

Tim Wiese, o ex-jogador, até já parece sair pouco da personagem de Tim Wiese, o wrestler, porque dá respostas como “eu é que vou infligir castigos, e não sofrê-los, próxima questão”, quando lhe perguntam se teme lesões. Ou diz que não está interessado em lutar contra alguém que defrontou no futebol, pois “ninguém teria coragem” de o fazer. Nem era preciso ele admitir uma coisa - “Eu tenho a conversa fiada [trash talk] no sangue” - para já começarmos a entender como ele chegou a este ponto.

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