Tribuna Expresso

Perfil

Modalidades

Ele é americano, veio cá para jogar o futebol deles e está-se nas tintas para as eleições

Joey Bradley chegou a Portugal no verão de 2015. É quarterback, jogou college football, o passo anterior a ser profissional de futebol americano nos EUA, e fugiu à pressão para jogar nos Lisboa Devils. Ele está contente, porque ter atravessado o oceano permitiu-lhe “fugir ao facto de ter de ouvir as pessoas a falarem todos os dias” sobre as eleições presidenciais que vão escolher entre Hillary Clinton e Donald Trump

Diogo Pombo

Alexandre de Sousa

Partilhar

A voz não engana. Se fosse uma boca e tivesse dentes lá dentro, estaria a mostrá-los todos, feliz da vida, pela forma atende a chamada. Tem na voz a felicidade que sente por estar em Portugal e, a meio do dia, já almoçado, ter acabado de tirar o telemóvel do bolso para falar com um jornalista. A conversa é sobre as eleições cujo resultado, mais logo, vai dar um novo presidente ao país dele. O primeiro pensamento é que o entusiasmo na voz de Joey Bradley se deve a contentamento, à pequena excitação que, às vezes, estes acontecimentos despertam nas pessoas. Mas não, ele está assim, alegre e bem-disposto, por estar longe de tudo o que se está a passar nos EUA.

Joey está em Lisboa há dois verões. Chegou para jogar o futebol que os americanos inventaram lá e, aos poucos, começava a ser jogado por cá, mais a sério. Ele estava cansado da pressão, de sentir que o desporto estava a ser mais trabalho do que diversão e que, no meio das duas coisas, a vontade minguava. Fartou-se. Como farto está de tudo o que tem lê, ouve e vê sobre o que se está a passar na corrida às presidenciais norte-americanas. Mas está “contente” por esta terça-feira ter chegado.

Porque é o dia em que se dará o primeiro passo “para que tudo isto acabe”. Ele diz que está ser honesto. Não sente mágoa, tristeza ou uma eventual pena por estar do outro lado do oceano. Joey está onde quer, longe de uma eleição “que parece ter sido montada para a televisão”. Pergunta-me se eu sei do que ele fala - “you know?” -, mas não preciso de responder para ele me explicar. “Parece que não é para eleger um presidente, é mais uma espécie de jogo que criámos, tipo ‘Quem quer ser presidente?’”, resume, desmanchando-se na gargalhada que, depois, o faz pausar mais o discurso.

Bola na mão. Joey tem 26 anos, é quaterback e, nos EUA, jogou na primeira divisão do campeonato universitário de futebol americano, nos EUA (onde os clubes da NFL vão buscar os jogadores)

Bola na mão. Joey tem 26 anos, é quaterback e, nos EUA, jogou na primeira divisão do campeonato universitário de futebol americano, nos EUA (onde os clubes da NFL vão buscar os jogadores)

Alexandre de Sousa

Alonga-se nas palavras, quer fazer-se entender. Ele é um tipo de 26 anos, loiro e barbudo, que jogava college football e, agora, tem duas aulas de português todas as semanas por ter trocado a primeira divisão universitária pelo país onde o futebol americano é tão imberbe como um bebé que usa fraldas. Inscreveu-se no EuroPlayers, um site que é uma espécie de ponte para quem tenha a ideia de jogar futebol americano fora do sítio onde ele foi inventado. Ao fim de e-mails e chamadas por Skype, os Lisboa Devils convenceram-no. E Joey não tem gostado - tem adorado.

Ainda mais agora, em que consegue “fugir ao facto de ter de ouvir as pessoas falarem” nas eleições “todos os dias e em todos os canais de televisão”. Ele sabe como tem sido nos EUA, onde “mesmo que tentes não te importar com a eleição, és forçado a saber o que se vai passando”. Estar em Portugal, rodeado por uma língua que (ainda) não domina, sem televisão por cabo, “é fantástico”. Porque ele não gosta de muitas coisas desta eleição e do sistema que fez todas as anteriores.

Acha que Hillary Clinton e Donald Trump são “uns idiotas”, nos quais não votou. Nem votará em alguém, porque já não acredita em muita coisa. “Não tenho uma tonelada de fé no nosso sistema político, na maneira como está montado e no Colégio Eleitoral. Sou de Washington, que sempre foi um estado democrático. E quer eu vote nos democratas ou nos republicanos, isso realmente não importará na grande escala das coisas, porque o meu estado vai sempre acabar por votar no candidato democrata”, argumenta, mais sério no tom de voz.

Este ano, se Joey votasse, “votaria no Jill Stein ou Gary Johnson”, a ecologista e o libertário, “mas é quase irrelevante, acaba por ser quase o mesmo que não votar”. Joey tem noção que o que diz pode ser confundido por indiferença - “por pior que soe, é a minha opinião” -, mas sentiu que “não queria ter uma palavra a dizer sobre quem é eleito”. Admite, entre um riso ou outro, que pode ser “uma forma má de olhar para o assunto, porque as pessoas vão argumentar que precisas de votar para que a pior pessoa não ganhe”. Ele, que foi campeão nacional à primeira época com os Lisboa Devils, acha o contrário: “Não devias votar no menos mau de dois males, esse é o maior problema”.

Aí está ele, de taça na mão, quando os Lisboa Devils conquistaram o último campeonato nacional de futebol americano

Aí está ele, de taça na mão, quando os Lisboa Devils conquistaram o último campeonato nacional de futebol americano

Alexandre de Sousa

Tudo isto vem de alguém que nem sempre foi despreocupado em relação a quem manda nos EUA e tem uma Casa Branca para morar. Com “18 ou 19 anos”, vibrou com a eleição de Barack Obama, até ao dia em que se apercebeu que se irritava e “ficava de mau humor, basicamente, sem motivo”.

Desligou-se, perdeu interesse, e chegaria o dia em que trocou de país e se afastou do frenesim de debates, sondagens, discursos e soundbytes que ocupam televisões e jornais. “Percebo o porquê de o mundo estar tão preocupado, mas quase me apetece dizer para não nos darem assim tanto crédito. Sim, isto pode afetar toda a gente, mas temos este controlo todo por causa dos media”, defende, quando acaba já quase a pensar alto, a deliberar o assunto que nos pôs à conversa, com telemóveis no meio.

Mas Joey Bradley desliga essa ficha, não demora a retornar à alegria e ao riso na voz. A descontração é com ele. E o alívio também, porque não vai ser este americano a perder horas de sono para e a ceder à diferença horária para ir sabendo, noite fora, se é Hillary é Trump a ganhar - “Man, nem pensar. Esta noite vou dormir muito bem”.

Palavras-chave

Partilhar